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Quando cuidar do outro também é uma forma de cuidar de si

Em tempos de sobrecarga emocional, a caridade pode ser uma poderosa aliada da saúde mental. Em um mundo marcado pelo excesso de informações, pela rotina acelerada e pelo aumento dos casos de ansiedade e outros transtornos mentais, que já afetam mais de 1 bilhão de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pequenos gestos de solidariedade ganham um significado ainda maior. Além de transformar a vida de quem recebe ajuda, doar tempo, atenção ou recursos também pode promover benefícios importantes para o bem-estar emocional de quem pratica esses atos.

O estudo How Helping Others Helps Us: Neural Mechanisms Linking Prosocial Behavior to Psychological and Physical Wellbeing publicado neste ano na revista Frontiers, mostrou que atos de generosidade estão associados ao aumento da sensação de bem-estar, da satisfação com a vida e do fortalecimento dos vínculos sociais. 

Além de reduzir sentimentos de isolamento e fortalecer o senso de propósito,a caridade também promove conexões humanas e beneficia a saúde mental de quem pratica esse gesto. Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a caridade representa uma postura de cuidado com o outro e de compromisso com o bem-estar coletivo.

“A caridade é uma expressão concreta da empatia, que envolve reconhecer, compreender e responder às necessidades ou ao sofrimento do outro. Ao nos dispormos a ajudar, fortalecemos os laços sociais, ampliamos nossa percepção de pertencimento e propósito e favorecemos o equilíbrio emocional, contribuindo para uma maior sensação de bem-estar. Ela acontece dentro de quem aprende que o verdadeiro valor da vida não está apenas naquilo que conquistamos para nós, mas também naquilo que somos capazes de construir na vida dos outros”, afirma.

De acordo com a especialista, o cérebro responde de forma positiva às atitudes altruístas. Ao praticar ações solidárias, há ativação de circuitos relacionados ao prazer e à recompensa, favorecendo a liberação de neurotransmissores associados às emoções positivas. “Embora a caridade não seja um tratamento para transtornos mentais, ela pode atuar como um fator de proteção para a saúde psicológica. Como somos seres sociais, ajudar o próximo ativa circuitos cerebrais ligados à recompensa, ao vínculo e ao bem-estar, favorecendo a liberação de substâncias como dopamina, oxitocina e serotonina. Esse processo estimula emoções positivas, fortalece a autoestima, amplia a sensação de pertencimento e ajuda a reduzir o sentimento de impotência diante das dificuldades da vida.” afirma.

A caridade e seu “efeito multiplicador” 

A psicóloga conta que a caridade também tem um efeito multiplicador. Isso porque, segundo a especialista, existe, na Psicologia, um fenômeno conhecido como aprendizagem por observação, segundo o qual as pessoas aprendem ao observar o comportamento daqueles que as cercam. Quando uma criança cresce em um ambiente marcado por atitudes de respeito, acolhimento e solidariedade, tende a incorporar esses valores ao longo do desenvolvimento. O mesmo ocorre entre adultos: um gesto de gentileza costuma inspirar outro, e uma atitude acolhedora contribui para criar um ambiente emocional mais seguro. Além disso, quem recebe ajuda em um momento de dificuldade frequentemente se sente motivado a estender esse cuidado a outras pessoas, fazendo com que a solidariedade ultrapasse o indivíduo e gere impactos positivos em toda a comunidade.

A docente ressalta, entretanto, que é importante compreender que a prática da caridade deve acontecer de forma equilibrada. Quando a pessoa ajuda constantemente às custas da própria saúde física, emocional ou financeira, o comportamento pode deixar de ser saudável. “Cuidar do outro não significa abrir mão do autocuidado. A verdadeira caridade nasce da liberdade de ajudar e caminha junto com o respeito aos próprios limites, diferentemente do autossacrifício, que leva à negligência das próprias necessidades. Assim como, em um avião, somos orientados a colocar primeiro a máscara de oxigênio em nós mesmos para depois auxiliar outra pessoa, na vida emocional também é preciso cuidar de si para conseguir oferecer uma ajuda saudável, consciente e duradoura. O autocuidado não é egoísmo, mas uma condição para manter o equilíbrio emocional e estar verdadeiramente disponível para o próximo.”

Dra. Mariana explica, ainda, que fazer caridade não significa apenas realizar doações financeiras, ou materiais. “Ouvir alguém com atenção, dedicar algumas horas ao trabalho voluntário, oferecer apoio emocional, compartilhar conhecimento ou simplesmente praticar um gesto de gentileza no dia a dia também são formas de exercê-la”, conclui. 

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