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Carminho traz a Belo Horizonte a turnê de ‘Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir’, com  nova leitura do fado

Carminho reafirma o fado como uma linguagem viva, aberta ao diálogo com o presente. É essa visão que conduz a turnê mundial de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” (Sony Music), sétimo álbum da cantora e compositora portuguesa. Ela chega a  Belo Horizonte para uma apresentação única no Sesc Palladium, dia 19 de agosto.

 Mais do que apresentar um novo repertório, Carminho convida o público a percorrer um universo em que tradição e experimentação caminham juntas. Centrado nas canções de seu mais recente trabalho — composto majoritariamente por músicas autorais —, o espetáculo amplia os horizontes do fado sem romper com suas raízes, revelando uma artista que faz da herança portuguesa matéria-prima para novas possibilidades de criação.

O setlist tem como base o álbum “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” (2025), que tem Carminho como autora de 8 das 11 faixas. Em “Saber”, ela divide os vocais com a lendária Laurie Anderson, que sussurra versos em inglês sobre a poesia da portuguesa Ana Hatherly (1929–2015). A poeta também inspira “Balada do país que dói”, na qual o lirismo se une à experimentação com guitarra portuguesa, mellotron e até o uso do Vocoder, operado pela própria Carminho. Outro destaque é “Canção à ausente”, poema de Pedro Homem de Mello, que fala da espera e da ausência amorosa. Já “Sofrendo da alma”, sobre versos de Amália Rodrigues, reforça a ligação emocional com as raízes do gênero. 

“Esse disco é a continuação do trabalho que tenho feito, de pesquisa e de prática sobre o fado tradicional, que eu acredito ser uma língua viva. Ela está aqui para nos servirmos dela, para podermos nos expressar”, afirma. “Busquei em poemas mais ambíguos e em sentimentos mais plurais o meu interesse na interpretação”, explica a artista. 

Carminho também deve apresentar “Chuva no Mar”, dueto seu com Marisa Monte, e canções do álbum que gravou sobre a obra de Tom Jobim. O título Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir nasceu de um poema do escritor português Antônio Campos Monteiro, encontrado entre manuscritos e recordações que Carminho recebeu da lendária fadista Beatriz da Conceição. A frase sintetiza a essência do álbum: se o fado tantas vezes canta a morte por amor, também pode celebrar a força de resistir.

Esse poema traz a ambiguidade que eu procurava e a vertigem que me encantou nesta ideia de que se morre muito de amor no fado, mas há sempre a hipótese de resistir. Essa é apenas uma imagem para outras ambiguidades que podem estar presentes dentro do ser humano”, explica. “Eu sou várias vozes, várias interrogações. É importante que não haja uma só verdade dentro de nós. Não nos definimos por um momento ou por uma atitude; somos uma pluralidade de acontecimentos.

Resistência

A noção de resistência atravessa igualmente sua visão sobre a criação artística feminina. Para Carminho, ocupar o palco, exercer a liberdade de criação e construir uma trajetória própria continuam sendo gestos profundamente significativos. “Hoje em dia a mulher tem a oportunidade de se expressar livremente e de ter a sua própria carreira e sua voz. Acredito que, ao continuar nessa jornada, por si só, a voz feminina já é um ato de resistência.”

O álbum também presta homenagem às mulheres que moldaram a história do fado. A cantora reconhece a influência de artistas como sua mãe Teresa Siqueira, Beatriz da Conceição, Amália Rodrigues, Wendy Carlos e Annette Peacock, entre outras, cujas vozes e trajetórias abriram caminho para novas gerações de intérpretes. “Este disco foi muito inspirado nas vozes que ouvi, no ambiente fadista a que tive acesso. É também inspirado nas mulheres que usaram a voz como forma de abrir caminho para outras, através da coragem das atitudes, da arte e da própria vida.”

A ligação de Carminho com a música brasileira permanece intensa, cultivada através da forte amizade com grandes nomes da MPB, mas também observando novos artistas que se destacam. “Quando me perguntam por artistas jovens brasileiros que escuto, digo que são muitos, porque, realmente, a geração é muito viva: Agnes Nunes, Marina Sena, Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, Silva, Tim Bernardes, Jotapê e Zé Ibarra. Há muita gente fazendo um trabalho muito bonito.”

O diálogo entre Brasil e Portugal também se reflete em suas referências musicais, como comprova sua forte relação com gigantes da música brasileira, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Marisa Monte e Milton Nascimento, e por Carminho ser considerada uma das mais relevantes conexões contemporâneas entre o fado e a música brasileira. Já lançou um álbum dedicado à obra de Tom Jobim e no repertório do show da turnê está a canção “Sabiá”, clássico de Tom e Chico.

Relação com o Brasil

Dos brasileiros que acompanham seu trabalho, a cantora portuguesa admira o jeito expressivo e atento. “É um público muito carinhoso, fiel, que se expressa imensamente. Acho que tem um orgulho imenso de suas raízes e seus artistas. Isso me orgulha também”, diz. “Uma das maiores alegrias que tenho ao saber que vou tocar no Brasil é, exatamente, me reencontrar com muitos amigos e passar por cidades com as quais já estabeleci uma relação emocional”, revela.

Embora tenha apresentado algumas músicas do novo álbum quando esteve no Brasil em 2025, a turnê que chega agora ao país traz um show completamente renovado, com cenografia e iluminação inéditas e novos instrumentos incorporados às canções como Cristal Baschet, Ondes Martenot e o Vocoder.

“Não é uma necessidade de mudança, nem uma pretensão de mudar o fado. Não há uma busca desenfreada por novidade ou por modernidade. Procuro algo que eu goste de ouvir e que continue a fazer sentido para mim, dentro do gênero musical que é o meu e da linguagem que é a minha. Portanto, existe essa adrenalina de procurar os limites da linguagem”, revela.

Sobre os próximos passos, Carminho afirma que um deles é seguir com a turnê, levando ‘Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir’ a outros palcos. “É algo que me dá muito prazer e alegria, como também abre portas para novos discos e para novas canções. Ao mesmo tempo em que ponho em prática aquilo que criei, se abre um novo momento criativo”, acredita a cantora.

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