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Maternidade: a identidade que transforma a mulher

A maternidade não inaugura apenas um novo papel. Ela inaugura uma nova identidade. Não se trata de adicionar uma função à vida da mulher, mas de reorganizar quem ela é — seu tempo, seu corpo, suas prioridades e a forma como se posiciona no mundo. Há um deslocamento real, interno e externo, que não cabe em agendas nem em discursos simplificados sobre “dar conta de tudo”.

Ao se tornar mãe, a mulher passa a habitar uma zona de tensão permanente entre presença e ausência: estar no trabalho enquanto pensa nos filhos, estar com os filhos enquanto o mundo profissional a convoca.

Não é uma questão de organização. É uma questão estrutural. Estrutural porque o modelo de trabalho ainda pressupõe uma disponibilidade contínua, quase como se a vida privada fosse um detalhe — e porque, apesar dos avanços no discurso, a prática ainda revela um certo desconforto com a maternidade.

Cumpre-se o protocolo, mas, na vida real, muitas empresas ainda não são exatamente grandes amigas das mães. Os dados ajudam a iluminar o que muitas mulheres já vivem na prática. Pesquisa do Cato Institute mostra que mães deixam o mercado de trabalho cinco vezes mais do que os pais. O mesmo levantamento aponta que 28% das mulheres abandonam seus empregos após a chegada dos filhos, contra apenas 5% dos homens — o que diz bastante sobre como o custo dessa escolha ainda é distribuído.

A desigualdade não para aí. Estudo da Fundação Getúlio Vargas revela que cerca de 50% das mulheres são demitidas em até dois anos após o retorno da licença-maternidade. Não se trata de coincidência estatística — trata-se de um padrão.

Há um preconceito silencioso que atravessa a maternidade no ambiente profissional. A mulher-mãe ainda é percebida como alguém menos disponível, menos produtiva, menos comprometida. Como se o cuidado fosse uma subtração — e não uma expansão.

Mas essa ideia começa a ruir quando confrontada com evidências. Pesquisas conduzidas pela Royal Holloway, University of London indicam que a maternidade está associada ao aumento da atividade no hemisfério direito do cérebro, área ligada à intuição, à criatividade e às habilidades sociais — competências cada vez mais valorizadas em ambientes complexos e colaborativos.

Ou seja, aquilo que o mercado supõe perder é, muitas vezes, exatamente o que ganha. Ainda assim, existe um elemento que escapa às métricas: a culpa.

Como diz o ditado judaico, “Deus não podia estar em todos os lugares — e, por isso, fez as mães”.

Talvez por isso ela apareça com tanta força: porque, na prática, ainda se espera que a mãe esteja em todos os lugares ao mesmo tempo. E, quando não está, a conta parece recair mais sobre ela.

E talvez seja por isso também que o debate sobre maternidade e carreira tenha sido, por tanto tempo, mal formulado. Não se trata de escolher entre um e outro — mas de sustentar ambos em um contexto que ainda não foi desenhado para essa coexistência.

A questão, portanto, não é individual. É coletiva.

Passa por políticas públicas, por cultura organizacional e por uma revisão honesta das expectativas impostas às mulheres. Mas passa também por uma mudança de narrativa: reconhecer que a maternidade não reduz a potência feminina — ela a transforma.

Com o tempo, algo se reorganiza. E, nesse movimento, acontece algo menos visível: quando as mães saltam, os filhos saltam juntos.

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Maria Inês Vasconcelos é advogada e escritora

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