As organizações sociais Central Única das Favelas de Minas Gerais (CUFA Minas), Instituto O Grito e Marianas Mulheres Que Inspiram disponibilizam 300 vagas de cursos gratuitos em quatro eixos: Gestão, Letramento Digital, Gastronomia e Beleza. As oportunidades serão voltadas à emancipação socioeconômica de mulheres, com foco na geração de renda própria ou na criação de uma segunda fonte de receita. Os cursos acontecerão entre os meses de outubro e novembro, com inscrições on-line disponíveis até 4 de setembro.
A iniciativa marca a chegada do projeto Redes em Minas Gerais e integra a estratégia de filantropia colaborativa do Movimento Bem Maior (MBM). Em parceria com o Instituto Localiza e o Instituto MRV&CO, a proposta busca o fortalecimento territorial por meio de alianças e investimento com filantropos, empresas, poder público e lideranças sociais locais.
Quem empreende nas favelas
A relevância do programa reflete a realidade dos territórios: o Brasil registrou, nos últimos 10 anos, um crescimento de 27% do empreendedorismo feminino. Esse salto foi 16 pontos percentuais (p.p.) maior que o verificado entre homens empreendedores no mesmo período. É o que aponta um estudo nacional realizado pelo Sebrae a partir de dados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua). Os dados do DataFavela mostram que os empreendedores da periferia movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano em renda própria e consumo, sendo geradores de receita e consumidores com impacto expressivo na economia brasileira.
Nesta fase piloto, CUFA Minas e Marianas Mulheres Que Inspiram oferecerão vagas para Gestão (80), Letramento Digital (80), Gastronomia (50) e Beleza (30), distribuídas entre Belo Horizonte e Itabirito. As turmas contarão com a metodologia “Empreender é Ressignificar: desenvolvimento Integral para Mulheres das Favelas de Minas Gerais”, desenvolvida por Marciele Delduque, presidente da CUFA Minas. A tecnologia social já mobilizou cerca de 1,6 mil mulheres na região de Mariana.
Para Delduque, oferecer formação estruturada dentro do território é a chave para transformar esforço individual em potência coletiva sustentável: “Quando qualificamos uma mulher negra e periférica, estamos transformando toda a dinâmica de uma família e de uma comunidade. Vamos usar a tecnologia social de empreendedorismo que desenvolvemos em Mariana e deu certo para ajudar a pilotar um programa que pode e deve se tornar uma política pública para as cidades”.
Ampliando as oportunidades de qualificação e geração de renda, O Grito oferecerá ainda 160 vagas no município de Ribeirão das Neves. As formações serão distribuídas entre os eixos de Moda e Vestuário, Letramento Digital, Gastronomia e Beleza, contemplando cursos como Bolsa na Tela, Bordado Criativo, Confeiteira, Salgadeira, Tranças, Manicure e Maquiagem. A iniciativa busca ampliar o acesso à capacitação profissional, fortalecendo habilidades e criando novas possibilidades de inserção produtiva, autonomia e geração de renda para as participantes.
“Ninguém transforma a realidade de um território sem ouvir e valorizar quem já constrói as respostas no dia a dia. Para nós, estar nessa aliança significa potencializar vozes, gerar renda e abrir portas efetivas de desenvolvimento a partir do talento que nasce nas favelas e periferias”, ressalta Leo Martins, cofundador do O Grito.
Para os parceiros da iniciativa, a atuação colaborativa está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 17: parcerias e Meios de Implementação, base da agenda 2030 que fomenta o desenvolvimento econômico sustentável. “O investimento social precisa de visão de longo prazo para gerar impacto real. Integrar a Redes Minas fortalece o valor da filantropia colaborativa: somar recursos, competências e protagonismo local para abrir oportunidades concretas de formação, trabalho e renda nas periferias”, destaca Blenda Alves, gestora geral do Instituto MRV&CO.
Já para Alessandra Peixoto, diretora do Instituto Localiza, a iniciativa reforça o compromisso da organização com a mobilidade social, por meio da educação, trabalho e renda: “Acreditamos que a educação técnica, somada às competências digitais, habilidades socioemocionais e ancorada na construção de uma rede de apoio para as mulheres pode abrir caminhos de autonomia e geração de renda estáveis. Este piloto reflete nosso comprometimento com a valorização da potência do trabalho da mulher periférica”, afirma.
Ressaltando o papel da convergência entre setores para gerar impacto socioeconômico duradouro, Carola Matarazzo, diretora executiva do Movimento Bem Maior, pontua: “O desenvolvimento econômico e social só é verdadeiramente sustentável quando construído de forma intersetorial, unindo terceiro setor, iniciativa privada e lideranças locais em torno de soluções integradas. Criamos as Redes porque isso une técnica, governança e respeito à vocação dos territórios.”
A coalizão terá duração inicial de dois anos e a meta é mobilizar R$ 5 milhões. Na primeira fase, de caráter piloto, o objetivo é capacitar 300 mulheres ainda em 2026. A partir dos aprendizados, a intenção para a fase seguinte, entre 2027 e 2028, é alcançar até mil mulheres.
O suporte técnico será viabilizado pela parceria com o Sebrae-MG e a Orbi, que apoiarão a iniciativa na construção da metodologia, na definição de indicadores de impacto e no acompanhamento dos resultados. Ao longo desse processo, a aliança poderá incorporar novas organizações e territórios, além de receber recursos de mais investidores e parceiros.
A Redes Minas integra a nova estratégia de coalizões do Movimento Bem Maior, que tem como objetivo fortalecer a filantropia regional e descentralizar o acesso ao investimento social privado no Brasil. O modelo conta com projetos lançados na Bahia e no Ceará.



