Quem tem criança em casa sabe que as férias de julho podem ser um período de malabarismo para os pais. Aquela parte do dia em que os filhos estavam na escola e a rotina da casa seguia um ritmo agora precisa ser preenchida. Pensar em atividades diversas requer tempo e atenção, o que demanda bastante energia dos pais. Outra preocupação dos pais também é como estimular o aprendizado dos filhos neste período fora da escola. O erro comum é achar que as férias precisam ser perfeitas, cheias de passeios caros e programações para manter os pequenos ativos.
Mas qual a maneira ideal de distrair os filhos e ainda estimular o aprendizado fora da escola? A pedagoga Giulia Schneider, diretora da SIS Swiss International School Belo Horizonte, explica que não é preciso manter uma agenda lotada para que os pequenos se desenvolvam fora do ambiente escolar. “A aprendizagem tem base na relação. Nas férias, as crianças terão mais momentos de observação e de convivência com os adultos à sua volta. Assim, incluí-las em momentos da rotina da casa e oferecer uma estrutura para o dia são passos mais importantes do que pensar, por exemplo, em atividades em folhas impressas da internet”, afirma.
Como equilibrar o descanso com estímulos saudáveis e menos telas
O equilíbrio, de acordo com Giulia Schneider, passa por respeitar o descanso, sem abrir mão de pequenas referências de rotina. “Férias não devem ser sinônimo de agenda cheia, mas também não precisam ser totalmente sem contorno”, destaca.
Para a pedagoga, o ideal é combinar momentos de sono, brincadeira livre, convivência, pequenas tarefas do cotidiano e algumas propostas simples, como leitura, desenho, culinária ou passeios curtos. “Para crianças pequenas, o mais importante é que o dia tenha alguma previsibilidade e que o ambiente favoreça a exploração. A criança aprende muito nas relações e nos espaços que ocupa. Quando o adulto organiza um cotidiano acolhedor, com presença e atenção, o descanso e o desenvolvimento caminham juntos”.
Uma grande tentação para os pais quando o cansaço bate é recorrer à televisão e ao celular, mas o uso desses aparelhos exige regras claras. Para que essa dinâmica seja bem conduzida, a pedagoga orienta combinar os limites desde o início e usar marcadores temporais concretos que a criança consiga entender, como uma ampulheta ou um temporizador visível.
O tempo de exposição deve seguir as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta que crianças com menos de 2 anos não sejam expostas às telas. Entre 2 e 5 anos, recomenda-se que o tempo de tela não ultrapasse 1 hora por dia; entre 6 e 10 anos, até 2 horas diárias; e até 3 horas entre 11 e 17 anos.
Segundo a diretora da SIS, é importante lembrar que a tela não deve ser usada como recompensa. “Ela pode fazer parte da rotina, mas com intenção, supervisão e mediação. Antes de a criança acessar, por exemplo, uma plataforma, é importante que um adulto responsável conheça o conteúdo e oriente sobre como usá-lo”.
Mais convivência e brincadeiras em grupo
Para muitas crianças, a escola é o principal espaço de convivência. Nas férias escolares, manter o contato com os amigos é muito enriquecedor, e as famílias podem organizar dias de brincadeira, alternando atividades direcionadas com momentos livres. “Esses convites devem considerar a idade de cada criança e o nível de autonomia delas. É preciso pensar em propostas que equilibrem as idades das crianças para não sobrecarregar os pais no acompanhamento. Além disso, é importante explicar desde o começo os combinados da casa ou do espaço público em que elas vão brincar”, comenta Schneider.
Mas de que brincar? Para empolgar a turminha, um caminho interessante pode ser os pais compartilharem seus próprios jogos de infância. “Quem nunca brincou de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, rouba-bandeira, pula corda ou dança das cadeiras? Dividir essas experiências com os filhos permite que o adulto acesse seu lado criança. É um processo que fortalece os vínculos e aumenta o repertório de brincadeiras deles e dos convidados”, explica Giulia Schneider.
Dicas para estimular a imaginação e se divertir em casa
Para manter o estímulo ao aprendizado e garantir que a rotina das férias seja leve, produtiva e também divertida, a especialista indica apostar em coisas comuns e atividades práticas. Cozinhar junto, por exemplo, vira uma grande brincadeira, onde o trabalho motor e a organização dos ingredientes tornam a experiência envolvente. Criar um diário de férias, onde o filho desenha o que mais gostou no dia, também é um caminho riquíssimo para estimular a escrita de forma leve em qualquer faixa etária.
Outra dica prática da pedagoga para desenvolver a imaginação e o raciocínio é fugir dos brinquedos eletrônicos e apostar em coisas simples. Utilizar quebra-cabeças adequados à faixa etária e blocos de montar ajuda no desenvolvimento por meio do encaixe e da resolução de problemas fáceis. Separar objetos por cor, tamanho ou forma, além de usar massinha para criar e reproduzir figuras, estimula a comparação e a classificação.
No fim do dia, a leitura compartilhada na hora de dormir pode funcionar como um momento de aconchego, ajudando a construir a linguagem em um contexto tranquilo e seguro.
A principal recomendação da especialista para os pais nas próximas semanas é deixar de lado a autocobrança e priorizar o acolhimento. “Não tente transformar as férias em um projeto perfeito. Para crianças pequenas, o mais importante é a convivência de qualidade, presença atenta, rotina possível e tempo para brincar. Menos atividades prontas e mais experiências vividas junto com os adultos fazem muita diferença”, finaliza a diretora.



