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Câncer do colo do útero ainda avança no Brasil apesar das campanhas de prevenção

O câncer do colo do útero é uma das poucas neoplasias que pode ser eliminada como um problema de saúde – especialmente por meio da vacinação contra o HPV e exames como o papanicolau, que permitem detectar e prevenir a doença de forma precoce. Ainda assim, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 19.310 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Mesmo sendo amplamente prevenível, o câncer do colo do útero mantém e prevê números elevados no país, realidade que especialistas da Rede Mater Dei de Saúde atribuem a dificuldades persistentes no rastreamento, diagnóstico precoce e adesão às formas de prevenção.

A taxa de incidência brasileira é de cerca de 17 casos por 100 mil mulheres. A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é chegar a menos de 4. Para isso, a estratégia global de eliminação, à qual o Brasil aderiu em 2018, se apoia em três pilares: vacinar 90% das meninas até os 15 anos contra o HPV; rastrear 70% das mulheres com testes de alto desempenho; e tratar 90% das que apresentarem lesões precursoras ou câncer.

Segundo a ginecologista oncológica do Mater Dei Santo Agostinho, Contorno e Nova Lima, Dra. Sálua Calil, dois fatores centrais ajudam a explicar a forte presença da doença. “A baixa cobertura vacinal para HPV, ainda abaixo do recomendado pela OMS, e o rastreamento insuficiente para a população-alvo. Mulheres que não fazem rastreamento conforme recomendado seguem invisíveis para o sistema de saúde até o câncer se instalar”, afirma.

A oncologista do Mater Dei Contorno, Dra. Cristina Pirfo, aponta determinantes adicionais. “Além da cobertura vacinal insuficiente, há barreiras logísticas importantes como dificuldade de acesso, baixa oferta de especialistas em locais mais remotos e baixo nível socioeconômico, o que gera vulnerabilidade ainda maior”, diz. A especialista também destaca a vacinação de meninos para reduzir a circulação do HPV na população e prevenir outros cânceres associados ao vírus.

Mitos e desinformação 

Além das questões estruturais, os especialistas apontam a desinformação como um obstáculo concreto que afasta mulheres do rastreamento e da vacinação. A Dra. Sálua relata que um dos mitos mais frequentes no consultório é a crença de que não há necessidade de rastreamento para quem está em um relacionamento estável. 

“O câncer do colo uterino pode demorar anos para se desenvolver e o HPV pode ter sido adquirido em uma relação anterior à atual, por exemplo. Ou seja, ter parceiro único não garante ausência de exposição passada ao vírus”, esclarece. Outro mito recorrente é o temor de efeitos adversos graves da vacina. “Ela é extremamente segura”, reforça a ginecologista.

A Dra. Cristina Pirfo reforça que muitas pacientes acreditam que o exame preventivo só é necessário quando há sintomas — e que algumas inclusive evitam o diagnóstico por receio de que um resultado positivo para HPV seja associado à infidelidade. “O HPV é extremamente comum e pode permanecer latente por anos, então o diagnóstico não permite determinar quando ocorreu a infecção”, explica. 

Ainda há o receio de que a vacinação incentive o início da vida sexual. Sobre isso, a oncologista é direta: “Nossos filhos irão ter iniciação sexual, quer os vacinemos ou não. Informação clara e acolhimento são os melhores caminhos para reduzir essas barreiras.”

O que há de novo?

Recentemente, o Teste de DNA para HPV foi incorporado aos protocolos oficiais de rastreamento – com cobertura obrigatória pelo plano de saúde. A mudança representa um avanço significativo em relação ao Papanicolau tradicional. A Dra. Sálua explica que o teste de HPV é mais sensível e mais específico e que, quando o resultado for negativo, o rastreamento poderá ser realizado a cada cinco anos, o que facilita a adesão. 

Uma dúvida comum entre as pacientes é se quem se vacinou ainda precisa fazer o preventivo. A resposta é sim. Existem vários tipos de HPV, e a vacina evita apenas os mais frequentes. Além disso, a prevenção primária é mais eficaz quando a mulher ainda não teve contato com o vírus. “Vacina e rastreamento são complementares, não substitutos”, reforça a Dra. Sálua.

Quando o diagnóstico chega em estágio avançado, o tratamento geralmente envolve a combinação de radioterapia com quimioterapia, podendo ser acrescido de imunoterapia e seguido de braquiterapia. Nos casos de doença metastática ou recorrente, a Dra. Cristina Pirfo explica que podem ser usados esquemas de quimioterapia e, em algumas pacientes, drogas-alvo e imunoterapia, dependendo das características do tumor.

Prevenção integrada

O Março Lilás abre espaço não apenas para discutir o câncer do colo do útero, mas para uma reflexão mais ampla sobre a saúde da mulher em diferentes fases da vida. Para o oncoginecologista da Rede Mater Dei, Dr. Augusto Brandão, todo médico generalista, clínico geral e mastologista precisa estar atento. “É um câncer com incidência ainda muito alta no país e que precisa ser visto de forma integrada por todas as especialidades”.

Na menopausa, a queda hormonal não aumenta diretamente o risco de desenvolvimento de tumores relacionados ao HPV, esclarece o especialista. No entanto, esse período impõe outras condições que exigem atenção, como o aumento do risco cardiovascular, reforçando a importância de um acompanhamento multidisciplinar, com suporte da endocrinologia, cardiologia e outras especialidades. 

O Dr. Augusto Brandão também traça uma distinção importante entre os cânceres de mama e de colo do útero. Enquanto os tumores de mama podem ser responsivos a hormônios, o câncer do colo uterino não tem influência hormonal. Há diferença também no perfil de quem adoece: o câncer de mama tem distribuição mais homogênea, enquanto o câncer do colo do útero é significativamente mais incidente em mulheres em situação de vulnerabilidade social, exatamente por ser prevenível com vacina e rastreamento. “As ações de prevenção de ambos devem caminhar juntas”, destaca.

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