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Capacidade de pagamento das famílias alcança pior nível desde 2014

A inadimplência segue entre os principais desafios para as famílias de Belo Horizonte. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), analisada pelo Núcleo de Estudos Econômicos da Fecomércio MG e aplicada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 65,3% das famílias da capital mineira possuíam contas em atraso em julho de 2026. Além disso, 31,2% declararam não ter condições de quitar essas dívidas, o maior percentual observado em toda a série histórica da pesquisa iniciada pela CNC em 2014.

Embora o percentual de endividados tenha permanecido elevado, em 88,2%, o principal sinal de preocupação está relacionado ao agravamento da inadimplência. Os dados históricos mostram que o percentual de famílias que afirmam não ter condições de pagar suas dívidas alcançou o patamar recorde da série, demonstrando uma deterioração da capacidade financeira de parte relevante da população belo-horizontina.

Outro indicador que reforça esse diagnóstico é a persistência do atraso prolongado. Entre as famílias com contas pendentes, 51,2% informaram estar com pagamentos atrasados há mais de 90 dias, enquanto o tempo médio de inadimplência alcançou 67 dias.

O cartão de crédito continua sendo o principal tipo de dívida dos consumidores da capital, presente em 96,6% dos casos de endividamento. Em seguida aparecem os carnês de lojas (33,1%), financiamentos de veículos (9,4%), crédito pessoal (7,9%) e financiamentos habitacionais (6,3%).

Para a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, o resultado sinaliza que o problema das famílias não está apenas na existência da dívida, mas na dificuldade crescente de administrar compromissos financeiros em um ambiente econômico ainda desafiador. “Os resultados mostram que a inadimplência passou a ser a principal preocupação. A maioria das famílias continua acessando crédito e mantendo compromissos financeiros, mas uma parcela cada vez maior enfrenta dificuldades para honrar essas obrigações. Isso ocorre em um contexto marcado por juros elevados, maior comprometimento da renda e aumento dos gastos essenciais, como alimentação, energia elétrica, transporte e outros itens que pressionam o orçamento doméstico”, afirma Gabriela Martins.

Segundo a economista, diversos fatores têm contribuído para o aumento das dificuldades financeiras observadas nos últimos meses. “Além da elevação dos custos de vida, observamos uma ampliação das modalidades de crédito utilizadas pelas famílias. O avanço do crédito consignado, especialmente entre os trabalhadores formais com acesso facilitado ao produto, pode gerar uma falsa sensação de folga financeira no curto prazo, mas compromete parcelas futuras da renda. Outro fenômeno que merece atenção é o aumento dos gastos associados às apostas esportivas on-line. Embora não sejam contabilizados diretamente como dívidas na pesquisa, esses desembolsos disputam espaço com despesas essenciais e podem comprometer a capacidade de pagamento dos consumidores mais vulneráveis”, explica Martins.

A situação é mais delicada entre as famílias com renda de até dez salários-mínimos. Nesse grupo, 67,2% possuem contas em atraso e 32,8% afirmam não ter condições de regularizar seus débitos, índices superiores aos observados entre os domicílios de renda mais elevada.

O aumento prolongado da inadimplência tende a restringir o consumo, reduzir o acesso ao crédito e impactar negativamente a atividade econômica local. “Quando a inadimplência permanece elevada por um longo período, há perda de poder de compra, maior dificuldade de acesso a novas linhas de crédito e redução do consumo das famílias. Como Belo Horizonte possui uma economia fortemente baseada nos setores de comércio e serviços, esse movimento merece acompanhamento constante, pois afeta diretamente o dinamismo econômico da capital”, conclui Gabriela Martins.

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