Espetáculo “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA” aborda a violência contra mulher, no palco do CCBB BH
No dia 2 de outubro, sexta-feira, estreia no CCBB BH o espetáculo “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA”, da Cia. Entre Nós (SP). Baseado em histórias reais, como as de Eliane de Grammont – assassinada no palco – e Nina Simone – que sofreu abusos e agressões do marido e empresário – a montagem aborda a violência contra mulher a partir do diálogo entre a dança-teatro e o jazz. Com atuação de Daniela Rosa e Rafael Bougleux, direção de Fernando Gimenes e trilha sonora executada ao vivo por Renata Prado e Wendel Dima, a peça questiona como muitas vezes não sabemos reconhecer os limites e violências cotidianas – das mais sutis às mais explícitas – no contexto das relações amorosas. A classificação indicativa é 16 anos.
O espetáculo fica em cartaz até 26 de outubro de 2026, de sexta a segunda, às 19h, no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte. Devido ao período eleitoral, no dia 4/10, domingo, não haverá sessão. E no sábado, dia 10/10, excepcionalmente, estão previstas duas apresentações: às 15h e às 19h. Já nos dias 16, 17, 18 e 19/10, as sessões do espetáculo contam com interpretação em Libras e Audiodescrição.
Os ingressos para o espetáculo são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria do CCBB BH e pelo site ccbb.com.br/bh a partir de 23/09. Um novo lote de ingressos também será liberado exclusivamente na bilheteria 1 hora antes de cada apresentação. Associada à temporada, a Cia. Entre Nós promove ainda uma programação de ações formativas gratuitas. No dia 3/10, sábado, o elenco e diretor realizam bate-papo aberto ao público sobre o processo de criação do trabalho, após a apresentação. Para esta atividade não é necessária a retirada de ingresso (sujeito à lotação do teatro). E no dia 17/10, sábado, das 10h às 13h, o grupo ministra a oficina gratuita de dança-teatro intitulada “Corpos que não se calam”. Mais informações no site ccbb.com.br/bh, nas redes sociais instagram.com/ccbbbh e facebook.com/ccbbbh, ou pelo telefone (31) 3431-9400.
“NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA” tem patrocínio do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Arte e denúncia
Segundo a atriz, fundadora da Cia. Entre Nós e idealizadora do trabalho, Daniela Rosa, o desejo de montar “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA” nasceu da urgência de transformar incômodos, silêncios e relatos inviabilizados, em cena.
“Da minha própria vivência como mulher e artista, cercada por marcas, travessias de abusos e violências ao redor que atravessam a vida de tantas de nós. Eu sentia a necessidade de usar o corpo e a dança-teatro não apenas como expressão estética, mas como uma ferramenta política e pessoal. Ao lado de Fernando Gimenes e Rafael Bougleux, buscamos transformar essa memória vivida e presenciada em uma narrativa poética e contundente — que denunciasse o abuso, fizesse o público refletir criticamente sobre o machismo estrutural”, conta.
Quando a peça estreou em 2015, os dados de violência de gênero no Brasil já eram altos. Dez anos depois, os números continuam alarmantes: a cada 24 horas, 4 mulheres são vítimas de feminicídio no país. De acordo com Daniela, apesar de um cenário de pouca esperança, o espetáculo se mantém atual com o propósito de denúncia.
“A permanência da obra no repertório (da companhia) carrega um sentimento agridoce. Por um lado, escancara que a pauta continua tragicamente urgente, por outro, mostra a força da dança-teatro como poderoso instrumento de denúncia para transformar realidades. Acessamos o público de uma forma que os números e as estatísticas talvez não consigam: pela empatia, o afeto e a subjetividade da cena. O palco vira um alto-falante para denunciar o que muitas vezes é empurrado para debaixo do tapete”, afirma.
A Cena
No palco, um casal ouve jazz enquanto vivencia um processo artístico de investigação sobre violência e feminicídio. Uma mulher e um homem em estados de afeto e colisão, dançam para que seus corpos revelem os limites de uma relação. De acordo com o diretor Fernando Gimenes, na peça, o corpo não é mais um meio para um fim, ele tornou-se assunto e conta sua própria história.
“O corpo vem antes, sempre. Ele denuncia o espírito. Ele denuncia a realidade mesmo que a palavra tente confundir ou organizar o discurso verbal. Um olhar é corpo transbordante. Neste trabalho, não nos preocupamos em diferenciar a dança do teatro. Não acredito nesses limites, preferimos borrá-los ao máximo possível”, comenta Fernando Gimenes.
Livremente inspirado em casos reais como o assassinato brutal da cantora Eliane de Grammont, em 1981, executada a tiros no palco durante uma apresentação pelo ex-marido e cantor Lindomar Castilho, e em obras plásticas e escritas de artistas como a escritora Dione Carlos, a performer Suzanne Lacy, a fotógrafa Nan Goldin e a cantora Nina Simone, o espetáculo “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA” evoca a todo tempo a cumplicidade do espectador, colocando-o como testemunha ocular da história.
“A relação com quem assiste é direta, poética e profunda: o público não é mero espectador. Sentimos em cena um incômodo palpável no ar, um silêncio denso que, por vezes, se torna insuportável ali permanecer. Percebemos que a plateia reconhece no palco as violências do cotidiano — das mais sutis e veladas às mais explícitas. É frequente ver pessoas profundamente emocionadas, mulheres que se identificam com o que veem e homens constrangidos ou deslocados de sua zona de conforto. A obra funciona como um espelho e um espaço seguro de escuta por onde passamos, provocando essa tomada de consciência que o ato de testemunhar juntos artisticamente consegue gerar”, comenta Daniela Rosa.
Música ao vivo
Em cena, a trilha é executada ao vivo pelos músicos Renata Prado e Wendel Dima, colocando a plateia na mesma experiência de improviso e escuta dos artistas em cena. Segundo o diretor, a escolha pelo jazz vem a partir da relação entre as batidas do coração e o swing do gênero, que é orgânica e visceral. “O pulso do jazz simula a dinâmica de um corpo vivo, análogo à pulsação e à contração rítmica do peito humano”, explica Fernando Gimenes.
A escolha do repertório presta homenagem a Nina Simone. A cantora e ativista sofreu abusos físicos e psicológicos severos do marido e empresário Andrew Stroud. “Ele controlava a carreira e a vida da artista de forma sufocante, agredindo-a fisicamente de maneira recorrente. A dinâmica abusiva foi detalhadamente exposta no aclamado documentário What Happened, Miss Simone? (2015), utilizando gravações de voz e escritos da própria artista”, comenta Gimenes.
Oficina
Criada a partir do espetáculo, a Oficina “Corpos que não se calam” propõe um percurso de composição que articula corpo, espaço, presença e imagem na investigação da violência contra a mulher. O processo parte do corpo como campo sensível de memória, resistência e elaboração simbólica. Os participantes serão estimulados a criar micro cenas experimentando a escuta, a denúncia e a elaboração poética do real. A oficina é voltada para artistas da cena, estudantes e público em geral interessado acima de 18 anos. Inscrição gratuita via Google Forms, no site ccbb.com.br/bh.