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Não é preciso abrir novas empresas e sim fazer com que sobrevivam

Ano após ano, os números comprovam a natureza empreendedora do Brasil. Segundo o governo federal, apenas entre janeiro e novembro de 2025, foram abertos 4,6 milhões de novos pequenos negócios no país. O volume já supera todo o ano de 2024, quando 4,1 milhões de empresas foram criadas. Representa ainda um crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Os dados seriam motivo de comemoração, caso uma estatística bastante incômoda não fizesse parte da nossa economia. De acordo com a pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022, do IBGE, seis a cada dez empresas que nascem no Brasil não conseguem sobreviver após cinco anos de funcionamento. O número pode parecer antigo, mas a realidade provavelmente pouco se alterou nos últimos quatro anos. Abrimos empresas em ritmo acelerado, mas ainda falhamos em garantir sua maturidade ao longo do tempo.

O perfil desses novos negócios ajuda a entender o desafio. Em 2025, os pequenos negócios representaram 97% das empresas abertas no país. Desses, 77% são microempreendedores individuais, 19% microempresas e apenas 4% empresas de pequeno porte. São estruturas enxutas, altamente dependentes do fundador e com pouca margem para erro prolongado. Quando uma decisão falha, o impacto é imediato.

Costuma-se atribuir essa mortalidade à falta de preparo ou de informação. Essa é uma leitura simplista do cenário. Nunca houve tanto acesso a cursos, conteúdos e especialistas. O problema não está na ausência de conhecimento, mas na solidão do processo decisório. O empresário brasileiro raramente quebra por ignorância técnica, ele quebra por carregar sozinho escolhas que se tornam cada vez mais complexas à medida que o negócio cresce.

Conforme a empresa escala, o risco muda de natureza. As decisões ganham peso, os erros ficam mais caros e a margem para testes diminui. O fundador passa a viver um paradoxo comum: está cercado de pessoas, mas isolado nas decisões críticas. Não pode expor dúvidas ao time e não encontra, facilmente, pares que compreendam o tamanho da responsabilidade que carrega.

Empresas raramente morrem de forma abrupta, elas se desgastam aos poucos com  decisões estratégicas adiadas, conflitos não enfrentados, crescimento sem estrutura e o cansaço silencioso de quem não tem com quem dividir dilemas. O faturamento pode até subir, mas a clareza diminui. Quando a conta chega, o espaço para correção já se perdeu.

Falta ao empreendedor um ambiente recorrente de confronto saudável, onde possa revisar estratégias, amadurecer escolhas e aprender com quem enfrenta desafios semelhantes. O verdadeiro gargalo do empreendedorismo brasileiro não está na técnica, mas na ausência de redes que ajudam quem decide a tomar a melhor decisão.

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Tiago Patrício – fundador do allhands

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