O Bloco Fofoca de Carimbó desfila pelas ruas de Belo Horizonte em 2026 celebrando o encontro entre o carimbó paraense e a musicalidade mineira, marca que define a identidade do bloco desde sua criação. Adaptando o ritmo tradicional do Norte aos instrumentos, à cadência e ao espírito do Carnaval belorizontino, o grupo transforma a Avenida dos Andradas em espaço de dança, reflexão e manifestação cultural. Neste ano, o cortejo ganha um chamado direto à consciência ambiental ao adotar o tema “Ode às águas: do Rio Doce ao Tapajós”, propondo que a festa também seja lugar de denúncia e defesa dos rios brasileiros e das populações que deles dependem.
O desfile será no domingo, 15 de fevereiro de 2026, a partir das 14h, na Avenida dos Andradas, na altura do número 908, em frente à portaria do Parque Municipal, seguindo em cortejo pela via em direção ao Viaduto Santa Tereza, reafirmando o Carnaval de Rua de Belo Horizonte como espaço de ocupação cultural e política da cidade.
A escolha do tema dialoga diretamente com a trajetória do bloco, que desde sua fundação constrói pontes simbólicas entre Minas Gerais e o Pará por meio da pesquisa do carimbó. Em 2026, essa conexão se estabelece entre dois rios emblemáticos. O Rio Doce, que corta o território mineiro, carrega as marcas do maior desastre ambiental do país, ocorrido em 2015, após o rompimento da barragem da Samarco, controlada pela Vale. Já o Rio Tapajós, no Pará, enfrenta há anos os impactos do garimpo ilegal e, mais recentemente, a ameaça da dragagem associada a projetos de hidrovias, com riscos diretos às populações ribeirinhas, à fauna e ao turismo local.
“O Carnaval de Rua sempre foi um espaço de luta, de encontro e de reflexão coletiva. Ao falar das águas, estamos falando da base da vida e da urgência de protegê-la”, afirma Marina Araújo, fundadora e regente do Bloco Fofoca de Carimbó. “O Rio Doce e o Tapajós representam realidades diferentes, mas atravessadas pelo mesmo modelo de exploração que coloca em risco povos, culturas e ecossistemas. Levar esse debate para a rua é uma escolha consciente do bloco.”
O tema se materializa no próprio desfile. O minitrio será especialmente decorado para representar o encontro simbólico entre a água barrenta do Rio Doce e o azul cristalino do Tapajós, com referências visuais à biodiversidade dos rios brasileiros. As cores azul e dourado dominam figurinos e adereços, reforçando a ideia de valorização da vida e do cuidado com os recursos hídricos, além de convidar o público a participar visualmente do manifesto proposto pelo bloco.
Musicalmente, a Fofoca de Carimbó mantém o repertório que consolidou sua identidade no Carnaval de Belo Horizonte. O cortejo reúne canções autorais da banda Tutu com Tacacá, incluindo duas músicas inéditas compostas pela baixista Camila Menezes, ainda não lançadas, além de clássicos da música paraense de artistas como Dona Onete, Mestre Lucindo, Mestre Hermes Caldeira, Pinduca e Joelma. A fusão entre o carimbó nortista e a musicalidade mineira segue como eixo central do desfile.
A bateria do bloco é formada por cinquenta percussionistas veteranos, que desfilam com agogôs, agbês, surdos e caixas, sob a regência de Marina Araújo. Em 2026, o cortejo ganha ainda a participação da percussionista Yolinda, integrante da banda Tutu com Tacacá, que incorpora as congas ao minitrio e amplia a sonoridade do desfile, reforçando o diálogo entre tradição e experimentação.
Outro destaque é a ala de dança, considerada a maior de Belo Horizonte, com cerca de trezentas pessoas de todas as idades. Preparada por Marina Araújo, a ala apresenta novas coreografias e leva para a avenida o já tradicional mar de saias de chita, imagem que se tornou marca registrada da Fofoca de Carimbó e símbolo da diversidade do bloco.
Fundado em 2014 por integrantes do Grupo Aruanda, o Bloco Fofoca de Carimbó nasceu da vontade de levar para as ruas de Belo Horizonte a pesquisa de expressões populares desenvolvida pelo grupo, adaptando o carimbó paraense aos instrumentos e ao contexto do carnaval da cidade. Ao longo dos anos, o bloco se consolidou como espaço de encontro entre culturas, territórios e pautas urgentes, reafirmando o Carnaval de Rua como território de resistência e de produção de sentido coletivo.

