Mais de oito décadas após sua criação, “A Alma Boa de Setsuan”, de Bertolt Brecht, continua lançando uma pergunta desconcertante ao público: é possível permanecer bom em um mundo corrompido?
Três deuses descem à Terra à procura de uma alma verdadeiramente boa. Nessa jornada, encontram Shen Te, uma jovem prostituta, única pessoa disposta a acolhê-los. Como reconhecimento por sua bondade, os deuses lhe entregam dinheiro suficiente para comprar uma pequena tabacaria. O gesto, que parecia inaugurar uma nova vida, transforma-se no início de um dilema: quanto mais Shen Te ajuda aqueles que a cercam, mais sua bondade é explorada. Para sobreviver, ela inventa Shui Ta, um suposto primo duro, pragmático e implacável, capaz de fazer aquilo que ela, movida pela compaixão, não consegue.
Ao alternar entre essas duas identidades, Bertolt Brecht constrói uma das mais contundentes parábolas do teatro moderno, expondo as contradições de um sistema em que solidariedade, ética e justiça entram em permanente conflito com as exigências da sobrevivência. Mais do que oferecer respostas, a obra lança ao público uma pergunta que continua atravessando o nosso tempo: é possível permanecer bom em um mundo que parece recompensar justamente o contrário?
Sob direção de Leonardo Fernandes, o clássico ganha uma leitura de forte elaboração visual e musical, centrada nas interpretações dos atores e orientada pela adaptação dinâmica do texto feita por Leonardo Fernandes e Lucas Vasconcellos. A montagem dialoga com questões permanentes da experiência humana, como as relações de poder, a desigualdade, a exploração, o dinheiro como mediador das relações sociais e os limites da ética diante da necessidade. Em vez de simplesmente atualizar Brecht, o espetáculo evidencia o quanto o autor permanece contemporâneo.
A proposta cênica aposta em uma linguagem assumidamente teatral, em que música executada ao vivo, humor, ironia e o distanciamento brechtiano se articulam para provocar reflexão sem renunciar ao encantamento da cena, usando da força de diferentes gerações de atores no palco.
A Alma Boa de Setsuan fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de 31 de julho a 17 de agosto de 2026, com sessões de sexta a segunda, às 20h. Os ingressos estão disponíveis no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB. No dia 14/08, haverá um bate-papo com o elenco após o espetáculo.
Sobre Bertolt Brecht
Considerado um dos dramaturgos mais influentes do século XX, Bertolt Brecht revolucionou a história do teatro ao desenvolver o chamado Teatro Épico, linguagem que rompeu com as convenções da cena tradicional e transformou o palco em um espaço de reflexão crítica sobre a sociedade. Sua obra influenciou gerações de artistas em todo o mundo e segue sendo referência incontornável para o teatro contemporâneo. A estreia da montagem acontece justamente no mês em que se completam 70 anos da morte do dramaturgo alemão, reafirmando a permanência e a atualidade de um pensamento artístico que continua provocando espectadores e inspirando criadores em diferentes países.
Sobre Leonardo Fernandes
Diretor teatral, ator, músico e artista visual, Leonardo Fernandes é um importante nome da cena teatral contemporânea brasileira. Em 2016, aos 28 anos, foi laureado com o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de Melhor Ator por sua atuação em “Cachorro Enterrado Vivo”, reconhecimento que consolidou sua trajetória artística em âmbito nacional. Em seus trabalhos como diretor, Fernandes desenvolve uma pesquisa cênica marcada pelo rigor técnico e visual, pela minuciosa construção do trabalho do ator, tanto em sua dimensão textual quanto corporal, e pela criação de encenações que tensionam a dramaturgia clássica a partir de uma linguagem contemporânea, experimental e profundamente imagética.
“A Alma Boa de Setsuan” sucede uma sequência de sete espetáculos concebidos e produzidos de forma independente pelo artista. Em um cenário de constantes desafios para a cultura brasileira, sua trajetória reafirma um modo de fazer teatro sustentado pela persistência, pela invenção e pelo compromisso inegociável com a criação artística.
Há um paralelo inevitável entre essa trajetória e o próprio pensamento de Brecht. Fazer teatro de forma independente, insistindo na criação em um contexto de escassez de recursos, também é um gesto político. É acreditar que o palco continua sendo um espaço de encontro, pensamento e transformação, uma convicção que atravessa tanto a obra do dramaturgo alemão quanto o percurso de Leonardo Fernandes.
Seus sete espetáculos produzidos de forma independente são: “Cachorro Enterrado Vivo” (2016, reapresentado em 2026), “Enquanto Estamos Aqui” (2022), “O Sonho das Pérolas” (2023), “Os que vêm com a Maré”, “Frankenstein” e “A Grande onda de Kanagawa” (dentro do projeto Três Peças que Atravessam o Mar, de 2024), e “A Alma boa de Setsuan”.
“Dirigir Brecht é aceitar que nenhuma obra-prima pertence ao passado. O maior desafio não é atualizar o texto, mas revelar que ele nunca deixou de ser atual. Se o público sair do teatro olhando para o mundo de outra maneira, então a peça terá cumprido sua missão. Com um autor como Brecht, o trabalho do diretor é amplificá-lo e torná-lo ainda mais acessível para a geração atual”, analisa Leonardo Fernandes.
Serviço:
A Alma Boa de Setsuan
Temporada: De 31 de julho a 17 de agosto de 2026
Sessões: Sexta a segunda, às 20h
Local: Teatro I – CCBB BH
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte
Classificação Indicativa: 14 anos
Ingressos: R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia-entrada), disponíveis no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH.



