Por Kátia Matias
Uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea, Ana Maria Gonçalves esteve em Belo Horizonte nesta semana e conversou com o Portal BH Em Pauta sobre sua trajetória, obra e novos projetos.
Autora de Um Defeito de Cor, considerado um dos romances mais relevantes da literatura nacional nas últimas décadas, a escritora revisita os desafios da criação da obra, analisa o impacto contínuo do livro no debate sobre identidade e memória no Brasil e reflete sobre sua recente entrada na Academia Brasileira de Letras.
Durante a entrevista, Ana Maria também antecipa detalhes de seu próximo livro, Matriorcado, previsto para 2027, que promete ampliar discussões urgentes ao abordar a menopausa e seus efeitos na vida das mulheres.

Sobre a criação de Um Defeito de Cor
O romance se tornou uma das obras mais marcantes da literatura brasileira contemporânea. Quais foram os principais desafios e descobertas ao construir essa narrativa tão potente?
Acho que o principal desafio foi não encontrar o livro que eu gostaria de ler. Gosto muito de parafrasear a Toni Morrison, quando ela diz que escreveu o livro que queria ter lido. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Um Defeito de Cor nasceu de uma busca pessoal — de identidade, como mulher negra — e de uma necessidade de entender o passado e o caminho até aqui. Como não encontrei uma obra que me contemplasse, resolvi escrever.
Foram dois anos intensos de pesquisa. Existe um mito de que os documentos da escravidão foram totalmente queimados no Brasil, mas isso não é verdade. Há muito material disponível, e o desafio foi selecionar o que realmente fazia sentido para a história.
A primeira versão tinha mais de 1.400 páginas. Foi um longo processo de reescrita até entender o que era essencial para o livro.
Processo de escrita e trajetória
Como foi o processo até a publicação da obra?
Eu me considero uma pessoa de muita sorte. A literatura escrita por pessoas negras no Brasil enfrenta muitos obstáculos, e muitos autores precisam publicar de forma independente.
No meu caso, consegui ser publicada pela editora Record, com apoio do Millôr Fernandes. Além disso, tive uma condição rara: pude me dedicar exclusivamente ao livro por cinco anos. Eu vendi um apartamento e usei o dinheiro para me sustentar durante esse período.
Hoje, olhando para trás, entendo que essa história precisava ser contada. E talvez tenha contado com uma proteção espiritual para chegar até aqui, 20 anos depois.
Impacto da obra ao longo dos anos
O livro ganhou ainda mais projeção recentemente. Como você enxerga esse impacto hoje?
O livro nunca deixou de vender, mas teve alguns momentos de grande visibilidade. Um deles foi uma mesa com a Conceição Evaristo na FLUP, que trouxe o livro novamente para o centro das discussões.
Durante a pandemia, as pessoas passaram a ler mais, o que também impulsionou as vendas. Depois vieram as exposições — no MAR, no Mucab, em Salvador, e no Sesc Pinheiros — que funcionaram como uma “tradução” do livro para as artes visuais.
Mas o grande salto foi o desfile da Portela. O livro esgotou em todas as plataformas e teve novas edições rapidamente. Foi quando a obra realmente rompeu todas as bolhas.
Possível adaptação para o audiovisual
Você imagina Um Defeito de Cor no cinema ou na TV?
Acredito que a história precisa chegar ao audiovisual para alcançar outros públicos. Mas não sei se caberia em um único filme.
Talvez uma série ou até uma trilogia. O projeto já esteve com a Globo por alguns anos, mas não foi desenvolvido. Agora estou estudando o mercado para entender o melhor formato.
Entrada na Academia Brasileira de Letras
Sua entrada na ABL representa um momento histórico. O que essa conquista simboliza?
É uma conquista coletiva. Entro na Academia como mulher negra e escritora negra, em uma instituição que historicamente não refletia a diversidade da produção cultural brasileira.
Gosto de lembrar que esse movimento começou com a candidatura da Conceição Evaristo, em 2018. Aquilo foi um ponto de virada, um momento em que a Academia precisou se olhar.
Eu sou a primeira, mas espero não ser a única. Que outras portas se abram.
Novo livro: Matriorcado
Seu próximo livro vai abordar a menopausa. O que motivou essa escolha?
Foi uma das experiências mais impactantes da minha vida. Mais uma vez, senti falta de um livro que eu gostaria de ter lido.
A menopausa ainda é um tabu. Eu nunca conversei sobre isso com minha mãe, minhas tias ou avós. Não sabia o que esperar.
Só percebi que estava passando por esse processo depois de anos lidando com sintomas isolados. Isso acontece com muitas mulheres, que acabam sendo tratadas sem um diagnóstico adequado.
Estamos falando de mais da metade da população brasileira. Todas as mulheres que chegam a determinada idade passam por isso, e ainda assim não existe uma política pública estruturada sobre o tema. Precisamos falar sobre menopausa e cobrar programas de saúde pública no SUS.
O título faz referência a “matriarcado” e “orcas”. Isso porque estudos apontam que essa espécie também passa pela menopausa.

Um defeito de cor
Publicado em 2006, Um defeito de cor foi eleito o livro mais importante da literatura brasileira do século 21. A obra narra a história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que atravessa o oceano em busca do filho perdido há décadas.
Ao longo da narrativa, a personagem revisita sua trajetória marcada por violência, perdas e pela experiência da escravidão, em um retrato profundo e sensível da formação do povo brasileiro. Com uma construção literária potente, que entrelaça fatos históricos ao cotidiano dos personagens, o romance se destaca pela intensidade e pela capacidade de envolver o leitor da primeira à última página.
Um Defeito de Cor completa 20 anos reafirmando sua relevância como uma obra essencial para compreender a história, a memória e a identidade brasileira — e segue conquistando novos públicos em diferentes linguagens.

Ana Maria Gonçalves
Nascida em Ibía, no norte de Minas Gerais, em 1970, Ana Maria Gonçalves é formada em Publicidade, carreira que deixou após 15 anos para se dedicar integralmente à escrita. Desde então, utiliza a literatura como instrumento de resgate e reconstrução da memória brasileira.
Com Um defeito de cor, obra de 951 páginas escrita ao longo de cinco anos, a autora consolidou seu nome como um dos mais importantes da literatura nacional contemporânea.
Em 2025, foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na instituição fundada por Machado de Assis.
Foto de capa da matéria: Dani Paiva – Divulgação ABL


