Três décadas dedicadas ao riso, aos jogos de improvisação, à música e ao encontro com o público ganham uma celebração especial em Belo Horizonte. De 2 a 25 de setembro, o Grupo Trampulim realiza a “Mostra Trintô Trampulim”, reunindo sete espetáculos de seu repertório e duas oficinas gratuitas em diferentes espaços culturais da capital mineira. A programação percorre diferentes momentos da trajetória do grupo e reafirma uma pesquisa artística que tem na palhaçaria, na música, na improvisação e na relação direta com o público seus principais pilares.
Mais do que uma retrospectiva, a “Mostra Trintô” é apresentada pelo grupo como uma ponte entre passado e futuro. Criado em 1994, dentro da Spasso – Escola Popular de Circo, o Trampulim construiu uma trajetória marcada por circulação nacional e internacional, premiações, festivais, ações formativas e, principalmente, pela criação de uma linguagem própria.
Para Tiago Mafra, integrante do grupo desde 1998, celebrar três décadas de trabalho é também reconhecer a dimensão coletiva dessa história. “Celebrar 30 anos com a ‘Mostra Trintô’ é, antes de tudo, um ato de profunda gratidão e resistência. São três décadas refinando o riso, a escuta, a improvisação e a arte de se conectar com o público nas ruas e nos teatros”, afirma. “A ‘Mostra Trintô’ não é só uma retrospectiva, é a afirmação de que a nossa pesquisa continua viva, pulsante e em constante renovação”, completa o artista.
Uma trajetória contada pelo repertório
A programação foi pensada a partir da própria trajetória artística do Trampulim. Ao reunir trabalhos de diferentes períodos, a Mostra permite acompanhar transformações pelas quais o grupo passou ao longo dos anos, mantendo a palhaçaria como eixo central e incorporando novas possibilidades de criação. “Os espetáculos escolhidos para a mostra não são apenas marcos no tempo, mas o reflexo dessa pesquisa continuada e coletiva de três décadas”, explica Isabela Leite, integrante do grupo.
Entre as atrações estão “Manotas Musicais”, espetáculo em que palhaços-maestros e público formam uma grande orquestra com centenas de tambores; “Pratubatê”, experiência musical interativa que transforma cada espectador em protagonista; e “Invasão de Palhaços”, intervenção itinerante baseada no improviso e no jogo com as pessoas e os espaços.
Também integram a programação “Academia Brasileira de Bestas”, mergulho bem-humorado no universo da palermice e da bobagem; “Uma Surpresa para Benedita”, espetáculo protagonizado pelos palhaços Benedita Jacarandá e Sabonete; “A Rainha Procura”, remontagem do Trampulim da obra da Cia. do Quintal, que coloca o público como parte decisiva do jogo cênico; e “Partida”, trabalho de caráter mais autobiográfico em que Adriana Morales e sua palhaça Benedita Jacarandá colocam em cena a relação entre criadora e criatura.
A diversidade dos trabalhos também evidencia uma característica fundamental do Trampulim: a integração entre linguagens. Segundo Adriana Morales, a palhaçaria e a música estavam presentes desde a fundação do grupo, enquanto a improvisação ganhou posteriormente um papel cada vez mais estruturante.
“O que realmente se transformou ao longo desses 30 anos foi o nosso olhar e a aplicação dessas linguagens. Com o tempo e o amadurecimento, deixamos de ver a palhaçaria, a música e a impro como três possibilidades separadas que se encontram no palco. Elas se fundiram. Hoje, não são três linguagens distintas, são palhaços fazendo impro, são palhaços musicais. O Trampulim transformou esse encontro em uma linguagem própria e cada vez mais integrada”, sublinha.
Arte como encontro e direito
Além dos espetáculos, a Mostra promove as oficinas “Trampulimpro e “Palhaçaria Percurso Afetado”, ambas com 25 vagas e ministradas por integrantes do grupo. As atividades ampliam uma dimensão que acompanha o Trampulim desde seus primeiros anos: a transmissão de conhecimentos e a investigação da linguagem da palhaçaria.
A oficina “Percurso Afetado” propõe uma imersão prática no estado e na lógica do palhaço, explorando presença, improvisação, escuta, relação com o erro e construção da comicidade. Já a “Trampulimpro” trabalha jogos e ferramentas de improvisação, aproximando os participantes dos procedimentos de criação desenvolvidos pelo grupo.
Para Rafael Protzner, a formação também é uma forma de recuperar a dimensão presencial das relações humanas. “Buscar a unidade com o outro, ao vivo e no olho no olho, é a própria essência da palhaçaria. O que os participantes podem esperar dessas oficinas não é apenas o aprendizado de uma técnica ou ferramenta de palco, mas o acesso a uma verdadeira tecnologia humana: algo profundamente presente, preciso e transformador para a cena e para a vida”, defende.
A escolha por realizar a Mostra gratuitamente e em diferentes territórios de Belo Horizonte também está relacionada a essa perspectiva. Ao ocupar espaços culturais da cidade, o grupo pretende aproximar a programação de públicos diversos, ampliando o acesso às atividades.
“Belo Horizonte é uma cidade diversa e plural, e a descentralização nos permite romper as barreiras geográficas e sociais para que o espetáculo vá ao encontro das pessoas, e não o contrário”, afirma Marcos Nascimento, que completa a atual formação do grupo. “A palhaçaria tem esse poder mágico de nivelar as pessoas pelo afeto e pela humanidade. Esperamos que a mostra seja um grande abraço na cidade e uma celebração coletiva desse reencontro presencial”.
Três décadas de resistência e reinvenção
Manter um grupo artístico em atividade por três décadas também significa atravessar diferentes contextos econômicos, culturais e políticos. Para Tiago Mafra, a permanência do Trampulim está diretamente relacionada à capacidade de reinvenção construída ao longo desse percurso.
“Manter um grupo de repertório ativo por 30 anos no Brasil é um ato contínuo de resistência, gestão e reinvenção. O maior desafio sempre foi, e continua sendo, a subsistência. Viver dignamente da arte no nosso país nunca foi fácil”, afirma o artista, destacando que as dificuldades também impulsionaram o grupo a buscar diferentes formas de produção e sustentabilidade, sem abrir mão da pesquisa artística.
“Esse desafio, de certa forma, contribuiu para que nos mantivéssemos vivos e em movimento. Tivemos que aprender a empreender, a diversificar nossos caminhos e a buscar maneiras criativas de sustentabilidade. O que nos motiva a continuar criando é essa inquietação diária e a certeza de que a nossa arte precisa chegar às pessoas”, completa Tiago.
Ao longo da trajetória, um dos momentos considerados decisivos por Adriana Morales foi a primeira experiência internacional do grupo, em 2005, no Canadá. A circulação possibilitou um contato com públicos e contextos culturais diferentes e, segundo ela, ajudou o grupo a reconhecer a força de sua própria linguagem.
“Sair de ‘casa’ e expor o nosso trabalho para um público com uma cultura totalmente diferente fez a gente enxergar a nossa própria força. Percebemos o quanto a nossa palhaçaria traz um tempero e uma energia genuinamente brasileiras”, relembra.
A experiência também foi marcada pelo encontro com a pesquisa da canadense Sue Morrison e sua metodologia do “Palhaço através da Máscara”, que, segundo Adriana, provocou uma transformação artística e pessoal profunda. “A partir dessa virada em 2005, nasceu um ‘novo Trampulim’ que nos deu sustentação para seguir caminhando até hoje”, afirma.
Uma celebração que aponta para o futuro
Se a “Mostra Trintô” olha para três décadas de história, ela também funciona como ponto de partida para novos projetos. Entre os próximos sonhos do grupo está a criação da ESPALHA, Escola de Palhaçaria do Trampulim, iniciativa que pretende sistematizar e compartilhar os conhecimentos acumulados durante a trajetória do coletivo.
“Acreditamos que o humor é uma ferramenta poderosa de contraponto, de humanização e de reflexão”, afirma Rafael Protzner. “Os nossos próximos passos e pesquisas serão dedicados a sistematizar o nosso fazer e partilhar esse olhar com quem deseja aprender e perpetuar a linguagem da palhaçaria”.
Para Tiago Mafra, essa perspectiva de continuidade está presente na própria concepção da Mostra. Ao revisitar trabalhos, reencontrar públicos e ocupar novos espaços, o grupo reafirma a vitalidade de uma trajetória que segue em construção.
“É a nossa forma de dizer que tudo o que construímos nesses 30 anos permanece vivo em nós, mas pronto para os próximos passos”, ressalta.
Este projeto é realizado por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, com patrocínio da MGS.



