A inteligência artificial já não é um assunto distante na medicina. Na cardiologia, ela aparece no consultório, no pronto-socorro, na UTI, nos laudos de exames, nas imagens e até no relógio que muitos pacientes usam no pulso.
O que há pouco tempo parecia tema de congresso hoje faz parte da rotina, às vezes de maneira tão discreta que quase não percebemos. Tenho visto isso com frequência crescente. Um paciente procura atendimento porque o relógio inteligente alertou para uma possível arritmia. Ele não tinha falta de ar importante, não sentia dor no peito e talvez nem fosse ao hospital naquele momento se não tivesse recebido aquele aviso.
Na avaliação, confirma-se uma fibrilação atrial de início recente, situação que, dependendo do tempo de evolução e do perfil do paciente, pode permitir uma conduta antes de complicações mais graves. Esse tipo de caso mostra o lado positivo da tecnologia. Ela pode levantar suspeitas, organizar dados e chamar atenção para alterações que poderiam passar despercebidas.
Em um sistema de saúde sobrecarregado, isso tem valor. Quando bem utilizada, a inteligência artificial pode ajudar o médico a ganhar tempo, reconhecer padrões e tomar decisões com mais segurança. Mas é preciso colocar as coisas no devido lugar. O relógio não trata o paciente. O algoritmo não conhece toda a história clínica. E um laudo automático, por mais bem escrito que pareça, não substitui a interpretação médica.
Na cardiologia, o contexto muda tudo. Idade, sintomas, hipertensão, diabetes, uso de medicamentos, risco cardiovascular e estabilidade clínica podem alterar completamente o significado de um mesmo achado. Há também um problema cada vez mais comum: o paciente recebe uma informação técnica sem explicação adequada. Lê um laudo automático, interpreta aquilo como diagnóstico definitivo e chega ao consultório assustado, ansioso ou convencido de que algo grave foi ignorado.
Muitas vezes, o exame não é o problema. O problema é a forma como aquela informação chegou até ele. Por isso, a inteligência artificial não pode ser tratada como solução mágica. Ela precisa de validação, treinamento das equipes, protocolos claros e responsabilidade de quem a utiliza. Um algoritmo pode ajudar muito quando usado com critério. Mas pode gerar confusão quando entra na rotina sem supervisão ou quando seus resultados são entregues sem mediação profissional.
Em algumas arritmias, os sistemas automatizados já oferecem apoio relevante. Em situações mais complexas, como dor torácica, suspeita de infarto ou pacientes graves, confiar demais em alertas automáticos pode ser perigoso. A fisiologia é dinâmica, os sintomas mudam e a decisão médica raramente depende de um único dado isolado. Não se trata de rejeitar a tecnologia. A cardiologia sempre avançou com ela: do estetoscópio ao ecocardiograma, do Holter ao cateterismo. A diferença agora é a velocidade com que as informações chegam ao paciente, muitas vezes antes de passarem pelo olhar do médico.
O ponto central, para mim, é que a inteligência artificial não elimina a responsabilidade médica. Pelo contrário, aumenta essa responsabilidade. Se a máquina gera um dado, alguém precisa interpretar esse dado, conversar com o paciente e decidir o que faz sentido naquele caso específico.
Na medicina, a tecnologia ajuda muito. Mas entre o resultado de um sistema e uma decisão que pode mudar a vida de uma pessoa, ainda precisa haver julgamento clínico. Ainda precisa haver o médico.

Dr. Glauberson Cardoso Vieira, especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, especialista em Terapia Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, coordenador da Cardiologia do Biocor Rede D’Or



