Notícia

Evento em BH chama atenção para a discriminação racial e o racismo religioso

No dia 21 de março, Belo Horizonte recebe um evento especial em prol do Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações de Candomblé: é o ato “Zumbi e Dandara Vivem em Nós”, organizado pela Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente (CCPJO) e pela Casa Pai Francisco de Angola e Mãe Maria Conga. A data 21/03 – instituída em 2023 pela Lei 14.519/2023 – também celebra o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e em prol do Combate ao Racismo Religioso.

Pelo quarto ano consecutivo, BH recebe esse evento que busca conscientizar as pessoas da importância de proteger a herança cultural, a ancestralidade e as nações do Candomblé, promovendo a tolerância e o respeito à diversidade religiosa. A programação é gratuita e inclui atrações infantis, capoeira, ritualística e shows com Bloco Samba D´Ouro e Cinara Gomes e Dona Eliza.

“É um dia para dizer à sociedade que os povos de matriz africana são a base da identidade do país. Um dia para combater o racismo e o racismo religioso. Por isso é tão importante expandir o entendimento desta data. Não é só mais um dia para celebrar, mas também para ocupar, para tomar posse, reivindicar direitos e denunciar”, explica Pai Ricardo, zelador da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente – um dos organizadores do evento.

A zeladora da Casa Pai Francisco de Angola e Mãe Maria Conga, Mãe Ana Maria, complementa: “É um ato pelo fim da intolerância religiosa, pelo fim do racismo com nossas crianças nas escolas, pelo fim do feminicídio de nossas mulheres e adolescentes, pelo fim do encarceramento dos nossos jovens e homens negros. Queremos mostrar à cidade que a população negra traz a existência a riqueza da diversidade cultural”.

“O 21 de março pra gente é um momento político, para reafirmar nossos direitos, de nos fortalecer, de pedir mais políticas públicas que defendam o povo de matriz africana, de realidade matriz africana. Essa data precisa ser cada dia mais incentivada, precisa de mais recursos porque não se combate o racismo e o racismo religioso sem recursos. Só papel e tinta não vão impedir o ataque às casas, aos terreiros e aos povos de matriz africana”, afirma Pai Ricardo.

O zelador da Casa de Pai Jacob do Oriente reforça que “é preciso preencher os espaços públicos com as nossas cores, nossos corpos. Cada dia é uma forma a mais de reivindicar essa atenção, de reivindicar esse respeito”

Segundo ele, além do racismo, o feminicídio também será pauta do evento. “A maioria das casas de matriz africana que são atacadas, tem as matriarcas na direção. Em BH temos os casos envolvendo a Mãe Gilda, Cailane, Bernadette que foi assassinada no Quilombo, dentre outras. Há um ataque sistemático às mulheres e isso não pode continuar”.

O evento é uma realização da sociedade civil por meio da CCPJO e da Casa Maria Francisco, com apoio cultural da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundação Municipal de Cultura.

Números
Segundo a Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC), mais da metade (51%) da população brasileira já presenciou alguma situação de racismo e 81% dos brasileiros acreditam que somos um país racista. Dados da Fundação Cultural Palmares também apontam que a população negra, é a maior vítima de homicídios, representando 77,9% dos casos.

Os processos criminais por racismo no Brasil atingiram um número recorde em 2025, com mais de 8.500 novas ações registradas. Este número representa um salto considerável em comparação com o período anterior: nos 10 primeiros meses de 2024, foram contabilizados 4.205 novos processos.

Racismo religioso: O Brasil registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, conforme o canal Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). As denúncias de racismo religioso cresceram 12,2% em comparação ao período anterior.

Em novembro de 2025, o MDHC lançou a publicação do Relatório Final e do Caderno Informativo “Respeite Meu Terreiro”, que mapeou casos de intolerância religiosa contra religiões de matriz africana em 255 terreiros de todas as regiões do país. A pesquisa aponta que 76% dos terreiros participantes afirmaram já ter sofrido algum tipo de racismo religioso, e que 80% relataram que membros de suas comunidades foram vítimas diretas dessas violências.

O racismo religioso aparece como elemento estruturante dessas ocorrências, manifestado por meio de agressões verbais, ameaças, depredações, interrupções forçadas de rituais e discriminação institucional, além de indicar que 93% dos terreiros com mais de 100 frequentadores já vivenciaram situações de racismo religioso, relevando a relação entre visibilidade comunitária e exposição à violência. O documento apontou, também, que 76% dos casos envolvem discriminação; 14% agressões verbais; 8% xingamentos; e 3% agressões físicas.

História
21/03: Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e em prol do Combate ao Racismo Religioso

Essa data foi proclamada como Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial em 1966 pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960 na África do Sul. Durante a tragédia, uma manifestação pacífica contra as Lei do Passe do Apartheid – legislação racista que exigia que a população negra portasse cadernetas indicando onde podiam circular. Resultou em 69 mortos e 180 feridos, a grande maioria negra. No mesmo ano, mais de 20 mil pessoas, de diversas comunidades negras africanas, protestaram contra a Lei como ferramenta de luta contra o racismo durante o Apartheid.

No Brasil somente em 2023 foi decretado como crime qualquer ação resultante de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, com a instituição da Lei 7.716.  Além disso, em 5 de janeiro de 2023 foi sancionada a Lei nº 14.519/2023, que institui o Dia Nacional das Tradições de Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.

Deixe um comentário