O Carnaval de rua de Belo Horizonte é muito mais do que festa. É encontro, ocupação do espaço público, celebração da cultura popular e também um território legítimo de reivindicações sociais que atravessam a vida da cidade. É com esse espírito que o Bloco Almas Empenadas desfila no dia 8 de fevereiro de 2026 (domingo), levando às ruas da Região Norte de BH o tema “Salve a Mata do Planalto”, em um cortejo que une música brasileira, consciência ambiental e participação popular. A concentração acontece a partir das 12h, na Praça Nossa Senhora da Paz, no bairro Planalto. O bloco sai às 13h e segue em desfile até as 18h, com expectativa de público em torno de 10 mil foliões.
Neste ano, o tema do desfile chama atenção para a Mata do Planalto. Área verde remanescente de Mata Atlântica com 200 mil m², o lugar abriga rica fauna e flora e dezenas de nascentes do Córrego Bacuraus, afluente do Ribeirão Isidoro, que segue seu curso até se juntar ao Onça e, depois, ao Rio das Velhas. Após mais de uma década de mobilização da comunidade, em 2021, a mata teve seu valor ecológico, paisagístico, cultural e comunitário reconhecido por lei e foi alvo de um decreto de desapropriação da área, atualmente pertencente a uma construtora.
No entanto, a Prefeitura de Belo Horizonte ainda não executou a desapropriação, e o decreto perderá sua validade em novembro deste ano. Por isso, o desfile do Almas Empenadas se soma a um movimento mais amplo de mobilização social, chamando atenção para a urgência de ações efetivas do poder público. Durante o cortejo, o bloco levará faixas e mensagens em defesa da mata, reforçando que o Carnaval também é um espaço de cidadania.
Para Rafael Souza, o Vavá, regente e um dos fundadores do bloco, a escolha do tema reafirma uma identidade construída ao longo dos anos: “O Almas Empenadas sempre entendeu o Carnaval como um espaço de diálogo com a cidade. No ano passado, homenageamos os profissionais que resgataram animais e peixes após o rompimento da barragem da Lagoa do Nado. Agora, levantamos a bandeira do ‘Salve a Mata do Planalto’. Essa conexão entre festa, território e responsabilidade social constitui o Almas”.
Samba: identidade do bloco
O Almas Empenadas é um bloco de samba que tem como marca a força da bateria instrumental. Em 2026, a bateria contará com 112 integrantes, tocando instrumentos tradicionais como agogô, cuíca, chocalho, tamborim, caixa, repique, surdo de primeira, surdo de segunda e surdo de terceira. Uma das novidades deste desfile é a inclusão de seis instrumentos de sopro, como trombone e trompete, ampliando as possibilidades sonoras da bateria.
Reconhecido como um dos primeiros blocos da Região Norte de Belo Horizonte e hoje como um dos principais blocos de samba da cidade, o Almas Empenadas também se destaca por seu caráter formativo. O grupo ensina aos participantes os fundamentos do samba (gênero brasileiro mais popular e que se consolidou como patrimônio cultural de Belo Horizonte), além de evidenciar o vínculo entre tradição, aprendizado coletivo e ocupação do espaço urbano.
Os ensaios do bloco começam no meio do ano e reúne uma bateria diversa, formada por pessoas de diferentes idades, trajetórias e regiões da cidade.
O desfile do bloco Almas Empenadas em 2026 é viabilizado por meio do patrocínio concedido pela Belotur (Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte).
Repertório: tradição, afeto e surpresas
No repertório do desfile, o público pode esperar clássicos que atravessam gerações, como “Peguei um Ita no Norte”, samba enredo da Salgueiro conhecido popularmente como Explode Coração, “Carinhoso”, de Pixinguinha e Braguinha, e “Fio Maravilha”, de Jorge Ben, reafirmando o diálogo do bloco com a história da música brasileira. E, sem medo de surpreender, o Almas também promete colocar todo mundo para cantar um clássico popular fora do universo do samba: “Meu Sangue Ferve Por Você”, de Sidney Magal, já incorporado ao imaginário carnavalesco do grupo.
Essa mistura reflete o próprio formato do bloco, que, embora tenha o samba como base, também transita por outros ritmos, como xote, funk e samba reggae.
História do Bloco Almas Empenadas
O Bloco Almas Empenadas surgiu em 2015, a partir da iniciativa de amigos e moradores dos bairros Planalto, Itapoã, Vila Clóris e adjacentes, com o desejo de levar o carnaval de rua para a Região Norte de Belo Horizonte. Para o primeiro desfile, realizado em 2016, o grupo se organizou de forma colaborativa para aprender a tocar os instrumentos de escola de samba. Naquele momento, a bateria era formada por cerca de 20 amigos e ritmistas.
Desde então, o bloco cresceu de forma consistente. Apresentando-se sempre com bateria instrumental, o Almas ampliou seu alcance, sua formação musical e sua capacidade de mobilização. No desfile de 2026, a bateria contará com 112 integrantes.
Acompanhando o crescimento do Carnaval de Belo Horizonte, o cortejo do Almas Empenadas reúne, a cada ano, um número maior de foliões, consolidando-se como um dos principais blocos da Região Norte e como uma referência do samba no Carnaval da capital mineira. Hoje, os porta-vozes do bloco são os fundadores Rafael Souza, o Vavá, que também é regente, e Marcelo Henrique, instrumentista do naipe de surdos.



