O leite materno reúne nutrientes, anticorpos e outras substâncias que ajudam a proteger o bebê em uma fase decisiva para o crescimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a amamentação comece, sempre que possível, na primeira hora de vida, seja exclusiva até os seis meses e continue, acompanhada da alimentação complementar, até os dois anos ou mais.
Na amamentação exclusiva, a criança recebe somente leite materno, sem água, chás, sucos ou outros alimentos. Apesar da recomendação, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil mostrou que apenas 45,8% das crianças brasileiras menores de seis meses estavam em aleitamento materno exclusivo. No mundo, a proporção foi de aproximadamente 47% entre 2018 e 2025, segundo a OMS.
Os efeitos dessa prática vão além do aporte de calorias, proteínas, gorduras e vitaminas. Segundo Rita de Cássia Aguilar Menezes, Coordenadora Geral Médica da Maternidade Unimed – Unidade Grajaú, o leite humano contém componentes que participam da defesa do organismo e ajudam a proteger contra doenças comuns nos primeiros anos de vida. “O leite humano possui propriedades imunológicas que atuam na prevenção de várias doenças ou ajudam a reduzir a gravidade dos quadros, entre elas infecções gastrointestinais e respiratórias e otites. Além disso, a mãe que toma vacina passa seus anticorpos para seu bebê”, explica.
Essa proteção é especialmente importante enquanto o sistema imunológico da criança ainda está amadurecendo. De acordo com o Ministério da Saúde, a amamentação também está associada a menor probabilidade de obesidade e diabetes tipo 2 no futuro e contribui para o desenvolvimento cognitivo da criança.
Os benefícios continuam depois dos seis meses. Segundo a OMS, o leite materno pode fornecer metade ou mais das necessidades energéticas da criança entre os seis meses e um ano e cerca de um terço entre um e dois anos. Os movimentos realizados durante a sucção também auxiliam no desenvolvimento dos músculos da face, com reflexos na mastigação, na respiração, na fala e no alinhamento dos dentes.
Benefícios começam logo após o parto
Para a mulher, os efeitos aparecem já nas primeiras mamadas. A sucção estimula a liberação de hormônios como a ocitocina, envolvida na ejeção do leite e nas contrações que ajudam o útero a retornar gradualmente ao tamanho anterior à gestação. Esse processo contribui para reduzir o sangramento após o parto e explica as cólicas que algumas mulheres sentem enquanto amamentam nos primeiros dias. “A amamentação provoca uma verdadeira adaptação no organismo materno. Quanto mais o bebê mama e esvazia adequadamente as mamas, maior é o estímulo para a produção de leite. É um sistema eficiente de oferta e procura”, afirma Thaís Pontelo, Ginecologista e Obstetra cooperada da Unimed-BH.
No longo prazo, as evidências associam a amamentação à redução dos riscos de câncer de mama e de ovário e de diabetes tipo 2. Segundo Thaís, essa proteção não decorre de um único fator, mas de um conjunto de alterações hormonais, celulares e metabólicas que ocorrem no organismo durante o período.
A ocitocina também participa de mecanismos relacionados ao vínculo e ao relaxamento. Isso, porém, não significa que a amamentação, isoladamente, previna a depressão pós-parto. “A saúde mental materna é muito mais complexa e envolve fatores hormonais, emocionais, sociais, familiares e econômicos. Precisamos cuidar da amamentação, mas precisamos cuidar principalmente da mulher”, ressalta a ginecologista e obstetra.
Essa ponderação é necessária porque o início da amamentação pode ser marcado por dor, fissuras nos mamilos, mamas excessivamente cheias, dificuldade de pega, cansaço e receio de que o leite seja insuficiente. Embora seja um processo fisiológico, amamentar nem sempre é fácil ou intuitivo. Mãe e bebê podem precisar de tempo e orientação para aprender juntos.
Dor intensa e persistente, trauma no mamilo e dificuldade para o bebê mamar não devem ser considerados normais. A observação de uma mamada completa e a avaliação da posição e da pega permitem identificar problemas que, sem assistência, podem levar ao desmame precoce. “Não existe leite fraco. Sua composição é apropriada às necessidades da criança nas diferentes fases do crescimento”, esclarece Rita. A produção pode diminuir temporariamente, mas tende a se recuperar quando o bebê continua mamando e mantém o estímulo das mamas. A orientação é oferecer o peito em livre demanda, sem horários rígidos, e procurar ajuda profissional diante das dificuldades.
Amamentação também depende de apoio
A continuidade do aleitamento não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva da mulher. Enquanto ela passa horas do dia e da noite alimentando o bebê, outras pessoas podem assumir tarefas domésticas, preparar refeições, trocar a criança, colocá-la para arrotar e permitir que a mãe descanse. “A mãe amamenta, mas a família sustenta a amamentação”, resume Thaís. Segundo ela, a rede de apoio também deve proteger a mulher de comentários que geram insegurança, como a ideia de que o leite é fraco ou de que o bebê precisa de uma mamadeira para dormir.
O apoio deve alcançar ainda os serviços de saúde e o ambiente de trabalho. Antes de retomar as atividades profissionais, a mulher pode planejar a retirada e o armazenamento do leite. Durante o período em que estiver longe do bebê, o esvaziamento regular das mamas ajuda a manter a produção. Privacidade, tempo e local adequado para a coleta e a conservação do leite fazem diferença nesse processo.
Quando chega o momento do desmame, a orientação é que ele aconteça gradualmente, respeitando o desenvolvimento, a maturidade alimentar e as necessidades emocionais da criança e da mulher. Não há idade máxima obrigatória. A amamentação pode continuar enquanto for desejada e saudável para ambos.
O incentivo, portanto, deve vir acompanhado de acolhimento, informação e condições concretas. Diante de dificuldades, a mulher pode procurar uma maternidade, uma Unidade Básica de Saúde ou um Banco de Leite Humano. Apoiar quem amamenta também é uma forma de proteger o bebê.



