Se há lugares que apenas abrem as portas, outros abrem conversas. Em Belo Horizonte, cidade onde o bar sempre foi muito mais do que um ponto comercial — quase uma extensão da sala de casa e das calçadas —, um novo endereço em Santa Tereza quer conquistar espaço por um caminho diferente. Menos pela novidade passageira e mais pela capacidade de resgatar uma experiência cada vez mais rara: sentar-se sem pressa, comer bem, brindar com calma e sair com a sensação de ter vivido algo digno de ser lembrado.
Foi com esse propósito que nasceu, em abril deste ano, o Prosa Santê Bar, novo empreendimento do tradicional bairro da região Leste da capital. Criado pelos amigos Walter Seixas e Cristiano Moreira, o espaço propõe muito mais do que servir boa comida e bebida. A intenção é transformar o bar em um ponto de encontro capaz de preservar e valorizar a identidade de Santa Tereza.
Segundo os sócios, a proposta é ser “um bar com alma de bairro”, voltado para as pessoas e disposto a registrar, valorizar e projetar as histórias e os empreendimentos que ajudam a construir diariamente a identidade local.
Em uma cidade reconhecida nacionalmente pela quantidade e qualidade de seus bares, o Prosa Santê não pretende apenas ser “mais um boteco”. A ambição é ocupar um lugar mais difícil: tornar-se um guardião afetivo da memória do bairro.
“O foco é comer e beber bem, claro, mas chegamos também com uma pegada de valorizar a cultura local, seja Santa Tereza, Belo Horizonte ou Minas Gerais. Nosso bar envolve gastronomia, arte, música, muita prosa e verso. Queremos sempre enaltecer todas essas manifestações, afinal, aqui é nossa casa, nossa referência e grande parte da nossa história”, resume Cristiano, nascido e criado em Santa Tereza.
Walter, chef de cozinha há mais de dez anos, com passagens por cozinhas renomadas da capital e experiência em consultorias gastronômicas, fala do bairro com entusiasmo. Para ele, Santa Tereza representa uma característica que Belo Horizonte preserva como poucas cidades: a intimidade entre moradores, comerciantes e frequentadores.
“Santa Tereza é a essência de Belo Horizonte. Aqui muita gente se conhece, o comércio tem rosto e cada esquina guarda uma história. Sempre frequentei o bairro e tinha o sonho de viver aqui. Agora, com o Prosa, estou me mudando para Santa Tereza e completando um ciclo que faz muito sentido para mim.”

Um bar que quer servir pertencimento
Enquanto parte do mercado aposta em conceitos passageiros, cenografia e tendências, o Prosa Santê segue por outro caminho. Sua identidade nasce do essencial: comida feita com cuidado, cerveja gelada, conversa boa e respeito pelo lugar onde está inserido.
Os sócios fazem questão de destacar que não existe a intenção de transformar Santa Tereza em cenário ou caricatura da mineiridade. Pelo contrário. O bairro é tratado como um organismo vivo, formado por moradores, comerciantes, artistas, cozinheiros e histórias compartilhadas.
“Quero ser mais um mesmo, somar, agregar. Não existe essa pretensão de ser diferente apenas por ser diferente”, afirma Walter.
Segundo ele, a essência da gastronomia também passa por esse olhar.
“O que pretendemos é preservar a essência do bar. A gastronomia vive muitas modas, muitas releituras que acabam desrespeitando alimentos simples. Eu acredito no sabor, na simplicidade e no que a comida desperta nas pessoas. Tem que ser mais descomplicado e acessível.”
Esse posicionamento explica por que o Prosa Santê prefere construir permanência em vez de apostar no efeito novidade. A meta não é apenas lotar as mesas nos primeiros meses de funcionamento, mas tornar-se uma referência afetiva para moradores e visitantes.
Cristiano brinca que o sonho é ouvir, daqui a alguns anos, alguém sugerindo espontaneamente:
“Bora no Prosa, uai.”
“Queremos nos tornar um bar tradicional, conhecido pela culinária com alma, pelas boas histórias e por fazer as pessoas se sentirem no quintal de casa”, completa.
Gastronomia que nasce da memória
No Prosa Santê, a cozinha funciona como uma extensão das lembranças de Walter. Grande parte do cardápio tem origem nas receitas de suas avós, Dona Nize e Dona Elce, cujos sabores continuam presentes em sua maneira de cozinhar.
Mais do que reinventar pratos tradicionais, o chef busca valorizar a simplicidade executada com técnica e respeito às origens.
“Muita coisa que faço vem da base das receitas das minhas avós. Desde o molho de tomate da Dona Elce até o tutu de feijão e o bolinho de carne da Dona Nize. Tudo isso me traz memória afetiva e prazer de comer. Minha ideia é manter essa identidade, colocando meu toque, mas preservando a essência delas.”
Entre os destaques do cardápio estão as almôndegas ao molho da avó, o pernil de domingo, angu temperado, tutu de feijão, bolinho de carne, batata frita artesanal e o mexido, um dos pratos que rapidamente conquistou os clientes.
No balcão, a proposta também valoriza a produção regional. O bar trabalha exclusivamente com chopes e cervejas artesanais mineiras.
“Chope gelado, apego ao que é nosso e reverência a quem abriu caminho antes da gente. E preço justo também é fundamental. É esse cuidado com a essência que faz um bar funcionar.”
Para Walter, a gastronomia contemporânea muitas vezes exagera na busca pelo inusitado e acaba afastando o público daquilo que realmente importa.
“O Prosa quer devolver protagonismo ao que sempre fez do bar mineiro um patrimônio da cidade: comida feita para dar prazer, não para posar de conceito.”
Um projeto que ultrapassa as mesas
Se a cozinha representa a memória afetiva, a principal inovação do Prosa Santê está em seu projeto cultural.
Antes mesmo da inauguração, Walter e Cristiano começaram a desenvolver uma iniciativa voltada para registrar a história viva de Santa Tereza. A ideia é entrevistar moradores, comerciantes, cozinheiros, artistas e personagens que ajudam a construir diariamente a identidade do bairro.
Os relatos serão publicados nas redes sociais, apresentados dentro do próprio bar e, futuramente, reunidos em um livro.
“Santa Tereza tem história demais. Precisamos registrá-las, conectar mais gente e manter tudo isso vivo”, afirma Cristiano.
Walter explica que o foco está justamente em valorizar quem ajudou a consolidar o bairro como uma referência gastronômica e cultural.
“Quero conversar com cozinheiros, donos de bares e restaurantes daqui para entender como construíram seus negócios e como enxergam Santa Tereza. Em vez de buscar nomes famosos de fora, quero valorizar quem ajudou a fazer deste bairro um berço da gastronomia de bares em Belo Horizonte.”
O projeto também prevê divulgar outros empreendimentos locais, independentemente do segmento.
“Quando convidarmos alguém para contar sua história, também vamos divulgar seu estabelecimento. Queremos mostrar toda a riqueza do bairro”, explica Cristiano.
Walter já imagina novos desdobramentos para a iniciativa.
“Penso em convidar cozinheiros de Santa Tereza para cozinharmos juntos. Não em jantares sofisticados, mas valorizando quem há décadas serve comidas simples que se tornaram referência.”
Uma amizade que virou propósito
A história do Prosa Santê também nasce da amizade entre Walter e Cristiano. Os dois falavam havia anos sobre abrir um negócio juntos. Quando surgiu o imóvel ideal, decidiram agir rapidamente.
“Um amigo mandou o vídeo do ponto. Chamei o Cristiano para conhecer e, em dois dias, fechamos a compra. Em menos de um mês fizemos um evento-teste e logo depois a casa já estava funcionando”, lembra Walter.
Cristiano acredita que a combinação entre amizade, experiência profissional e pertencimento ao bairro foi decisiva para transformar o projeto em realidade.
“Eu não estava pensando nisso naquele momento, mas senti que era a hora. O Waltinho é um grande profissional da gastronomia e não abriria um negócio desse com outra pessoa. E só poderia ser em Santa Tereza. Minha alma está aqui.”
Mais do que um novo endereço gastronômico, os dois enxergam o Prosa Santê como um conceito que poderá inspirar outras iniciativas no futuro.
A ideia é levar a proposta para outros bairros tradicionais de Belo Horizonte, sempre preservando aquilo que consideram essencial: respeitar a identidade local, fortalecer a convivência e valorizar as histórias que fazem cada território ser único.
Porque, para seus idealizadores, um bom bar não é apenas um lugar para comer e beber. É, acima de tudo, um espaço onde memórias continuam sendo escritas entre uma mesa, uma conversa e outra.


