O mais recente Boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica crescimento nas tendências de longo e curto prazo dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) nas últimas semanas, reforçando a expectativa de maior pressão sobre os serviços de saúde nos meses mais frios.
Desde o início do ano epidemiológico de 2026, o país já registrou 31.768 casos de SRAG, com 1.621 óbitos. Do total de casos, 41,6% das ocorrências tiveram resultado laboratorial positivo para vírus respiratórios, com o rinovírus liderando a circulação viral, responsável por 42,9% das infecções, seguido por Influenza A (24,5%), vírus sincicial respiratório (15,3%), SARS-CoV-2 (11,1%) e Influenza B (1,5%).
Segundo Alessandra Zacarias, Especialista em Soluções de Diagnóstico em Saúde da QIAGEN, o cenário torna-se ainda mais desafiador em termos de diagnóstico preciso e tratamento direcionado, uma vez que os quadros de SRAG também podem ser provocados por bactérias — isoladamente ou em coinfecções com vírus.
“Hoje não lidamos mais com um único vírus predominante, mas com vários patógenos respiratórios circulando ao mesmo tempo, incluindo vírus e bactérias que provocam quadros clínicos muito parecidos, como tosse, febre, coriza e dores no corpo. Quando o diagnóstico demora ou não identifica o agente causador com precisão, isso impacta diretamente a conduta médica, o tempo de permanência hospitalar e a organização do fluxo de atendimento.”
Exames disponíveis para infecções respiratórias
Atualmente, o diagnóstico das infecções respiratórias no Brasil combina diferentes métodos laboratoriais. Testes rápidos de antígeno oferecem resultados em poucos minutos e têm ampla disponibilidade, mas apresentam sensibilidade variável. Já exames moleculares por PCR possuem alta precisão e costumam focar em vírus específicos, como Influenza ou SARS-CoV-2, o que pode deixar lacunas quando o resultado é negativo e o paciente permanece sintomático — especialmente em casos bacterianos.
Nesse contexto, ganham espaço os testes moleculares multiplex — também chamados de painéis sindrômicos — realizados por meio de PCR em tempo real e capazes de identificar simultaneamente, em cerca de uma hora, diversos vírus e bactérias respiratórias em um único exame, além de detectar possíveis coinfecções.
“Quando investigamos apenas um patógeno por vez, existe o risco de encerrar a investigação com um resultado negativo e manter a incerteza clínica. Os testes multiplex ampliam essa visão ao permitir a análise paralela de vírus e bactérias respiratórias, oferecendo uma resposta mais completa para apoiar a decisão médica desde o primeiro atendimento”, explica Alessandra.
Impacto clínico e uso racional de antibióticos
A identificação correta do agente infeccioso tem impacto direto no uso racional de antibióticos, um dos principais desafios globais de saúde pública devido à resistência antimicrobiana. Infecções virais não devem ser tratadas com esses medicamentos, mas a ausência de diagnóstico preciso pode levar à prescrição empírica, enquanto infecções bacterianas exigem tratamento precoce adequado.
“Quando conseguimos identificar rapidamente se a infecção é viral ou bacteriana, e qual é o agente envolvido, conseguimos direcionar melhor o tratamento. Isso reduz o uso desnecessário de antibióticos, melhora a recuperação do paciente e contribui para preservar a eficácia desses medicamentos no longo prazo”, complementa a executiva da QIAGEN.
A discussão sobre acesso aos exames ganha força
Embora amplamente utilizados em hospitais privados e em diversos países, os testes multiplex ainda não fazem parte da rotina do sistema público brasileiro (SUS). Com o crescimento sazonal das infecções respiratórias, ampliar o debate sobre diagnóstico é uma etapa importante da preparação do sistema de saúde.
“O diagnóstico é uma etapa estratégica do cuidado. Quanto mais rápido e preciso ele for, maiores são as chances de reduzir internações prolongadas, otimizar leitos e melhorar a jornada do paciente. Discutir o papel dessas tecnologias é discutir eficiência e qualidade assistencial”, conclui Alessandra.



