No Brasil, o Dia das Mães costuma destacar o papel central dessas mulheres no cuidado com a família, inclusive na organização do orçamento doméstico. Mas, quando o assunto é planejamento financeiro, os dados mostram um cenário de alerta: quem cuida das contas da casa está também entre as mais pressionadas financeiramente.
Uma pesquisa divulgada, em agosto de 2025, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados do IBGE, indicou que mais de 41 milhões de lares no país são chefiados por mulheres, um avanço em autonomia que, ao mesmo tempo, evidencia o acúmulo de responsabilidades e desafios. São elas que organizam o orçamento, priorizam despesas essenciais e garantem o equilíbrio das contas no fim do mês.
Dados de 2026 do Raio X do Investidor Brasileiro, estudo da ANBIMA em parceria com o Datafolha, revela que as mulheres concentram maior nível de estresse financeiro no País, representando 53% das pessoas nessa condição. Além disso, são maioria entre quem gasta mais do que ganha, comportamento que compromete a capacidade de poupar e investir.
Na prática, esse cenário se traduz em maior vulnerabilidade. Entre os brasileiros que enfrentam dificuldades financeiras mais intensas, há menor presença de reserva de emergência, menor hábito de poupança e menor participação em investimentos. Hoje, 64% da população não investe e mais da metade não guarda dinheiro, o que limita a construção de segurança financeira no longo prazo.
O impacto também aparece no planejamento futuro e, nesse ponto, há um recorte importante de gênero. Dados do próprio Raio X do Investidor mostram que, entre as mulheres, é mais comum a priorização do bem-estar e do futuro dos filhos em detrimento do planejamento individual. Muitas direcionam recursos para educação, saúde e segurança da família, mas adiam ou deixam em segundo plano a própria aposentadoria. Apenas 16% dos brasileiros começaram a investir para esse objetivo, e entre as mulheres esse movimento tende a ser ainda mais tardio. Enquanto isso, entre os aposentados, 93% dependem exclusivamente do INSS, o que pode representar queda de renda ao longo dos anos.

Desigualdade e sobrecarga ajudam a explicar o cenário
A maior vulnerabilidade financeira das mulheres não é resultado apenas de comportamento individual, mas de fatores estruturais. Entre eles, está a desigualdade de renda, que ainda faz com que mulheres ganhem menos, em média, do que homens, reduzindo a capacidade de acumular recursos. Soma-se a isso a sobrecarga de trabalho doméstico e cuidado com filhos. Segundo o IBGE, mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais a essas atividades em comparação aos homens, o que limita tempo e energia para planejamento financeiro e busca por informação.
Outro fator relevante é o acesso à educação financeira. Dados da ANBIMA reforçam que apenas 21% da população brasileira participou de algum curso ou atividade sobre o tema. Entre os investidores, essa proporção sobe para 33% e cai para 14% entre as pessoas que não investem. Ainda assim, esse cenário vem mudando de forma consistente nos últimos anos com o maior acesso à conteúdos sobre educação financeira.
Dados recentes da B3 mostram um avanço gradual da presença feminina no mercado de capitais, com crescimento no número de investidoras, inclusive em produtos de maior risco — no ano de 2025, cerca de 54.963 mulheres passaram a investir em produtos de renda variável. Esse movimento indica uma mudança de comportamento importante, com mais mulheres buscando informação, diversificação e protagonismo nas decisões financeiras.
“Existe uma sobrecarga invisível. Muitas mulheres estão à frente da organização financeira da casa, priorizam o bem-estar dos filhos, mas não conseguem estruturar o próprio planejamento de longo prazo. Isso aumenta a exposição a imprevistos e compromete o futuro. Entretanto, com alguns passos simples, é possível começar o planejamento financeiro para mudar esse cenário”, afirma Cecília Perini, sócia e líder da XP em Minas Gerais.
Como mudar esse cenário
Para Cecília, o avanço passa por medidas simples, mas consistentes, que ajudam a construir autonomia financeira ao longo do tempo.
“Não é necessário começar com grandes valores. O mais importante é criar consistência e transformar o cuidado com o dinheiro em hábito”, explica.
Entre as principais orientações estão:
Criar uma reserva de emergência: priorizar um valor que cubra de três a seis meses de despesas, com liquidez e baixo risco;
Separar finanças pessoais dos familiares: garantir que a mulher também tenha um planejamento próprio, além das despesas da casa;
Começar por investimentos simples: produtos de renda fixa, como Tesouro Selic e CDBs, podem ser porta de entrada;
Automatizar o hábito de investir: programar transferências mensais, mesmo que com valores baixos;
Buscar informação confiável: evitar decisões baseadas apenas em redes sociais e procurar orientação especializada.
A especialista reforça que o alerta é necessário e que a mudança de comportamento é possível, dentro da realidade de cada um. “Cuidar da família também passa por garantir segurança financeira a longo prazo para quem sustenta esse cuidado.
Não espere ter uma quantia que considera “ideal” para começar, comece pequeno, crie o hábito e vá evoluindo com o tempo. Sempre que preciso, busque orientação especializada. Planejar reduz o estresse e traz mais oportunidades para a realização de sonhos”.


