A inteligência artificial já faz parte da rotina de crianças e adolescentes, seja nas ferramentas de estudo, nos mecanismos de busca, nos aplicativos ou em plataformas de produção de conteúdo. Diante desse cenário, o desafio das escolas e das famílias vai além de definir quando os estudantes podem ou não utilizar a tecnologia. A questão central é ajudá-los a desenvolver critérios para entender “quando”, ‘como” e “por que” recorrer à IA e, principalmente, quando questionar as respostas recebidas.
Na avaliação da supervisora do DiaLab do Coleguium Rede de Ensino, Alexandra Lima, o contato com a inteligência artificial deve ocorrer de maneira progressiva, adequada à faixa etária e mediada por adultos. Segundo ela, antes mesmo de utilizar ferramentas generativas, as crianças podem começar a compreender o que é IA, onde ela está presente no cotidiano e quais impactos pode provocar. “Quanto mais jovem o estudante, maior deve ser a mediação.”
Ela afirma que um dos primeiros conceitos que precisam ser trabalhados é que uma resposta bem escrita não é necessariamente uma resposta verdadeira. Sistemas de IA podem apresentar informações incorretas, incompletas ou desatualizadas e até criar referências que parecem legítimas. Por isso, Alexandra recomenda estimular os estudantes a questionar aquilo que recebem: de onde veio a informação? Ela faz sentido? Pode ser confirmada em outra fonte? Existem outras explicações possíveis?
A especialista também defende que a IA seja utilizada como apoio ao processo de aprendizagem, e não como um atalho para chegar à resposta final. Entre as possibilidades, estão pedir explicações diferentes sobre um conteúdo, criar perguntas para revisão, comparar conceitos, levantar hipóteses e receber retorno sobre uma ideia. Uma estratégia especialmente interessante é o estudante elaborar sua própria resposta antes de consultar a ferramenta e, depois, comparar os raciocínios. “A pergunta central deixa de ser apenas ‘qual resposta a IA deu?’ e passa a ser ‘o que você fez com essa resposta?'”, explica Alexandra.
No DiaLab, programa de letramento em Inteligência Artificial do Coleguium, essa perspectiva é trabalhada para que os estudantes, além de usuários das ferramentas, sejam investigadores da tecnologia. As atividades envolvem experimentação, formulação de perguntas, comparação de respostas, identificação de erros, discussões éticas e reflexão sobre as consequências das escolhas feitas com o uso da IA.
Para os professores, uma possibilidade é propor atividades em que a turma precise analisar as respostas produzidas pela ferramenta, encontrar fragilidades, verificar informações e aprimorar os próprios comandos. “Também é importante deixar claro quando a IA pode ser utilizada, qual é sua finalidade e quais etapas continuam sendo responsabilidade do estudante.”
Outro ponto de atenção é a checagem das informações. De acordo com Alexandra, conteúdos relevantes devem ser confrontados com fontes independentes e confiáveis, como livros, materiais didáticos, artigos científicos, universidades, instituições de pesquisa e órgãos oficiais. Autoria, data e contexto também precisam ser observados. “Mesmo quando a IA apresenta referências, elas devem ser verificadas”, ressalta.
No ambiente acadêmico, a principal fronteira está na preservação do processo de aprendizagem. Se o objetivo de uma atividade é desenvolver argumentação, interpretação, cálculo ou escrita, delegar todo o raciocínio à ferramenta pode resultar em uma resposta correta sem que o estudante tenha aprendido.
Uma pergunta pode ajudar a estabelecer esse limite: “A IA está pensando por mim ou está me ajudando a pensar melhor?” Quando a ferramenta apresenta contrapontos, ajuda a testar hipóteses, explica um conceito de outra maneira ou oferece feedback, pode ampliar o raciocínio. Quando o estudante apenas copia uma resposta sem compreendê-la, a tecnologia passa a substituir, e não fortalecer, o pensamento.
“A participação da família também é importante”, aponta a especialista. Pais e responsáveis não precisam dominar todas as ferramentas de IA para acompanhar os filhos. Perguntas como “Para que você está usando a IA?”, “Você entendeu essa resposta?” e “Como sabe que essa informação está correta?” podem estimular uma postura mais crítica. Também é fundamental orientar crianças e adolescentes a não compartilhar informações pessoais, imagens, documentos ou dados sensíveis sem compreender como essas informações poderão ser utilizadas. “Mais do que ensinar a usar IA, ensinamos a pensar sobre como, quando e por que usá-la. Por isso, o DiaLab é uma aula para proteger todas as outras”, afirma Alexandra Lima.


