Do “quartinho de empregada” às próprias narrativas: mulheres recontam a história do trabalho doméstico em catálogo do Muquifu
Recontar a história do trabalho doméstico remunerado a partir das experiências de quem viveu esse trabalho é o ponto de partida de Na resistência, nasce a liberdade, catálogo do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu). A publicação reúne histórias, fotografias, objetos, relatos e registros audiovisuais de oito mulheres: Catharina Gonçalves Rocha, Justina Dias Ferreira, Márcia Maria Dias Ferreira, Maria de Fátima da Silva Colares, Maria de Lourdes Barreiros Lima, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, Maria Rodrigues da Silva e Terezinha de Oliveira. A partir dessas histórias, o catálogo amplia a discussão sobre o trabalho doméstico remunerado no Brasil, aproximando questões como as relações de trabalho, as condições de vida, os direitos e as memórias de quem exerce essa profissão e suas experiências concretas.
Ao lado de Samanta Coan, organizadora do catálogo, as oito coautoras construíram os roteiros dos vídeos a partir de encontros e oficinas, trazendo suas próprias experiências para o audiovisual. A publicação também registra um processo de pesquisa desenvolvido por Samanta Coan no Muquifu desde 2015, a partir do acervo relacionado ao trabalho doméstico remunerado.
O catálogo parte do núcleo expográfico dedicado ao trabalho doméstico remunerado, criado no Muquifu a partir da exposição Trabalhadora doméstica: da escravidão à extinção – uma antologia do quartinho de empregada no Brasil, inaugurada em 2013, e ampliado em 2018 com Presente de Patroa. Ao longo desse período, o espaço reuniu objetos, relatos orais e mais de 220 escritos deixados por trabalhadoras domésticas e seus familiares na cenografia do “quartinho de empregada”.
A pesquisadora trabalhou com esse acervo e com mulheres e familiares que doaram objetos ou deixaram registros no museu. Para a construção do catálogo, o trabalho de pesquisa foi acompanhado pela participação direta das oito mulheres, que passaram a atuar como coautoras e co-curadoras das narrativas sobre o trabalho doméstico.
“Falar e produzir um catálogo é uma forma de resistir a esse apagamento histórico de luta que a gente tem desde Laudelina de Campos. São histórias que carregam tristezas, traumas e muitas dificuldades, mas são, sobretudo, histórias de mulheres resistentes. Mulheres que trabalharam, cuidaram de suas famílias, estudaram, construíram suas vidas e ajudaram a sustentar a vida de outras famílias por meio do trabalho doméstico. Quando a gente reúne essas histórias, percebe também que muitos processos históricos não foram rompidos: eles continuam, ainda que com novas roupagens. Por isso, esse catálogo é também uma maneira de olhar para essa história, escutar essas mulheres e não deixar que essas experiências sejam apagadas”, afirma Samanta.
No catálogo, as experiências são diferentes, mas se encontram em questões como educação, condições de vida, relações de trabalho, desvalorização profissional e direitos. Em um texto assinado coletivamente, as oito mulheres relatam como o encontro entre trajetórias e idades distintas possibilitou compartilhar experiências e reunir elementos de uma história comum.
Atravessamentos do trabalho doméstico
O trabalho doméstico remunerado aparece no catálogo como uma atividade atravessada por diferentes dimensões da vida. As histórias das oito coautoras mostram como o ingresso nessa profissão esteve muitas vezes ligado à necessidade de ajudar pais e familiares, à busca por melhores condições de vida e ao desejo de estudar. Ao mesmo tempo, os relatos registram desvalorização profissional, exploração, más condições de trabalho e relações ambíguas entre trabalhadoras e patrões. O catálogo também chama atenção para o caráter individualizado dessas relações, que ainda carregam marcas de uma história escravocrata brasileira.
Essa complexidade também está nos objetos e relatos reunidos pelo Muquifu. Presentes recebidos no trabalho, fotografias, histórias de vida e mais de 220 registros escritos mostram que o emprego doméstico pode significar, ao mesmo tempo, sustento, possibilidade de mudança para uma família, criação de vínculos e experiência de exploração. O próprio acervo levou o museu a rever a maneira de representar essas histórias, reconhecendo que elas não poderiam ser reduzidas à imagem da dor e do sofrimento.
É essa contradição que atravessa Na resistência, nasce a liberdade: mulheres que tiveram suas trajetórias marcadas pelo trabalho doméstico também falam de sonhos, educação, família, autonomia e direitos. No texto coletivo que encerra a publicação, as oito coautoras defendem uma representação que reconheça a luta da categoria por uma vida mais digna, sem apagar as dificuldades que fazem parte dessa história.
Histórias que atravessam gerações
Uma dessas histórias é a de Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, a Rosarinha. Nascida em Brasília de Minas, começou a trabalhar como doméstica ainda criança, quando deixou a roça para estudar e trabalhar na casa da mãe de uma professora. O desejo de ser professora acompanhou sua infância, assim como as dificuldades de imaginar esse futuro para uma menina negra.
“Eu comecei a trabalhar de doméstica com 10 anos e, nessa época, eu mais trabalhava do que estudava. Eu queria ser professora, mas diziam: ‘Mas você já viu professora preta?’. Eu pensava e realmente não via. Depois pensei em ser vendedora ou secretária, mas também não encontrava mulheres pretas nesses lugares. O trabalho doméstico era pesado e muitas meninas trabalhavam sem receber, só por comida e para ajudar os pais. Depois de tantos anos trabalhando, eu quero me aposentar e ser dona de casa. Não é porque está ruim, é porque eu estou cansada e já trabalhei muito. Eu gosto de comer bem e viajar. Meu lema é esse: é comer e viajar”, relembra Rosarinha.
A trajetória de Catharina Gonçalves Rocha também está ligada ao trabalho doméstico de sua família. Sua avó chegou a Belo Horizonte aos nove anos para trabalhar e ajudar nas despesas da família que permanecia no interior. A mãe de Catharina começou a acompanhá-la ainda criança e, anos depois, Catharina também vivenciou o trabalho doméstico ao substituir a mãe durante suas férias.
“O trabalho doméstico sempre me atravessa, pensando na história da minha família, porque são mulheres que sempre fizeram esse movimento. Minha avó veio para Belo Horizonte ainda criança para trabalhar, minha mãe começou a acompanhá-la muito nova e também trabalhou em casas e apartamentos. Eu cresci vendo essa realidade e, em algum momento, também vivi o trabalho doméstico. Então, falar sobre esse tema é falar da minha própria história, da história da minha mãe e da minha avó, e de tantas mulheres que construíram suas vidas a partir desse trabalho”, ressalta Catharina.
Para o Padre Mauro Luiz da Silva, curador do Muquifu, o processo construído ao longo de mais de uma década permitiu que o “quartinho” se tornasse também um espaço de escuta.
“Durante mais de uma década, o quartinho recebeu mulheres que encontraram ali um espaço raro para falar de si. A experiência com essas mulheres foi mostrando que não bastava representar uma trabalhadora doméstica dentro de uma cenografia. Era preciso escutar suas histórias, entender as relações de trabalho presentes nos objetos e reconhecer as memórias de dor e de luta que chegavam ao museu. Aos poucos, elas deixaram de ser personagens de uma história contada por outros e passaram a ser autoras das próprias narrativas.”, afirma Padre Mauro
Com 700 exemplares, Na resistência, nasce a liberdade, que é é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, reúne textos de Alexsandro Claudio da Silva, Catharina Gonçalves Rocha, Josemeire Alves Pereira, Justina Dias Ferreira, Márcia Maria Dias Ferreira, Maria de Fátima da Silva Colares, Maria de Lourdes Barreiros Lima, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, Maria Rodrigues da Silva, Mauro Luiz da Silva, Samanta Coan e Terezinha de Oliveira.
SERVIÇO
Lançamento do catálogo: Na resistência, nasce a liberdade
Data: 26 de setembro de 2026
Horário: 10h às 12h
Local: Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu)
Endereço: Rua Santo Antônio do Monte, 708, Vila Estrela, Belo Horizonte
Entrada: gratuita, sujeita à lotação do espaço
Programação: exibição de vídeo, roda de conversa com as coautoras e lançamento do catálogo com sessão de autógrafos
Acessibilidade: Libras
Valor do catálogo: R$ 50 (valor sugerido), com possibilidade de aquisição a partir de R$ 25
Instagram: https://www.instagram.com/muquifu/