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Lipedema: a doença da “gordura inflamada” que muitas mulheres tratam como excesso de peso

Frequentemente confundido com a obesidade comum, o lipedema é uma condição crônica que atinge cerca de 12,3% das mulheres brasileiras, segundo dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diferente do acúmulo de gordura tradicional, essa patologia se caracteriza por uma inflamação progressiva do tecido adiposo, concentrando-se de forma simétrica nas pernas e, por vezes, nos braços. O grande desafio reside no fato de que essa gordura é metabolicamente resistente a dietas restritivas e exercícios físicos intensos, o que faz com que muitas pacientes enfrentem anos de diagnósticos equivocados e tratamentos ineficazes que ignoram a raiz biológica do problema.

Rafael-Fantin Lipedema: a doença da "gordura inflamada" que muitas mulheres tratam como excesso de peso
Rafael Fantin

Para o endocrinologista e metabologista Rafael Fantin, a diferenciação entre o excesso de peso e a doença pode ser feita através da observação de sinais específicos no dia a dia. “O lipedema costuma apresentar sintomas como dor ao toque, sensação de peso nos membros e uma facilidade incomum para o surgimento de hematomas, mesmo sem traumas significativos. Além da desproporção visual, a paciente pode sofrer com outros reflexos da inflamação sistêmica, como enxaquecas, TPM severa e até quadros de endometriose, já que a gordura inflamada interfere diretamente no equilíbrio hormonal e metabólico”, explica.

A visão de que o lipedema é apenas uma questão de queimar calorias é um dos maiores equívocos apontados pelo médico. Ele ressalta que, por envolver uma disfunção no tecido adiposo que retém líquidos e libera substâncias inflamatórias, o tratamento precisa ser sistêmico para ser eficaz. “Se focarmos apenas em procedimentos locais para quebra de gordura sem tratar a causa, o organismo volta a receber mensagens para armazenar gordura exatamente no mesmo lugar. É fundamental regularizar o metabolismo e rever a parte hormonal para que o corpo pare de sustentar esse processo inflamatório contínuo”, pontua Fantin.

O impacto de ser tratada apenas como obesa vai além do físico, atingindo severamente o bem-estar psicológico da mulher. Muitas pacientes relatam um histórico de frustração e culpa ao não verem resultados nas regiões afetadas, mesmo com esforços extremos. Segundo o especialista em Medicina do Exercício e Esporte, o diagnóstico tardio prolonga um sofrimento desnecessário. “Muitas mulheres passam anos ouvindo que falta força de vontade, o que gera ansiedade e baixa autoestima. O acolhimento médico é parte da cura; validar os sintomas e explicar que existe uma condição clínica por trás daquela aparência traz um alívio imenso e permite um plano de cuidado humanizado”, afirma.

No campo das estratégias práticas, o controle alimentar desempenha um papel de suporte, mas não de solução isolada. A prioridade deve ser evitar gatilhos inflamatórios presentes em ultraprocessados, açúcares e farinhas refinadas, que tendem a agravar o volume e a sensibilidade dos membros. O endocrinologista destaca que o tratamento ideal é multidisciplinar. “Não se trata apenas de cirurgia. O uso de compressão, drenagem linfática e exercícios de baixo impacto são pilares que devolvem a mobilidade. Uma dieta com foco antioxidante ajuda a reduzir o inchaço e a inflamação, permitindo que a paciente retome a qualidade de vida e a funcionalidade no cotidiano”, reforça.

Ao entender que o lipedema exige uma abordagem que une regulação metabólica, ajuste no estilo de vida e, em alguns casos, intervenções técnicas, é possível frear a evolução da doença. O acompanhamento especializado garante que a estratégia não seja apenas estética, mas voltada para a saúde integral. Com o diagnóstico correto e o manejo dos processos inflamatórios, a jornada de tratamento deixa de ser um ciclo de restrições sem fim e passa a ser um caminho de autoconhecimento e controle sobre a própria saúde.

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