O Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH) recebe a exposição “Marlene Barros: tecitura do feminino”,uma iniciativa que transforma o gesto de costurar em ato político e poético. Com abertura no Mês da Mulher, a mostra reúne 13 obras em escultura, crochê e bordado da artista maranhense Marlene Barros, que propõe uma reflexão contundente sobre o corpo feminino, a desvalorização histórica das mulheres e a invisibilização de seus fazeres no campo da arte. A exposição vai ocupar as galerias do térreo do CCBB BH, de 4 de março a 1º de junho, de quarta a segunda, das 10h às 22h. Os ingressos gratuitos estão disponíveis em ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH. Ações formativas também integram a programação no período expositivo.
A exposição transforma o gesto íntimo do costurar em narrativa pública de resistência, pertencimento e reinvenção.Com curadoria de Betânia Pinheiro, a mostra almeja algo maior do que apresentar os trabalhos da artista Marlene Barros. Ergue-se como um gesto de resistência diante do apagamento da arte feminina ao longo da história. “Durante séculos, mãos femininas bordaram silêncios, costuraram ausências e coseram memórias em linhas quase invisíveis. Restrito ao espaço doméstico e marcado pela desvalorização histórica, o trabalho das mulheres foi frequentemente relegado à condição de artesanato, visto como menor e privado. Por isso, neste projeto, agulha e linha tornam-se instrumentos de denúncia e elaboração simbólica: cada ponto carrega um grito contido, uma história que resiste ao esquecimento”, explica Marlene Barros. Com mais de quatro décadas de atuação, a artista, nascida em Bacurituba, no Maranhão, consolidou-se como referência no cenário artístico maranhense, articulando produção, formação e redes culturais por meio do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM.
Inspirado em uma pesquisa iniciada durante o mestrado da artista em Arte Contemporânea na Universidade de Aveiro, em Portugal, Marlene Barros relembra que o projeto partiu de uma ação simbólica. “A proposta era costurar uma casa em ruínas, situada dentro do campus Santiago, que chamava minha atenção sempre que eu passava por lá”. Assim, com a missão de “remendar fissuras do tempo” utilizando a costura, o bordado e o crochê, a casa tornou-se, para Marlene, metáfora do corpo. “A minha intenção não consistia apenas em abordar questões relacionadas à casa, mas utilizar essa prerrogativa para ir além e tocar em aspectos ligados, principalmente, ao universo feminino”, afirma. Para ela, a tecelagem ultrapassa o ofício manual. “Do entrelaçar das linhas como metáfora para vínculos familiares, passando pelo fazer feminino em si, até o fluxo da vida”.
Corpo, padrão e coisificação
Ao reunir trabalhos desenvolvidos ao longo do tempo, a exposição aborda o corpo feminino e sua histórica coisificação – frequentemente reduzido à obrigação de ser belo e classificado conforme padrões normativos colonizados. As obras questionam como a mulher foi empurrada para o lugar do “belo” e como esse corpo passa a ter maior ou menor valor à medida que deixa de corresponder às expectativas impostas.
Marlene Barros também problematiza as condições sociais da mulher, destacando a submissão ao espaço doméstico e as limitações enfrentadas em sua ascensão profissional. A artista provoca: até que ponto o fato de possuir útero e vagina foi usado como justificativa para sua exclusão, especialmente no campo das artes? “Eu fui escolhida para falar sobre o feminino. Nunca nem pensei em falar sobre outra coisa”, declara.
Entre as 13 obras apresentadas, cinco exemplificam a força conceitual da mostra:
Eu tenho a tua cara – Instalação composta por 49 rostos de mulheres com olhos e bocas trocados e costurados, propondo uma desconstrução da identidade e questionando a responsabilidade e a dependência na construção das individualidades, a partir da noção de alteridade.
Caixa Preta – Trabalho que evoca o conceito de dispositivo que registra informações secretas. Caixas com fotografias, intervenções têxteis, colagens e escritas compõem uma espécie de autorretrato expandido, no qual a artista insere referências afetivas e vivências pessoais.
Coso porque está roto – Casaco cujo avesso revela o interior do corpo humano, com órgãos bordados que representam sentimentos. A obra dialoga com o dito popular que associa o ato de remendar à proteção contra o mal agouro, acionando a costura como gesto de reparo simbólico.
Entre nós – Imersão em objetos de crochê que convida à reflexão sobre atividades historicamente atribuídas às mulheres e naturalizadas em contextos de submissão doméstica.
Quem pariu, que embale – Trabalho que problematiza a atribuição quase exclusiva do cuidado dos filhos às mulheres, denunciando sua transformação em dever moral.
A montagem da exposição, coordenada por Fábio Nunes, com produção executiva de Júlia Martins, não segue ordem cronológica. O percurso é livre, permitindo que o público construa sua própria experiência entre matéria, gesto e memória. Para Marlene Barros, o impacto da exposição ultrapassa o espaço expositivo. “Ao recuperar técnicas têxteis como formas de expressão estética, crítica e política, a exposição contribui para a ampliação das linguagens artísticas legitimadas no espaço institucional”, afirma.
Em um contexto contemporâneo marcado por recorrentes casos de violência de gênero e feminicídio, a artista defende o papel da arte como instrumento de transformação social. “A arte tem um papel fundamental porque cria espaços de escuta, questionamento e deslocamento de perspectivas. Ao mobilizar emoções, ela rompe a indiferença”, diz. Para ela, a arte é território de elaboração e enfrentamento. “Um espaço onde as feridas sociais podem ser expostas, discutidas e simbolicamente reparadas”, diz.

Ações formativas
A temporada da exposição no CCBB BH também contempla ações formativas abertas ao público. Durante todo o período expositivo, o público é convidado a interagir com a exposição, num espaço/ateliê, para que ele também faça sua obra, seja bordando, costurando ou crochetando, de forma espontânea.
No dia 7 de março, sábado, das 15h às 17h, acontece uma visita mediada com a artista Marlene Barros e a curadora Betânia Pinheiro. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, das 16h às 18h, a curadora Betânia Pinheiro coordena a palestra “Tecitura do Feminino: Processos”.
A programação oferece, ainda, a oficina “Arpilleras de si”, ministrada pela artista-pesquisadora, psicóloga e psicanalista,Maria Vasconcelos, que desenvolve no doutorado em Psicologia (PPGPsi PUC Minas), uma pesquisa sobre o bordado livre e a costura como formas de expressão e elaboração do trauma em mulheres com histórico de violências. O encontro propõe um espaço de criação e escuta, onde o tecido torna-se suporte para narrativas pessoais: histórias que emergem do simples e complexo fato de ser mulher. Através da técnica da arpilharia e do bordado livre, as participantes são convidadas a materializar memórias e vivências em retalhos. O resultado deste processo coletivo será uma obra-instalação, que passará a integrar a exposição “Marlene Barros – Tecitura do Feminino”. A oficina acontecerá em três momentos: 11 a 14 de março e 15 a 17 de abril, com Maria Vasconcelos, e de 11 a 15 de maio, com Marlene Barros. As atividades serão sempre das 14h às 17h.
As ações formativas oferecerem certificado de 12h e são destinadas a homens e mulheres de todos os gêneros e faixas etárias, residentes em Belo Horizonte. As vagas são limitadas e as inscrições são feitas no link.

Marlene Barros é artista brasileira, nascida no estado do Maranhão, no município de Bacurituba. Coordenadora do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM. É uma artista cuja trajetória é marcada pela inquietação e a vontade de experimentar. Mantendo-se fiel apenas ao tema, que está sempre atrelado ao universo feminino, onde ela aborda temas ligados ao universo da mulher como a maternidade, sexualidade, erotismo, paixão, violência etc. A artista busca algumas vezes revelar como as nossas ideias de ser mulher e mesmo a feminilidade são construídas socialmente. Em outras, persegue a ideia da feminilidade como uma máscara, ou mesmo um conjunto de poses adotadas por mulheres a fim de se conformarem às expectativas da sociedade sobre o ser mulher, deixando transparecer toda uma sensibilidade feminina. Com mais de quatro décadas de atuação, Marlene consolidou-se como referência no cenário artístico maranhense, contribuindo não apenas com sua produção, mas também com a formação de novas gerações de artistas e agentes culturais. À frente do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, atua na promoção do intercâmbio de experiências, na valorização da produção local e na articulação de redes e coletivos culturais que ampliam o alcance da arte maranhense em diferentes territórios. Artista múltipla, desenvolve obras em crochê, escultura, pintura, performance e intervenção artística, revelando inquietação e vontade constante de experimentar. Ao questionar estereótipos e expor contradições, fortalece o papel da arte como instrumento de transformação social e resistência cultural. É Bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA); especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo SENAC; Mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Aveiro em Portugal e Produtora Cultural no Departamento de Atividades Culturais (DAC) na Universidade Federal do Maranhão em São Luís, Maranhão.

Betânia Pinheiro é graduada em Licenciatura/Ed. Artística/Artes Plásticas – UFMA, Especialista em Artes Visuais/SENAC e mestranda em Artes da Cena: Laboratório em Artes e Mediação Cultural/ESCH/ITAU CULTURAL. Integrou a equipe de coordenação da exposição “+500 Mostra do Redescobrimento do Brasil” (Fundação Bienal SP) e esteve como mediadora na exposição “O Brasil de Portinari” (Petrobrás). Atua como Supervisora de Cultura do Sesc Maranhão, supervisionando projetos de cultura nas linguagens Artes Visuais, Audiovisual, Artes Cênicas, Literatura, Memória e Patrimônio e Arte-educação. Desenvolve serviços de curadoria artística e acompanhamento técnico na gestão de projetos internos da instituição e projetos parceiros. De 2007 a 2024 – produziu a Feira do Livro de São Luís, como Curadora e Coordenadora de Espaços de Leitura.



