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“Inconsciente Preciso” revela a força da pintura de Quim

A Papazoglu Galeria apresenta, de 8 de março a 7 de junho de 2026, no Parque do Palácio, em Belo Horizonte, a exposição “Quim: Inconsciente Preciso”. A mostra é a primeira individual de Joaquim Dimas Fidelis, artista mineiro cuja pintura nasce de uma relação intuitiva com a cor, a memória e a imaginação. Sem formação acadêmica, Quim desenvolve uma produção que dialoga com a tradição da arte naïf, reconhecida pela espontaneidade e pela liberdade formal, e conduz essa linguagem com identidade própria e força singular.

Para a curadora da exposição, Sarah Ruach, a potência das telas está justamente nessa liberdade: “Quim nos convida ao encantamento do simples e à sedução do cotidiano esquecido. Sua pintura constrói uma coreografia delicada entre memória, cor e imaginação, onde a ingenuidade se afirma como potência”, afirma. Segundo ela, o artista trabalha a partir de um “inconsciente preciso”, ou seja, suas imagens surgem sem planejamento prévio, mas encontram equilíbrio e estrutura no próprio ato de pintar. 

O processo começa pela cor. Sempre com a tela no colo, Quim mistura tintas diretamente na superfície e permite que a imagem se organize durante a execução. “Eu mesmo, na realidade, nem sei o que eu tô pintando quando pego o pincel. Tudo que vem da mente eu vou pintando. E só depois de um tempo vou reconhecer o desenho”, conta. Como resultado, campos cromáticos intensos estruturam as composições, muitas vezes divididas em faixas horizontais que separam céu e terra. Montanhas surgem como blocos de cor, árvores se repetem como sinais gráficos e pequenas figuras humanas ocupam paisagens que misturam referências do campo e da cidade.

“Há artistas que passam anos buscando uma identidade visual. O Quim já começou com a dele. A força do trabalho está na capacidade de transformar lembranças simples em imagens que permanecem. Existe uma verdade ali que não é ensaiada, é vivida”, afirma Costantino Papazoglu, diretor da Papazoglu Galeria, que também coordena o projeto. O encontro entre ambos começou no início de 2025, quando ele visitou a galeria do colecionador Rildo Faria e se deteve diante de uma parede de pequenas telas. Uma obra chamou sua atenção pela síntese formal e pela vibração cromática. Dias depois, ao conhecer o artista e ver o conjunto da produção reunida nas paredes de sua casa, percebeu que ali havia uma linguagem já afirmada.

“Desde aquele primeiro momento, compreendi que estava diante de uma obra que não precisava ser construída — ela já existia com verdade e consistência. Escolher o Quim para inaugurar a programação da Galeria Papazoglu é uma declaração de princípios: acreditamos na força da autenticidade e na potência da arte que nasce da experiência vivida”, completa.

“Inconsciente Preciso” marca também o lançamento do livro “Quim”, publicação dedicada ao artista que reúne textos críticos, imagens das obras e reflexões sobre sua trajetória. O volume acompanha a exposição e consolida este momento como um marco em sua carreira.

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Quim – Victor Hugo Rocha

Quim

Joaquim Dimas Fidelis nasceu em 1958, em Nelson de Sena, distrito de São João Evangelista, no Vale do Rio Doce (MG). A infância foi marcada pelo trabalho precoce na lavoura e pela ausência de escolarização formal. Aos sete anos, já ajudava o pai na roça e quebrava brita. Ainda menino, produzia objetos utilitários em madeira. Adolescente, deixou o interior em busca de trabalho e se estabeleceu em Belo Horizonte, onde atuou como carroceiro, servente, pedreiro e pintor de paredes.

Foi nesse último ofício que aprofundou sua percepção cromática. A combinação intuitiva de tintas em fachadas e interiores antecipava uma sensibilidade que só se tornaria pública décadas depois. A pintura sobre tela surgiu em 2017, quando uma pequena obra chamou a atenção de amigos e incentivadores. Desde junho de 2025, o artista se dedica integralmente à produção.

Ao ocupar o Parque do Palácio, “Inconsciente Preciso” apresenta ao público uma obra que reafirma a vitalidade da arte naïf no Brasil contemporâneo e evidencia como trajetórias construídas fora do circuito acadêmico podem alcançar consistência formal e identidade própria

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