O perfil do paciente cardíaco no Brasil está mudando drasticamente, e os prontos-socorros agora recebem um público que, até pouco tempo atrás, era considerado fora da zona de risco. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) divulgados em 2025 revelam que as internações por infarto em pessoas com menos de 39 anos mais que dobraram nos últimos 15 anos, sinalizando uma crise de saúde cardiovascular precoce no país.
De acordo com o Ministério da Saúde, o aumento nas hospitalizações por infarto em indivíduos abaixo dos 40 anos atingiu a marca de 150% entre 2000 e 2024. O índice, que antes era de dois casos a cada 100 mil habitantes, saltou para cinco, evidenciando que a juventude não é garantia de bem-estar.
A médica cardiologista e professora da pós-graduação da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Dra Déborah Prado, comenta que embora haja uma tendência de redução dos casos de infarto entre pessoas acima de 40 anos, um movimento diferente tem sido observado entre adultos jovens.
“Este fenômeno pode estar relacionado ao crescimento de fatores de risco importantes para doenças cardiovasculares, como hipertensão, obesidade, dislipidemias e distúrbios do sono. Outro ponto que chama atenção é o uso de substâncias que comprovadamente elevam o risco cardiovascular. Entre elas estão os esteroides anabolizantes utilizados de forma indiscriminada, além de drogas voltadas para melhora de performance, como eritropoetina e GH, e diferentes tipos de estimulantes. Também merece destaque o aumento dos níveis de ansiedade e estresse, condições que já têm associação comprovada com maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares”.
Somente entre 2022 e 2024 foram contabilizados mais de 234 mil atendimentos por infarto nessa faixa etária, evidenciando que a doença deixou de ser rara entre jovens. O avanço é especialmente significativo entre pessoas de 35 a 39 anos, grupo em que os episódios aumentaram cerca de 80%. Mesmo entre indivíduos ainda mais jovens, de 25 a 29 anos, os registros também vêm crescendo gradualmente, segundo dados do Ministério da Saúde.
A cardiologista da Afya reforça que esses dados mostram a importância em estar atento aos sinais de alerta do corpo, mesmo entre os mais jovens.
“O infarto ocorre quando há redução do fluxo de sangue para o músculo do coração, geralmente causada pela doença das artérias coronárias, chamada aterosclerose. Os sintomas podem incluir dor em aperto no peito, que pode irradiar para braços, costas ou pescoço, mas também podem surgir como cansaço desproporcional, intolerância ao esforço, palpitações, sensação de desmaio ou queimação no abdômen na parte superior”, esclarece a especialista.
Uso de cannabis ligado a problemas cardíacos
Outro fator que vem preocupando pesquisadores é o impacto do consumo de drogas recreativas sobre a saúde do coração. Um estudo recente publicado na revista científica Heart em 2025 revelou que o consumo de maconha pode estar ligado a sérios problemas cardiovasculares. A análise, que envolveu dados médicos de cerca de 200 milhões de pessoas entre 19 e 59 anos, encontrou uma associação significativa entre o uso da droga e o aumento do risco de infarto, AVC e morte por doenças cardíacas.
Segundo os pesquisadores, usuários de cannabis têm 29% mais chances de sofrer um infarto e 20% mais probabilidade de ter um AVC. Além disso, a chance de morte por problemas cardíacos chega a ser duas vezes maior em comparação a não usuários. Dra Déborah Prado explica que de forma direta, essas substâncias podem causar um leve aumento da frequência cardíaca e favorecer a inflamação arterial.
“De forma direta as substâncias podem gerar aumento leve da frequência cardíaca e levar a um aumento de inflamação arterial. Alterando o balanço entre os sistemas regulatórios elevando o tônus simpático, onde há maior liberação de substâncias que geram constrição das artérias”, conclui a cardiologista.



