Colunista

Canetas para emagrecer: e a alimentação, fica onde?

A obesidade é um problema de saúde pública, e uma condição crônica, que afeta um número elevado de pessoas por todo o mundo. É caracterizada pelo acúmulo de gordura corporal, podendo levar ao desenvolvimento de muitos problemas de saúde.

As chamadas “canetas emagrecedoras” mudaram a conversa sobre tratamento da obesidade. Os chamados agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, e medicamentos de ação dupla, como a tirzepatida, vêm sendo utilizados no tratamento do diabetes e, em determinadas situações, da obesidade.

As medicações são apenas uma das várias estratégias para combater a doença e também podem ajudar a reduzir episódios de compulsão alimentar, promovendo redução do apetite, aumentam a saciedade, retardam o esvaziamento gástrico, e podem produzir perdas significativas de peso corporal, inclusive de peso muscular se os hábitos alimentares e de vida não forem monitorados e ajustados corretamente. Mas existe uma pergunta que merece tanta atenção quanto à balança: o que acontece quando o medicamento é suspenso?

Estudos de acompanhamento mostram que o reganho de peso é frequente após a interrupção do tratamento. Isso não significa que os medicamentos “não funcionam”. Pelo contrário: eles podem ser ferramentas terapêuticas eficazes para pessoas com indicação clínica. O problema é imaginar que o medicamento, sozinho, resolverá para sempre uma condição que é crônica. Sabe-se que o tratamento da obesidade é mais do que apenas controlar o peso – inclui a melhora da saúde mental, redução do estigma internalizado, tratamento de comorbidades, promoção de exercícios físicos, estabelecimento de metas e objetivos de longo prazo, entre outros. 

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E é aí que a alimentação entra

  • Comer menos não significa necessariamente comer melhor — e muito menos emagrecer com saúde

Como esses medicamentos reduzem significativamente o apetite e aumentam a saciedade, algumas pessoas passam a consumir quantidades muito pequenas de alimentos. Quando essa redução é excessiva, pode haver dificuldade para atingir as necessidades de proteínas, vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes.

Além disso, perder peso não significa necessariamente perder apenas gordura. Parte da perda pode ocorrer à custa das reservas musculares, o que torna ainda mais importante cuidar da qualidade da alimentação e da prática de exercícios durante o processo.

  • Proteína + exercício: uma dupla importante

Durante o emagrecimento, preservar a massa muscular deve ser uma preocupação.

Por isso, é importante garantir uma ingestão proteica adequada às necessidades individuais, associada à prática de exercícios físicos, especialmente os exercícios de resistência, como a musculação.

A combinação é importante: a proteína fornece substratos para a manutenção dos tecidos, enquanto o estímulo muscular sinaliza ao organismo que aquela massa precisa ser preservada.

  • Hidratação merece atenção

Náuseas, vômitos, redução importante da ingestão alimentar e constipação podem ocorrer durante o tratamento.

Por isso, manter uma boa ingestão de líquidos é importante, especialmente quando há redução da quantidade de alimentos consumidos ou episódios de vômitos.

Para quem apresenta constipação — um dos possíveis efeitos gastrointestinais desses medicamentos — aumentar fibras sem atenção à hidratação pode piorar o quadro.

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  • Menos comida não precisa significar menos nutrientes

Quando a saciedade chega depois de poucas garfadas, pode ser mais adequado trabalhar com refeições menores e nutricionalmente densas, que concentrem, em quantidades apropriadas, proteínas, vegetais, fontes de carboidratos, gorduras e micronutrientes (para manter a imunidade em dia). A ideia é fazer com que aquilo que será consumido tenha qualidade nutricional.

  • E o acompanhamento profissional?

É aqui que entra um ponto que considero fundamental: a caneta não deveria ocupar o lugar da mudança de hábitos.

O acompanhamento médico é importante para avaliar a indicação, a resposta ao medicamento, os efeitos adversos, a dose e a estratégia terapêutica. Já o acompanhamento nutricional permite adaptar a alimentação à nova realidade de fome e saciedade, preservar a qualidade da dieta e trabalhar a recomposição corporal.

O objetivo deve ser buscar redução de gordura corporal acompanhada da preservação — e, quando possível, do desenvolvimento — da massa muscular, além da melhora da qualidade da dieta e saúde.

E existe ainda uma questão importante: o que acontece quando o medicamento é reduzido ou suspenso?

Se, durante o tratamento, a pessoa apenas comeu menos porque estava com menos fome, mas não desenvolveu novas estratégias alimentares e comportamentais, ela pode se deparar com uma realidade muito diferente quando o apetite retornar.

Por isso, o tratamento também deve ser uma oportunidade para construir uma nova relação com a comida e com o exercício físico, criando novos hábitos alimentares e de vida sustentáveis, que favoreçam o não reganho de peso, após o fim do tratamento medicamentoso. E a medicação pode fazer parte dessa trajetória. Mas ela não deveria ser a trajetória inteira.

Até o próximo texto.
Marcela Nutri

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Marcela Rodrigues Rocha
Nutricionista (CRN9 – 5529), especialista em Gastronomia (FAMESP), Mestre em Ciências dos Alimentos (IFTM) e Doutora em Engenharia de Alimentos – USP.
@marceladricha
Fotos: Magnific



Referências
“Medicamentos para tratar a obesidade” ou “medicamentos antiobesidade” em vez de “remédios para emagrecer”: por que a linguagem importa? – Obesidade
Look, Michelle et al. “Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight.” Diabetes, obesity & metabolism vol. 27,5 (2025): 2720-2729. doi:10.1111/dom.16275
Wilding, John P H et al. “Recuperação de peso e efeitos cardiometabólicos após a abstinência de semaglutida: A extensão do teste STEP 1.” Diabetes, obesidade e metabolismo vol. 24,8 (2022): 1553-1564. doi:10.1111/dom.14725