“Uma voz original, ágil e de honestidade desconcertante nos conta a vida de uma mulher e os desamparos do seu mundo. Relembra o passado recente, refaz seus passos, ri de tudo que é possível. E, de vez em quando, nos deixa de joelhos diante de tanta dor – para nos fazer rir de novo no parágrafo seguinte.” – Socorro Acioli
“Quando Mainha morreu, eu fiz um pudim. A morte me deixou com a boca ansiando pelo gosto de caramelo.” Assim começa Cor de defunto, primeiro romance de Cami di Malta. O trecho anuncia o tom do livro: afiado, irônico, inesperado. E segue surpreendendo nas páginas seguintes, que contam a história de Lilá, maquiadora de defuntos incapaz de superar a morte da mãe.
A obra será lançada em Belo Horizonte, com um bate-papo entre Cami di Malta e Aline Cântia, no dia 22 de agosto, sábado, a partir das 15h30, na Livraria do Belas (R. Gonçalves Dias, 1581 – Lourdes).
O enredo, aparentemente simples — uma filha às voltas com o luto —, logo se revela mais complexo. A cearense Cami di Malta constrói uma escrita ágil e imagética para acompanhar o cotidiano de uma personagem que perdeu o gosto pela vida e atravessa os dias com discrição, sem poesia para disfarçar a dor nem transcendência para elaborar a morte, presa àquilo que não passou.
Sua estreia se dá amparada por nomes centrais da literatura nacional. Para Socorro Acioli, Cor de defunto apresenta “uma história brasileira, contemporânea” e inscreve a autora “na constelação das melhores jovens autoras de seu tempo”.
Marcelino Freire, que assina a orelha do livro, destaca sua força desde a primeira linha — “matadora”, como define. “Acompanhamos, solitários e solidários, a história de uma filha e da morte da mãe da filha. E de outras mortes que a protagonista testemunha na funerária em que trabalha. Mas também dentro de casa: tanta coisa em nossa memória insepulta. Uma dor mal curada. Um pai pulha. Restos de sardinha na pia. Nas unhas esmalte craquelado. Fedores fedidos para todos os lados. Ave nossa! Li (e ri) a todo tempo apavorado. […] Coisa rara essa obra literária”, garante.
Em um só fôlego, Cor de defunto constrói um espaço em que a morte deixa de ser exceção e passa a ser rotina. Para isso, a autora aposta em imagens concretas, comparações inesperadas e uma oralidade que aproxima a morte de objetos banais e gestos mínimos.
O humor é uma de suas marcas, como no trecho em que a protagonista reflete sobre a vestimenta mais adequada para enterrar a mãe. “Me pareceu desnecessário enterrar o único tênis bom da casa, compartilhado por nós três, mas achei inadequado deixar que Mainha chegasse de chinela, aonde quer que ela estivesse indo. Não quero a responsabilidade de uma alma empacada no limbo por toda a eternidade por estar desarrumada demais. Meia? Será? Esquisito calçar o tênis sem meia, mas não tem um pingo de cabimento colocar uma meia num defunto”, escreve.
Assim, sem buscar consolo nem redenção, Cor de defunto transforma o luto em experiência contínua, feita de repetição, trabalho e memória. A morte não aparece como evento extraordinário, mas como presença diária, infiltrada na casa, no corpo e na linguagem, como um modo de permanência, e não de superação.
Sobre a autora
Cami di Malta nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1992. É pós-graduada em Escrita Criativa pela Unifor, onde começou a escrever seu primeiro romance, Cor de defunto (Autêntica Contemporânea, 2026). Depois de viver em cinco países, hoje divide residência entre Brasil, Malta e Indonésia, atuando como escritora e tradutora.

