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Cartão de crédito lidera dívidas e amplia desafio financeiro das famílias

O crédito continua sendo um dos principais instrumentos para manter o consumo das famílias de Belo Horizonte, mas seu uso cada vez mais intenso também amplia os desafios para o equilíbrio das finanças domésticas. Em junho, 88,7% dos consumidores da capital declararam possuir algum tipo de dívida, percentual ligeiramente superior ao registrado no mês anterior (88,6%), confirmando a elevada dependência das famílias em relação ao crédito. Ao mesmo tempo, aumentou o número de consumidores com contas em atraso e daqueles que já reconhecem não ter condições de quitar seus compromissos financeiros. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), aplicada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e analisada pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio MG.

Além da alta no endividamento, a pesquisa mostra que 65,6% das famílias possuem contas em atraso, avanço de 0,4 ponto percentual em relação ao levantamento anterior. Também aumentou o percentual daqueles que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas, que passou para 29,5%, o maior patamar observado desde julho de 2024. Para a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, os números revelam que o crédito continua exercendo papel importante na sustentação do consumo, mas exige cada vez mais cautela diante do comprometimento crescente da renda das famílias. “O consumidor ainda encontra no crédito uma alternativa para manter o padrão de consumo e reorganizar o orçamento. No entanto, o aumento das contas em atraso e do número de famílias que já não conseguem visualizar uma saída para quitar suas dívidas indica que o planejamento financeiro precisa ganhar ainda mais espaço nas decisões de consumo. Quando o crédito deixa de ser uma ferramenta e passa a ser utilizado para cobrir despesas recorrentes, o risco de inadimplência cresce significativamente.”

Embora o percentual de endividados permaneça elevado, a percepção do consumidor sobre sua situação financeira indica um cenário de comprometimento moderado. Entre os entrevistados, 41,3% se consideram pouco endividados, enquanto 27,8% afirmam estar mais ou menos endividados e 19,5% dizem estar muito endividados. Ao todo, quase nove em cada dez consumidores da capital possuem algum compromisso financeiro.

A pesquisa também evidencia diferenças importantes entre as faixas de renda. Nas famílias com rendimento de até dez salários mínimos, o percentual de endividados chega a 89,8%, contra 81,8% entre aquelas com renda superior a esse limite. A inadimplência também é mais intensa no primeiro grupo: 67,5% possuem contas em atraso, enquanto entre as famílias de maior renda o índice é de 54,4%. Segundo Gabriela Martins, essa diferença demonstra que os consumidores de menor renda enfrentam menor capacidade de absorver oscilações econômicas. “As famílias com renda mais baixa destinam parcela maior do orçamento às despesas essenciais e possuem menor margem para lidar com imprevistos. Qualquer aumento nos gastos ou redução da renda acaba pressionando diretamente a capacidade de pagamento, o que explica a maior incidência de inadimplência nesse grupo.”

A pesquisa mostra ainda que o cartão de crédito permanece como o principal responsável pelo endividamento, presente em 97,3% das dívidas registradas na capital. Em seguida aparecem carnês de lojas (31,8%), crédito pessoal (8,9%) e financiamento de veículos (5,1%). Para a economista, o protagonismo do cartão exige atenção especial dos consumidores. “O cartão de crédito oferece praticidade e flexibilidade, mas também concentra uma das maiores taxas de juros do mercado quando a fatura não é quitada integralmente. Seu uso consciente continua sendo um dos principais fatores para preservar a saúde financeira das famílias.”

Outro dado que chama atenção é o tempo de permanência da inadimplência. Entre aqueles que possuem contas atrasadas, 48,9% convivem com esse atraso há mais de 90 dias, e o tempo médio de inadimplência alcança 65,1 dias.

As dívidas também permanecem por períodos prolongados no orçamento familiar. O tempo médio de comprometimento da renda é de oito meses, sendo que 78% dos consumidores possuem compromissos financeiros com duração superior a três meses. Além disso, em 80,5% dos casos as dívidas comprometem mais de 10% da renda mensal das famílias, e em 32,5% dos lares esse comprometimento supera metade do orçamento. O comprometimento médio da renda alcança 32,9%. Na avaliação da Fecomércio MG, o cenário reforça a importância do planejamento financeiro para preservar o consumo sustentável e reduzir o risco de agravamento da inadimplência. Embora o mercado de trabalho e a renda continuem oferecendo suporte à atividade econômica, o elevado comprometimento do orçamento limita a capacidade de novas compras e exige maior cautela tanto dos consumidores quanto das empresas que operam com vendas a prazo.

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