O que acontece quando um dos intelectuais mais prolíficos de Minas chega às portas do paraíso e é barrado por três petições que sugerem o inferno como destino? Esta é a premissa de “Angelin, Professor de Humor”, espetáculo que estreia no dia 24 de abril, sexta-feira, no Teatro Feluma. A peça, uma iniciativa do Instituto Cultural Ciências Médicas da Fundação Educacional Lucas Machado FELUMA, que conta com o patrocínio da Seguros Unimed através da Lei Rouanet, é, acima de tudo, uma homenagem ao legado do médico, escritor, zoólogo, ambientalista, professor e um dos criadores do Show Medicina, Ângelo Machado, falecido em 2020. Os ingressos podem ser adquiridos pela plataforma Sympla, a partir de R$25,00.
Autoficção
Em “Angelin, Professor de Humor”, a trama propõe um exercício de metalinguagem: para entrar no céu, Angelin precisa fazer um espetáculo sobre sua vida. Ele pede ajuda a três figuras importantes em sua história — Carlos Nunes, Jota Dângelo e Mamélia Dornelles — e, juntos, a partir da biografia de Ângelo Machado, eles criam as cenas que poderão garantir sua entrada no paraíso.
O texto e a direção de Jair Raso costuram as diversas facetas de Ângelo Machado: sua amizade com Jota Dângelo e a criação do Show Medicina; sua paixão pela glândula pineal e pelas libélulas; seu trabalho literário e o relacionamento afetuoso com sua esposa Conceição.
A montagem conta ainda com Carolina Cândido e Diego Krisp no elenco, além de uma ficha técnica composta por grandes nomes da cena mineira, como Suely Machado (Primeiro Ato), LOR (médico e cartunista), e do músico Rodrigo Borges (cantor e compositor da nova geração do lendário Clube da Esquina), entre outros.
Segundo o ator Carlos Nunes — protagonista do sucesso de público “Como Sobreviver em Festas e Recepções com Buffet Escasso” (texto do livro de Ângelo Machado), que agora
assume o desafio de se desdobrar em dois papéis, representando ele mesmo e o próprio Ângelo -, levar ao palco a biografia do médico é motivo de alegria, porque há esperança de que seu exemplo seja seguido pelas novas gerações.
“Tem uma frase do professor que diz: ‘A vida sem humor não tem a menor graça’. Creio que não teria outra forma de homenageá-lo senão com humor e alegria. Sempre fiz piadas comigo mesmo e vejo isso claramente nas falas dele”, diz o artista, que completa ainda: “Quando fizemos juntos a adaptação do livro ‘Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso’ para o teatro, em momento algum tivemos conflitos. Tínhamos tardes inteiras de boa prosa, sempre regadas à humor. Eu creio que o meu humor se parece muito com o dele. Acho mais fácil representar o professor do que a mim mesmo”, conta.
Legado
Para Jair Raso, o maior legado de Ângelo são os discípulos que ele formou em diversas áreas, fruto de sua atuação apaixonada e séria em campos como a neuroanatomia funcional, zoologia, meio ambiente, literatura e teatro.
“Uma das facetas que mais admiro no Ângelo é transformar uma adversidade em vantagem usando como ferramenta o humor. O humor de seus textos é apenas a parte mais conhecida, mas ele utilizou-se, por exemplo, da autozombaria para driblar as limitações físicas provocadas por sua miopatia. Para mim, Ângelo Machado é um grande brasileiro, um grande personagem de nossa história”, destaca.
Cena: tecnologias e Inteligência Artificial
Na encenação de “Angelin, Professor de Humor”, integram-se à dramaturgia cenas criadas por Inteligência Artificial e projetadas em um grande painel de LED. Além disso, há uma cena que utiliza captação de imagem ao vivo (live cinema).
Embora se utilizem essas tecnologias, para Jair o trabalho é centrado no ator: “Costumo dizer que a tecnologia é apenas embalagem. Neste espetáculo, ela é essencial para permitir o desdobramento dos papéis do Carlos Nunes e projetar a pineal e o paraíso na visão de Ângelo Machado. Há também um personagem-luz. Tudo isso tendo como base o ator e o texto teatral”, complementa.
Humor e amor
Para a cenógrafa e diretora do Instituto Cultural Ciências Médicas ICCM-MG, Andrea Raso, a peça é um retrato do amor pelo que se faz.
“Um dos pilares do Instituto Cultural Ciências Médicas é justamente fomentar a arte, difundir o conhecimento e preservar a memória. O espetáculo é uma síntese disso. A forma como Ângelo elegeu o humor como mecanismo para realizar a dificílima tarefa de tornar fácil o que é difícil. Assim foi com a neuroanatomia, com a ecologia, com a dramaturgia e, principalmente, com a vida. Essa estreia nos apresenta um personagem que cultiva a curiosidade e o amor pelo que faz, num entrelaçamento das múltiplas escolhas. E convenhamos, não há nada mais eficiente do que amar”.
Show Medicina
Um capítulo à parte nesta montagem é o Show Medicina, grupo teatral criado em 1954 por Jota Dângelo, então aluno de medicina na UFMG. O grupo é o elo fundamental entre o homenageado, um de seus criadores, e o diretor Jair Raso. Ambos compartilham a trajetória de unir a medicina à arte. Jair, além de neurocirurgião e professor da Faculdade de Ciências Médicas de MG, ostenta quarenta anos de trajetória no teatro.
“O Show Medicina é um dos grandes movimentos da cena teatral mineira há mais de 70 anos. Mas sua importância é maior na formação médica do que propriamente na cena teatral mineira, pois é uma poderosa ferramenta pedagógica desenvolvida, aprimorada e executada pelos próprios estudantes”, comenta o diretor.


