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[LANÇAMENTO EM BH] Nietzsche ganha nova tradução de Zaratustra e o primeiro comentário integral de Scarlett Marton sobre a obra

Aos 30 anos, Zaratustra abandonou a vida entre os homens e subiu à montanha. Dez anos depois, decidiu descer. É assim que começa o livro mais controverso de Friedrich Nietzsche — e é também assim que a Autêntica Editora faz um duplo lançamento dedicado ao filósofo alemão: uma nova tradução de Assim falava Zaratustra, assinada por Fernando R. de Moraes Barros, e a obra Nietzsche e a obra por fazer: Zaratustra, ensaio de Scarlett Marton, professora titular de Filosofia Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores especialistas do mundo na filosofia nietzschiana.

Assim falava Zaratustra e Nietzsche e a obra por fazer: Zaratustra serão vendidos em conjunto, na Caixa Zaratustra. O lançamento acontece em agosto, com debates entre Scarlett Marton e Fernando R. de Moraes Barros em Belo Horizonte (13 de agosto, quinta, a partir das 18h, na Livraria Quixote) e São Paulo (27 de agosto, quinta, a partir das 18h, na Livraria Martins Fontes). Outras datas e localidades serão confirmadas em breve.

Escrito entre 1883 e 1885, Assim falava Zaratustra acompanha o profeta que dá título ao livro em sua descida da montanha para ensinar aos homens uma nova visão de mundo. Obra de ficção, mistura o cotidiano ao profundamente filosófico: nos discursos de Zaratustra a seus discípulos, à multidão e a si mesmo, desfilam temas como o dualismo de mundos, corpo e alma, virtudes cristãs, todos costurados por uma linguagem que se aproxima, deliberadamente, da cadência bíblica.

Um livro sete vezes escrito

No texto que assina para a nova edição, Scarlett Marton lembra que a relação de Nietzsche com seu Zaratustra nunca foi simples. Em 1883, quando publica a primeira parte, o filósofo não a identifica como tal, como se a obra já estivesse completa; um ano depois, ao preparar a terceira, acredita ser esse o fim do livro; quando redige a quarta, em 1885, chega a bancar do próprio bolso uma tiragem de apenas 40 exemplares, sem intenção de divulgá-la amplamente. Pouco depois, chega a renegar as três primeiras partes e cogita recomeçar a obra a partir da quarta. Só em 1893, quatro anos após a crise que o levaria à loucura e sem que ele estivesse em condições de opinar, um editor reuniria as quatro partes no volume único que conhecemos hoje.

Marton conta pelo menos sete versões distintas de Assim falava Zaratustra ao longo desse percurso editorial, e conclui que o livro que Nietzsche autorizou — de três partes — foi por ele mesmo renegado, e o livro que a posteridade consagrou — de quatro partes — nunca chegou a ser autorizado. É diante desse quebra-cabeça que a nova tradução se posiciona: ela segue o formato canônico de quatro partes, mas presta atenção redobrada às particularidades da quarta, ciente de que ela nasceu em circunstâncias muito diferentes das três primeiras.

Uma tradução que não foge do corpo a corpo

Fernando R. de Moraes Barros, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB) e estudioso de estética e filosofia da música, resume seu método citando Thomas Carlyle: o mérito da originalidade não é a novidade, é a sinceridade. Sua tradução buscou justamente isso — sinceridade nas escolhas, mesmo quando elas exigem inventar soluções. É o caso de Untergang, termo que Nietzsche usa para descrever tanto o pôr do sol quanto a descida de Zaratustra da montanha, carregado de conotações que vão do naufrágio à queda moral. Barros optou por verter a palavra sempre como “declínio” quando ela se refere ao protagonista, marcando as transformações que ele sofre ao longo do livro, e por outras soluções nos demais casos.

O tradutor também explica que evitou a repetição mecânica de recursos de pontuação e que, por vezes, recorreu a neologismos para dar conta da polissemia de Zaratustra — um personagem que, segundo o próprio texto de apresentação da obra, não usa os mesmos termos com o mesmo significado, variando-os de acordo com quem ouve e, principalmente, consigo mesmo. A edição alemã de referência foi a de Giorgio Colli e Mazzino Montinari, e o trabalho contou, segundo o próprio tradutor, com a “encorajadora e fina revisão técnica” de Scarlett Marton, também autora do texto introdutório desta edição.

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Scarlett Marton, uma das maiores especialistas de Nietzsche em todo o mundo, lança em BH obra que é fruto de mais de 30 anos de pesquisa da maior especialista brasileira no filósofo alemão – Divulgação

 Trinta anos de pesquisa e uma tese contra a leitura corrente

Se a nova tradução convida a mergulhar no texto de Nietzsche, Nietzsche e a obra por fazer: Zaratustra propõe atravessá-lo com lupa. No livro, Scarlett Marton defende uma tese que contraria parte da fortuna crítica sobre a obra: o problema filosófico central de Assim falava Zaratustra não seria o pensamento do eterno retorno do mesmo — como o próprio Nietzsche chegou a sugerir em Ecce homo — nem a ideia de além-do-homem, como argumentam outros comentadores. Para Marton, o verdadeiro eixo do livro é o projeto de transvaloração de todos os valores, e tanto o eterno retorno quanto o além-do-homem funcionam como peças, ainda que decisivas, a serviço desse projeto maior.

A tese é desenvolvida ao longo de oito capítulos, que examinam, nessa ordem, a composição fragmentada do livro, a construção do protagonista, sua relação com os discípulos, a subversão do gênero autobiográfico que Nietzsche promove ao fazer convergir sua vida com a de Zaratustra, a criação de uma nova linguagem filosófica, o lugar do eterno retorno na obra, a cronologia solar do percurso do personagem e, por fim, uma avaliação sobre se Nietzsche chegou a cumprir a tarefa a que se propôs. A resposta de Marton é que não — e que, por isso, é preciso falar de duas obras de Nietzsche: a obra feita e a obra por fazer.

Quem são os autores

Scarlett Marton é professora titular de Filosofia Contemporânea da USP e publicou 21 livros no Brasil, a maioria sobre Nietzsche — entre eles Nietzsche, filósofo da suspeita, Nietzsche e as mulheres e Nietzsche e a arte de decifrar enigmas —, além de obras publicadas na Itália, na França e na Argentina. Fundou o GEN – Grupo de Estudos Nietzsche, criou os Cadernos Nietzsche, idealizou a Coleção Sendas & Veredas e integra o comitê científico de publicações internacionais de referência, como Nietzsche-Studien.

Fernando R. de Moraes Barros é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, autor de livros, artigos e ensaios sobre o legado nietzschiano, com dedicação especial aos estudos de estética e filosofia da música.

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