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O valor do contraditório

No jazz, a beleza não nasce da obediência rígida à partitura. Ela aparece quando notas diferentes convivem, tensionam, erram e, ainda assim, constroem algo maior. É nesse espaço de risco que a música ganha profundidade, identidade e verdade. A mesma lógica vale para conselhos, lideranças e ambientes de governança, onde decisões moldam futuros inteiros.

Durante uma viagem recente pelo litoral do Rio Grande do Norte, esse contraste estava ilustrado no caminho. Paisagens simples dividiam o horizonte com torres eólicas altas, tecnológicas e absolutamente presentes. O choque visual não era incômodo por acaso. Ele revelava como realidades distintas coexistem sem, necessariamente, pedir permissão uma à outra. Nada ali parecia confortável. Tudo provocava perguntas que mereciam mais tempo e menos resposta pronta.

Esse tipo de contraste ensina mais do que muitas apresentações bem ensaiadas. Ele exige presença, escuta e disposição para rever certezas construídas em ambientes protegidos. Quando só convivemos com visões semelhantes, o mundo parece mais organizado do que realmente é. A repetição que conforta, também empobrece. E liderar passa, justamente, por sustentar desconfortos sem a pressa de organizar tudo em consensos rápidos. 

A verdade é que o consenso rápido costuma soar eficiente nos registros formais. Em atas e relatórios, ele organiza a narrativa. Na prática, porém, tende a reduzir a profundidade do debate. Decisões que avançam sem tempo de reflexão carregam uma aparência de alinhamento, mas nascem, estruturalmente, mais frágeis.

Conselhos existem para ampliar visão, não para reforçar convicções já estabelecidas. Funcionam melhor quando operam como janelas, não como salas fechadas. É pela diversidade de experiências, trajetórias e leituras que as perguntas certas surgem antes das respostas. O contraditório não atrapalha a decisão. Ele testa, tensiona e amadurece o caminho até ela.

Quando vozes diferentes entram na conversa, oportunidades ganham contorno mais nítido e as escolhas ficam menos automáticas. Isso não atrasa decisões. Apenas evita que elas nasçam excessivamente confiantes ou perigosamente simplificadas. A dissonância, quando bem conduzida, protege mais do que expõe.

Dessa forma, podemos observar que a maturidade de gestão não se mede pela ausência de tensão. Ela se revela na capacidade de criar espaço para o desacordo, organizar a divergência e transformá-la em critério. Aceitar a dissonância amplia o repertório, fortalece a decisão e preserva a reputação no longo prazo. Hoje, suas decisões nascem mais cercadas de espelhos ou de janelas abertas para o mundo real?

Luciana-Zanini_-Credito-Vinicius-Matos-999x1024 O valor do contraditório

LUCIANA ZANINI
Investidora, Conselheira, C-Level e CFO do Inhotim

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