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Cefaleia em salvas atinge até 300 mil brasileiros e está entre as dores mais intensas da medicina

A dor é descrita por quem a sente como uma “faca em brasa atravessando o globo ocular”. Conhecida devido à sua intensidade, a cefaleia em salvas afeta entre 0,1% e 0,4% da população brasileira, segundo a Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Isso significa que mais de 300 mil pessoas convivem com episódios de dor lancinante. A condição atinge proporcionalmente seis homens para cada mulher, geralmente na faixa entre os 30 e 50 anos.

Diferente de uma dor de cabeça comum, esta patologia manifesta-se em crises agrupadas que podem ocorrer várias vezes ao dia, deixando o paciente em um estado de agitação psicomotora desesperadora, onde nem sequer deitar é uma opção viável.

Caracterizada por episódios repetidos e extremamente intensos, a doença ainda é pouco conhecida pela população e, muitas vezes, confundida com outros tipos de dor de cabeça. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as crises concentram-se em determinados períodos, seguidos por intervalos de tempo sem sintomas. 

Impacto econômico social

O cenário das cefaleias no Brasil, no entanto, vai além da raridade das “salvas”. A enxaqueca, sua forma mais comum, é hoje a segunda maior causa de incapacidade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais do que um mal-estar passageiro, trata-se de uma doença neurológica severa, com forte impacto na vida dos pacientes. No Brasil, afeta mais de 31 milhões de pessoas em idade produtiva, com maior prevalência em mulheres, conforme dados do Global Burden of Disease, da revista Lancet.

Além do sofrimento individual, a doença gera prejuízos diretos ao PIB dos países. Um estudo do instituto alemão WifOR, em parceria com a Federação Latino-americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma), aponta que as dores de cabeça custaram ao Brasil R$ 300 bilhões em 2022, o equivalente a 4,1% do PIB. Apenas a enxaqueca foi responsável por 1,6% desse impacto, motivado principalmente pelas faltas e pela queda drástica de produtividade no ambiente de trabalho.

Crises frequentes podem afastar o profissional das atividades laborais e até levar à incapacidade temporária ou permanente em casos mais graves. Além disso, gera custos com consultas médicas, exames e medicamentos.

Tipos de dor de cabeça

As dores de cabeça são divididas em dois grupos: primárias e secundárias. As primárias são aquelas em que a própria dor é a doença, como a enxaqueca, a cefaleia tensional e a cefaleia em salvas. Já as secundárias estão associadas a outras condições de saúde, como infecções, alterações vasculares ou tumores.

Segundo o neurologista Drusus Pérez Marques, da Hapvida, entender essa diferença é essencial para definir o tratamento. “Nas dores primárias, o foco é controlar os sintomas e reduzir a frequência das crises. Já nas secundárias, é preciso investigar a causa da dor”, explica.

Além do desconforto físico, as dores de cabeça podem afetar diretamente a qualidade de vida. Crises frequentes prejudicam o sono, a produtividade e as atividades do dia a dia, especialmente nos casos mais intensos.

Dor intensa e crises repetidas

Segundo o neurologista da Hapvida, a cefaleia em salvas faz parte do grupo das dores de cabeça primárias, ou seja, quando a dor não está associada a outra doença. “A cefaleia em salvas é uma dor de cabeça que acontece em crises agrupadas ao longo de um período. A pessoa pode ter várias crises por dia durante semanas e depois ficar meses ou até anos sem apresentar sintomas”, explica.

A intensidade da dor é um dos principais sinais de alerta. “Os pacientes relatam que é uma das piores dores que já sentiram. É comum ficarem extremamente agitados durante a crise, sem conseguir permanecer deitados ou parados”, afirma o médico. Outro ponto que ajuda na identificação da doença é o padrão das crises. Elas costumam durar entre 20 minutos e até quatro horas, sempre do mesmo lado da cabeça. “Além da dor, podem surgir sinais como olho vermelho, lacrimejamento, pupila contraída, pálpebra caída e nariz entupido, sempre do lado afetado”, detalha.

A condição é mais frequente em homens, especialmente entre 30 e 50 anos, e está associada a fatores como tabagismo e consumo de álcool. As crises também tendem a acontecer com mais frequência à noite ou durante a madrugada.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico é clínico, feito a partir da descrição dos sintomas e da frequência das crises. “A gente não depende de exames para fechar o diagnóstico. O mais importante é ouvir o paciente e entender o padrão da dor”, destaca o neurologista. Apesar de não ter uma causa totalmente esclarecida, há indícios de relação com alterações no relógio biológico do organismo, responsável pelo ciclo de sono e vigília do corpo.

Tratamento ajuda a controlar as crises

Embora não haja uma cura definitiva, o especialista explica que o tratamento moderno oferece controle eficaz. Para aliviar a dor imediata, o uso de oxigênio em alta concentração e medicamentos específicos são as opções principais. Paralelamente, tratamentos preventivos ajudam a reduzir a recorrência dos episódios ao longo do tempo.

“Muitos pacientes conseguem passar longos períodos sem dor com o acompanhamento adequado. Em alguns casos, a pessoa pode entrar em remissão, permitindo que a dor não volte por anos”, finaliza o Dr. Drusus Pérez Marques.

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