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“Supostamente”, você pode estar destruindo reputações nas redes sociais

Você percebeu como a palavra “supostamente” tem ganhado asas nas redes sociais? Leve, irônica, quase inocente, ela pousa no fim das frases como quem lava as mãos antes do estrago. Um advérbio de aparência jurídica, usado hoje como salvo-conduto moral para a difamação em escala.

Recentemente, o mercado financeiro assistiu a um episódio prático sobre isso. Um vídeo começou a circular afirmando que, “supostamente”, uma das maiores corretoras de valores estaria operando um esquema de pirâmide. O enredo seguia em tom de denúncia grave, misturando conceitos técnicos com a urgência de um alerta público. A história tinha todos os elementos que o algoritmo aprecia: o ataque a um gigante, o medo de perda financeira e a promessa de engajamento através do pânico.

Sem checagem de dados, sem entender a regulação do setor ou ouvir qualquer fonte oficial, uma legião de perfis, nas redes sociais, ligou o celular e recontou o episódio para seguidores que, muitas vezes, nem investidores eram. Havia pressa, emoção e também a possibilidade de monetizar com o alcance daquele escândalo.

Em minutos, o tribunal já estava montado. Perfis consolidados passaram a receber cobranças, e o pedido de posicionamento surgiu como um enxame. A sentença estava quase dada, enquanto a análise técnica e a cautela estavam sonolentas, quase adormecidas. No fim, a acusação não se sustentava na realidade dos fatos, mas a fake news já havia sido amplificada por quem acreditou estar apenas reproduzindo algo “supostamente” verdadeiro. O caso da XP é real e se repete todos os dias, com outros nomes, outros rostos e prejuízos concretos.

Marcas de todos os portes tornaram-se alvos recorrentes dessa dinâmica. Para escapar de processos e do rigor da verificação, muitos recorrem ao truque final. Acrescentam a palavra “supostamente”, quase sempre acompanhada de ironia, emojis e risadas. O ataque segue, a responsabilidade evapora. O problema é que a mentira viaja em velocidade superior ao esclarecimento. A retratação, quando existe, chega cansada, discreta e fora do interesse do algoritmo.

Diante desse cenário, resta às marcas construir algo menos imediato e mais resistente: a reputação. Sendo sólida, ela funciona como um filtro de lucidez. Quando o ataque chega, o público que conhece a essência daquela marca, hesita. E o benefício da dúvida é o maior troféu de uma gestão de imagem bem feita. “Será? Isso não condiz com a postura deles”. Esse breve instante de reflexão é a barreira entre a crise e o cancelamento definitivo.

Por trás de cada “supostamente”, existe um dedo pronto para o disparo. Na urgência de ser o primeiro a falar, muitos perdem a chance de ser o último a permanecer. A verdade é que, quando a poeira do post baixa e o silêncio finalmente chega, o que sobra é a nossa credibilidade. E ela deveria valer muito mais do que um clique.

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Cilene Impelizieri
CEO da Hipertexto e especialista em Comunicação Estratégica

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