Com o Dia Mundial do Café, celebrado em abril, e o Dia Nacional do Café, comemorado em 24 de maio — data que também marca simbolicamente o início da colheita em importantes regiões produtoras do país – o café ganha ainda mais destaque. Mais do que uma bebida presente no cotidiano de milhares de pessoas, o café representa cultura, tradição e uma cadeia produtiva de grande relevância econômica, especialmente em estados como Minas Gerais, um dos maiores produtores do mundo.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o café é a segunda bebida mais consumida no Brasil, ficando atrás apenas da água.
Do ponto de vista nutricional, o café vai muito além da cafeína. A bebida contém compostos bioativos e antioxidantes, como os polifenóis, que vêm sendo estudados por seu potencial efeito protetor contra processos inflamatórios e algumas doenças crônicas. Quando consumido com moderação, o café pode inclusive contribuir para maior estado de alerta, melhora da concentração e até auxiliar no desempenho físico em determinadas situações.
A cafeína, principal substância estimulante do café, atua no sistema nervoso central aumentando a sensação de disposição e reduzindo temporariamente a fadiga. Por isso, muitas pessoas relatam maior foco para o trabalho ou para os estudos após consumir a bebida. Em contextos esportivos, pequenas quantidades de cafeína também podem contribuir para melhora do desempenho em atividades físicas.
Avaliações científicas utilizadas como referência por órgãos regulatórios, como a European Food Safety Authority, e adotadas em regulamentações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, indicam que porções contendo cerca de 75 mg de cafeína já podem contribuir para aumento do estado de alerta e da atenção em adultos saudáveis. Em relação à segurança do consumo, doses únicas de até 200 mg de cafeína na porção — cerca de 3 mg/Kg de peso corporal para um adulto de 70 kg — são consideradas seguras para a população adulta saudável, inclusive quando ingeridas menos de 2 horas antes da prática de exercício físico.

Considerando o consumo ao longo do dia, a ingestão de até 400 mg de cafeína provenientes de todas as fontes alimentares (café, chás, bebidas energéticas, refrigerantes do tipo cola, chocolate) é geralmente considerada segura para adultos saudáveis. Por esse motivo, regulamentações relacionadas a suplementos alimentares costumam limitar a dose por porção em 200 mg, podendo ser consumida no máximo 2 vezes ao dia, de forma a manter a ingestão total segura, dentro desse intervalo. Para grupos específicos, como gestantes, lactantes e crianças, as evidências científicas ainda são mais limitadas, razão pela qual recomenda-se maior cautela no consumo dessa substância.
Na prática, isso significa que diferentes bebidas e alimentos podem contribuir para o consumo total de cafeína ao longo do dia. A quantidade presente varia conforme o tipo de alimento, o método de preparo, concentração, marca do produto e o tamanho da porção, conforme pode-se ver na tabela a seguir.
Conteúdo médio de cafeína em bebidas e alimentos
| Alimento / Bebida | Porção | Cafeína média |
| Café coado | 150–200 ml | 80–120 mg |
| Café expresso | 30–50 ml | 60–80 mg |
| Café solúvel | 150–200 ml | 60–80 mg |
| Chá preto | 200 ml | 40–60 mg |
| Chá verde | 200 ml | 25–40 mg |
| Refrigerante tipo cola | 350 ml | 30–40 mg |
| Bebida energética | 250 ml | ~80 mg |
Fonte: Valores médios estimados com base em dados de composição de alimentos da USDA, 2019 e informações de consumo divulgadas pela FDA, 2023.
Outro ponto importante diz respeito à interação do café com a absorção de alguns nutrientes. É muito comum observarmos o hábito brasileiro do “cafezinho” logo após o almoço ou jantar, seja por tradição ou pela sensação de disposição após uma refeição completa. O que muitos não sabem é que o café contém compostos como polifenóis e taninos, que podem formar complexos com minerais no trato digestivo, reduzindo sua biodisponibilidade e, consequentemente, a absorção de alguns nutrientes presentes na refeição.
Entre eles estão minerais como o ferro não-heme — encontrados em alimentos de origem vegetal, como feijão beterraba, folhas verde-escuras — além de zinco e cálcio. Os taninos também podem interferir na digestão de proteínas ao formar complexos com essas moléculas, o que pode reduzir parcialmente sua disponibilidade para o organismo.
Além disso, a cafeína pode aumentar a excreção urinária de cálcio e, em menor grau, reduzir sua absorção. A longo prazo, esse efeito pode se tornar relevante, especialmente para pessoas que consomem grandes quantidades de café diariamente e apresentam ingestão insuficiente de cálcio na alimentação.

Isso não significa que o café precise ser eliminado da rotina. O equilíbrio continua sendo a chave. Uma estratégia simples é evitar consumir café imediatamente após as principais refeições, aguardando cerca de uma hora antes de tomar a bebida. Dessa forma, reduz-se o impacto na absorção de nutrientes importantes, como ferro, zinco e cálcio.
O café pode, portanto, integrar uma rotina saudável, trazendo benefícios quando consumido com moderação e atenção ao contexto de vida e saúde. A ciência da nutrição busca orientar escolhas conscientes e equilibradas. E, para muitas pessoas, poucos hábitos são tão presentes — e tão acolhedores — quanto apreciar uma boa xícara de café.
Saúde!
Até breve
Marcela nutri

Marcela Rodrigues Rocha
Nutricionista (CRN9 – 5529), especialista em Gastronomia (FAMESP), Mestre em Ciências dos Alimentos (IFTM) e Doutora em Engenharia de Alimentos – USP.
@marceladricha
Fotos: Magnific
REFERÊNCIAS:
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução normativa nº 28, de 26 de julho de 2018. Estabelece as listas de constituintes, limites de uso, alegações e rotulagem complementar dos suplementos alimentares. Brasília: ANVISA, 2018.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE CAFÉ. Indicadores da indústria de café no Brasil. São Paulo: ABIC, 2023. Disponível em: Associação Brasileira da Indústria de Café | ABIC Acesso em: 14 maio 2026.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Justificativa dos limites mínimos e máximos de nutrientes, substâncias bioativas, enzimas e probióticos em suplementos alimentares. Documento de apoio à Consulta Pública nº 457/2017. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: Documento ANVISA – Justificativa dos limites para suplementos alimentares
Acesso em: 14 maio 2026.
European Food Safety Authority (EFSA)
EUROPEAN FOOD SAFETY AUTHORITY. Scientific opinion on the safety of caffeine. EFSA Journal, Parma, v. 13, n. 5, p. 4102, 2015.
UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE (USDA). FoodData Central: caffeine content of foods and beverages. Washington, DC: USDA, 2019. Disponível em: https://fdc.nal.usda.gov. Acesso em: 14 maio 2026.
U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Spilling the beans: how much caffeine is too much? Silver Spring: FDA, 2023. Disponível em: https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/spilling-beans-how-much-caffeine-too-much. Acesso em: 14 maio 2026


