Permita-me começar com um cenário, se não real, de uma obviedade gritante. Você, leitor, prestes a embarcar em uma viagem aérea, teria a chance de escolher o piloto. No cockpit, de um lado, um comandante com milhares de horas de voo, certificado, credenciado, que já viu o sol nascer e se pôr em todas as latitudes e longitudes, lidando com turbulências e aterrissagens em condições adversas. Do outro, o seu sobrinho, entusiasta, com incontáveis horas em um simulador de voo. A resposta? Elementar, meu caro. Ninguém, em sã consciência, colocaria a própria vida nas mãos de um amador, por mais apaixonado que seja.
No entanto, quando o assunto é a sobrevivência de uma marca, o que deveria ser um cálculo óbvio se transforma, inexplicavelmente, em um festival de insensatez e improviso.
O que não falta hoje é gente arriscando a criação de uma marca do zero, movida pela ilusão de que uma legião de seguidores no Instagram equivale a uma base sólida de consumidores dispostos a comprar “qualquer coisa”. Tratam o nascimento de uma marca como algo no estilo “faça você mesmo”, mais rápido do que miojo e, pasmem, mais fácil do que receita de gelo. A crença é simplória: eu sou uma autoridade, as pessoas gostam de mim, logo, elas amarão o meu produto.
Faça uma busca rápida e encontrará uma profusão de blogueiros que, ao transformarem sua “autoridade” em marca própria, acabaram por colecionar polêmicas e cancelamentos. Peguemos o caso recente de uma influenciadora que ousou construir uma “marca milionária do zero” em cerca de dois meses, focada em suplementos. A estratégia? Basear o lançamento em sua credibilidade pré-existente. A expectativa da audiência foi às alturas, mas o que veio depois foi um pouso forçado na vida real: problemas no pós-venda, falhas no suporte ao cliente e o inevitável ruído nas redes.
Então, a culpa, claro, recai sobre o público que “não entendeu” o projeto ou a “complexidade” de empreender. Um erro crasso, para dizer o mínimo. Seus clientes não podem e não devem ser sua sala de aula, seu laboratório de testes. O consumidor compra o seu sonho, mas exige sua competência.
Construir uma imagem é infinitamente mais difícil do que apenas vender. A venda pode ser um ato pontual. A marca, não. Ela nasce de um processo primoroso e complexo que vai da criação do nome ao e-commerce, passando pelo posicionamento e pela campanha de lançamento. Não é para o sobrinho, por mais entusiasta que seja, nem para o “faça você mesmo” de fim de semana.
Portanto, se você está prestes a tirar o seu sonho do papel e transformá-lo em uma marca, não se contente com o simulador. Chame quem entende de turbulência, quem sabe fazer o pouso e quem garante que sua mensagem não seja apenas verdadeira, mas inesquecível. A diferença entre a marca efêmera e o legado se chama profissionalismo. E isso, acredite, pode ser a sua chance de fazer história.

Hellen Mundim – Publicitária e fundadora e sócia da Kind Branding