O mercado de trabalho ainda reflete uma disparidade profunda: embora ocupem cada vez mais espaços, as mulheres em cargos de alta gestão enfrentam barreiras internas que muitas vezes passam despercebidas. De acordo com um levantamento da consultoria global KPMG, cerca de 75% das executivas em postos de liderança afirmam já ter vivenciado a síndrome da impostora em algum momento de suas carreiras. Esse fenômeno, alimentado por pressões sociais históricas, gera um ciclo de autossabotagem que compromete a agilidade na tomada de decisões e impede que profissionais brilhantes reconheçam o valor real de suas entregas.
A CEO da Anima Impacto Consultoria explica que esse comportamento costuma se manifestar como um excesso de autocrítica ou o medo constante de ser descoberta como alguém insuficiente. Segundo Alessandra Freitas, o primeiro passo para romper essa inércia é separar os fatos das percepções emocionais. “Muitas líderes acreditam que precisam de uma validação externa constante para se sentirem seguras em uma cadeira de comando, quando, na verdade, a autoridade deve ser construída de dentro para fora, pautada em resultados e competências reais”, afirma.
Para ela, o mês de março funciona como um convite para que as empresas e as próprias gestoras olhem para além do desempenho técnico. A autossabotagem costuma aparecer em pequenos gestos, como o hábito de pedir desculpas excessivas ou a hesitação em projetos de alto risco. A executiva destaca que, ao duvidar do próprio potencial, a profissional acaba criando um teto de vidro invisível que limita o crescimento da equipe e da organização como um todo.
A mudança de postura exige uma transição consciente para uma comunicação mais direta e assertiva. “A liderança feminina ganha força quando a mulher se permite errar sem que isso desmorone sua identidade profissional. Precisamos substituir a busca pela perfeição pela busca pela eficácia, pois o perfeccionismo nada mais é do que uma das faces mais cruéis da autossabotagem”, reforça a especialista. Ao aceitar que o comando envolve riscos, a gestora passa a decidir com mais velocidade e menos peso emocional.
Além do desenvolvimento individual, a consultora defende que a criação de redes de apoio e mentorias corporativas é essencial para consolidar essa nova mentalidade. Quando mulheres em cargos estratégicos compartilham suas vulnerabilidades e estratégias de superação, o ambiente se torna mais seguro para que novas líderes floresçam sem o medo paralisante do julgamento. Alessandra acredita que desmistificar a figura da mulher maravilha é o caminho mais curto para alcançar uma gestão humanizada e, ao mesmo tempo, altamente produtiva.
Encerrar esse ciclo não é apenas uma questão de bem-estar pessoal, mas um diferencial competitivo para o negócio. Uma líder que confia em sua visão estratégica consegue inspirar confiança em seus liderados e agir com a clareza necessária em momentos de crise. “O verdadeiro empoderamento acontece quando paramos de lutar contra nós mesmas e passamos a usar nossa energia para executar a estratégia e transformar o entorno”, conclui a CEO.



