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Setembro Amarelo: sistema imune ganha espaço nas pesquisas sobre depressão

Por décadas, a depressão foi investigada principalmente a partir do cérebro. Agora, uma área crescente da pesquisa científica tenta compreender algo mais amplo: de que maneira alterações no sistema imune, no metabolismo e no intestino podem se comunicar com o sistema nervoso e participar de determinados quadros depressivos.

No mês de conscientização e prevenção ao suicídio, essa discussão ganha relevância. Estudos recentes vêm encontrando associações entre depressão, comportamento suicida e marcadores ligados à inflamação, embora ainda não seja possível estabelecer uma relação única de causa e efeito nem utilizar esses marcadores isoladamente para diagnosticar ou orientar o tratamento da doença.

Para o farmacêutico e PhD Sam Silva, fundador do labor do Laboratório SEMS Biofarma e professor adjunto no College of Pharmacy da University of Georgia, nos Estados Unidos, os achados reforçam a necessidade de enxergar saúde física e mental como partes do mesmo organismo.

“O cérebro não funciona separado do restante do corpo. O sistema imune influencia, metabolismo, intestino, sono e sistema nervoso o tempo inteiro. Entender essa comunicação pode ajudar a compreender por que pessoas com o mesmo diagnóstico de depressão podem apresentar trajetórias tão diferentes”, afirma

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Sam Silva – Foto: Divulgação



Do eixo intestino-cérebro à comunicação entre vários sistemas

Um dos conceitos que mais popularizaram essa discussão é o chamado eixo intestino-cérebro, termo utilizado para descrever a comunicação bidirecional entre trato gastrointestinal e sistema nervoso central. O intestino abriga ainda uma extensa rede de células e estruturas imunológicas e convive diretamente com trilhões de microrganismos da microbiota. Por isso, pesquisadores investigam como alterações nesse ambiente podem repercutir sobre processos metabólicos e provocam alterações imunológicas com consequências, inclusive, neurológicas.

Para Dr. Sam, entretanto, falar apenas em intestino e cérebro para simplificar um fenômeno maior. “O que comumente é chamado de eixo intestino-cérebro é na realidade uma conversa imunológica extremamente interessante, mas há outros participantes nessa conversa. A microbiota produz metabólitos, o sistema imune produz sinais, o sistema nervoso responde influenciando o metabolismo gerando um ciclo de feedback contínuo. É uma rede de comunicação fascinante”, explica.

Essa área de investigação é conhecida como neuroimunologia e ganhou espaço nos últimos anos justamente por estudar a interação entre cérebro e sistema imunológico.

O que a ciência já encontrou

Revisões científicas recentes apontam que pessoas com depressão podem apresentar, em determinados subgrupos, alterações em marcadores associados à inflamação. Uma revisão publicada em 2025 no Annals of General Psychiatry, que reuniu 31 estudos, encontrou associações entre comportamento suicida e marcadores inflamatórios como proteína C-reativa (PCR), IL-6 e TNF-α. Os próprios autores, porém, destacam que os resultados variam entre populações e que ainda são necessárias mais pesquisas antes que esses marcadores possam ser incorporados à avaliação clínica de rotina.

Outro estudo, publicado em 2024 na BMC Psychiatry, acompanhou 82 pacientes com depressão e encontrou associação entre níveis mais elevados de TNF-α e maior ocorrência de ideação ou comportamento suicida durante o período analisado.
Os resultados não significam que depressão seja uma doença causada exclusivamente por inflamação, mas que níveis elevados de inflamação estão diretamente relacionados aos diferentes níveis de depressão.

“Esse é um cuidado essencial”, afirma Dr. Sam. “Não estamos falando em substituir psiquiatria, psicologia ou medicamentos. Estamos falando em compreender que, em alguns pacientes, processos que acontecem no restante do organismo podem estar relacionados ao que acontece no cérebro.”

A comunicação entre inflamação periférica e sistema nervoso central pode ocorrer por diferentes mecanismos, incluindo sinalização neuroendócrina, alterações na barreira hematoencefálica e ativação de células envolvidas na resposta imune do próprio sistema nervoso, como as microglias.

“O corpo não tem departamentos”

Para Dr. Sam, uma das consequências mais interessantes dessa linha de pesquisa é colocar em discussão a tradicional separação entre saúde física e mental.

“A medicina precisa de especialidades porque o conhecimento se tornou enorme. Mas o organismo não sabe que existem departamentos. Intestino, cérebro, fígado, músculos, hormônios e sistema imune continuam conversando independentemente da especialidade que está atendendo o paciente”, diz.

Isso não significa solicitar exames inflamatórios indiscriminadamente nem tratar depressão por meio de intervenções imunológicas. Atualmente, não há biomarcador inflamatório validado para diagnosticar depressão ou definir sozinho qual tratamento deve ser adotado.

O que as pesquisas abrem, segundo Dr. Sam, é espaço para uma visão mais individualizada, considerando também condições metabólicas, doenças inflamatórias, qualidade do sono, alimentação, atividade física, sintomas gastrointestinais e outras condições clínicas quando forem relevantes para cada paciente.

Intestino também pode entrar na conversa

Medicamentos usados no tratamento de transtornos psiquiátricos podem provocar efeitos gastrointestinais em alguns pacientes. O tipo e a intensidade desses efeitos, no entanto, variam conforme a classe e o medicamento utilizado.

Para o Farmacêutico Dr. Sam, a presença de sintomas intestinais merece ser comunicada ao profissional responsável pelo tratamento, em vez de ser tratada como uma questão completamente independente.

“Se o paciente desenvolve constipação, diarreia, alteração importante de apetite ou outro sintoma gastrointestinal, isso também faz parte da história clínica. O objetivo não é interromper o tratamento psiquiátrico, mas permitir que os profissionais enxerguem o paciente inteiro.”

Da experiência pessoal à defesa de uma visão integrada

O interesse de Dr. Sam pela visão sistêmica da saúde também tem origem em sua história pessoal. Sobrevivente de um câncer na infância, passou aproximadamente um ano hospitalizado. A experiência influenciou sua escolha profissional e sua forma de enxergar a pesquisa científica.

“Quando você passa tanto tempo dentro de um hospital ainda criança, começa a perceber muito cedo que uma doença não afeta apenas um órgão. Ela mexe com sua vida! Muda alimentação, energia, sono, humor, imunidade, família, tudo. Essa experiência ficou comigo”, afirma.

Décadas depois, ele construiu carreira ligada à área farmacêutica, desenvolvimento de produtos, pesquisa clínica e assuntos regulatórios. Há 10 anos fundou o Laboratório SEMS Biofarma, um laboratório focado em pesquisa, desenvolvimento e comercialização de produtos focados em doenças crônicas e no câncer. Para o pesquisador, a principal mensagem durante o Setembro Amarelo é ampliar o entendimento de eventos comportamentais e transcender suas implicações além do cérebro e do sistema nervoso central.

“Depressão é uma condição complexa. Não existe uma explicação única nem uma resposta única. Quanto mais entendermos a comunicação entre cérebro e restante do organismo, maiores serão as possibilidades de oferecer um cuidado verdadeiramente individualizado.”

ONDE BUSCAR AJUDA

O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também oferece atendimento por chat e e-mail.
Os CAPS — Centros de Atenção Psicossocial são serviços públicos do SUS e funcionam em regime de porta aberta para o primeiro acolhimento. As Unidades Básicas de Saúde também são porta de entrada para o cuidado em saúde mental.

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