A morte de uma mulher de 33 anos em Ubá, na Zona da Mata mineira, acendeu o alerta para o risco de leptospirose após as enchentes que atingiram a região. Além do óbito confirmado, outros 41 casos seguem em investigação epidemiológica no município.
O cenário reflete uma preocupação em todo o estado. Neste período chuvoso, Minas Gerais já contabiliza 55 casos confirmados da doença e sete mortes, em um contexto marcado por alagamentos, acúmulo de lama e condições favoráveis à disseminação da bactéria Leptospira.
“A leptospirose está diretamente associada ao contato com água ou lama contaminadas pela urina de animais infectados, principalmente ratos. Durante as enchentes, essa urina se mistura à água da enxurrada e aumenta muito o risco de transmissão”, explica Dra. Melissa Valentini, infectologista do Lab-to-Lab Pardini.
Segundo a especialista, embora outros mamíferos também possam atuar como reservatórios da bactéria, os roedores seguem como principal fonte de infecção. “Essa bactéria vive no trato urinário de mamíferos. Pode estar presente em cães, bovinos e outros animais, mas o rato continua sendo o principal transmissor no ambiente urbano, porque elimina a bactéria na urina e contamina superfícies, água e solo”, destaca.
Um dos principais desafios da leptospirose é o diagnóstico precoce. Os sintomas iniciais – febre, dor de cabeça intensa, mal-estar, dores musculares e olhos avermelhados – podem ser confundidos com dengue, gripe ou outras viroses comuns nesta época do ano. “No começo, ela se parece com várias outras doenças, o que pode atrasar o tratamento”, alerta Dra Melissa Valentini.
A gravidade exige atenção: nas formas mais severas, a taxa de mortalidade pode chegar a 50%. Diferentemente de outras doenças frequentes no período chuvoso, a leptospirose é causada por bactéria e requer antibiótico o mais cedo possível.
“Quem teve contato com enxurrada, lama ou participou da limpeza de áreas alagadas e apresentar sintomas entre uma semana e até 30 dias depois deve procurar atendimento médico e informar esse histórico de exposição”, orienta a infectologista.
Nos casos leves, sem sinais de sangramento, falta de ar ou grande prostração, a avaliação pode ser feita em unidades básicas de saúde. Já sintomas mais intensos, como febre alta persistente, dificuldade para andar ou mal-estar importante, exigem atendimento imediato em pronto-socorro.
Dra. Melissa Valentini reforça que o relato sobre o contato com água de enchente é fundamental para direcionar o raciocínio clínico, já que os exames laboratoriais precisam ser interpretados em conjunto com a história do paciente.
A prevenção também passa pelos cuidados durante a limpeza de casas e ambientes atingidos pela água. “Sempre que possível, é importante usar proteção: botas, luvas e roupas mais grossas, evitando o contato direto e prolongado com água e lama contaminadas”, recomenda.
Ela também orienta o descarte de alimentos que tiveram qualquer contato com a enxurrada. “Nada deve ser reaproveitado. A higienização dos ambientes deve ser feita com 200 ml de água sanitária diluída em 10 litros de água para reduzir o risco de contaminação.”
Em situações de exposição intensa, o médico pode ainda avaliar a necessidade de antibiótico preventivo, a chamada profilaxia, conforme cada caso.
Além da leptospirose, o período pós-enchente também favorece outras infecções, como hepatites virais, doenças diarreicas e tétano.
“Qualquer sintoma diferente, principalmente entre uma semana e 20 dias após o contato com água de enchente, merece avaliação médica. E é fundamental contar ao profissional de saúde sobre essa exposição”, conclui.



