No debate global sobre mudanças climáticas, transição energética e preservação ambiental, Minas Gerais ocupa uma posição estratégica. Às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, o estado se destaca como protagonista de um modelo que une produção, conservação e inovação: o das chamadas “florestas pensadas”.
busca reposicionar a percepção sobre as florestas cultivadas, destacando que elas são planejadas para produzir madeira renovável, conservar recursos naturais, recuperar áreas degradadas e atender às novas demandas da economia de baixo carbono.
Os números ajudam a dimensionar a relevância do setor em Minas Gerais. O estado possui cerca de 2,3 milhões de hectares de florestas plantadas, aproximadamente 22% da base florestal brasileira, distribuídos em 803 municípios, o equivalente a 94% do território mineiro. Paralelamente, o setor conserva mais de 1,3 milhão de hectares de vegetação nativa, área semelhante à ocupada pela cultura do café no estado.
Além da preservação ambiental, a cadeia produtiva ligada à AMIF gera mais de 115 mil empregos diretos e indiretos e beneficia cerca de 615 mil pessoas por meio de projetos socioambientais. Segundo a presidente executiva da AMIF, Adriana Maugeri, a atividade florestal se consolidou como uma das principais soluções ambientais disponíveis atualmente. “As florestas pensadas mostram que produção e preservação caminham juntas. Para cada 60 hectares de florestas cultivadas, o setor conserva outros 40 hectares de vegetação nativa. É o dobro do exigido por um dos códigos florestais mais rigorosos do mundo”, afirma.
Ela destaca ainda que o setor vem desempenhando um papel relevante no enfrentamento das mudanças climáticas. “As florestas cultivadas são sumidouros naturais de carbono. As árvores capturam CO2 da atmosfera e armazenam esse carbono na madeira, no solo e nos produtos derivados dela. Hoje, Minas Gerais já reúne condições para neutralizar suas emissões de carbono com base nas áreas florestais existentes”, explica.
A dirigente ressalta que o potencial de crescimento ainda é expressivo. “O Brasil possui milhões de hectares de áreas degradadas que podem ser recuperadas sem derrubar uma única árvore nativa. Minas tem todas as condições para liderar uma nova economia baseada em soluções renováveis, bioenergia e bioprodutos”, diz.
Embora o debate ambiental frequentemente associe sustentabilidade apenas à eletrificação e às energias renováveis, o setor florestal chama atenção para outro elemento estratégico da transição energética: a madeira. Segundo o presidente do Conselho Deliberativo da AMIF, Júlio Ribeiro, o futuro da indústria global passa pela substituição gradual de matérias-primas fósseis por materiais renováveis. “O futuro é feito de madeira. Hoje ela já substitui plástico, combustíveis fósseis, fibras sintéticas, carvão mineral e diversos insumos industriais. O mundo está buscando alternativas sustentáveis e Minas Gerais tem uma vocação natural para liderar esse movimento”, afirma.
A madeira cultivada está presente em milhares de produtos do cotidiano, muitas vezes sem que o consumidor perceba. Além do papel e da celulose, ela dá origem a tecidos de fibras renováveis utilizados pela indústria da moda, embalagens biodegradáveis, biocombustíveis, móveis, painéis, produtos de higiene, pisos, estruturas da construção civil e até componentes da indústria siderúrgica.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a produção do chamado “aço verde”. Minas Gerais abriga empresas que utilizam carvão vegetal oriundo de florestas cultivadas na fabricação do aço, substituindo o carvão mineral, uma das maiores fontes globais de emissão de gases de efeito estufa. “O Brasil é referência mundial nessa tecnologia e Minas Gerais concentra boa parte dessa expertise. O carvão vegetal renovável se tornou uma das rotas mais viáveis de descarbonização da siderurgia mundial”, explica Júlio Ribeiro.
Produção florestal avança sobre áreas degradadas e recupera solos
Outro ponto que merece destaque é o papel das florestas cultivadas na recuperação ambiental de áreas degradadas. Diferentemente da percepção disseminada há décadas, o setor afirma que o manejo atual é altamente tecnológico e desenvolvido com base em pesquisas científicas, melhoramento genético e planejamento ambiental.
Os ciclos produtivos brasileiros, considerados os mais eficientes do mundo, permitem colher madeira em cerca de sete anos, enquanto países como Canadá, Finlândia e Estados Unidos trabalham com ciclos de décadas. “A floresta cultivada de hoje é resultado de mais de 50 anos de ciência, tecnologia e inovação. Existem clones desenvolvidos para diferentes condições de solo, clima e disponibilidade hídrica. É uma produção altamente planejada”, afirma Adriana Maugeri.
Ela lembra ainda que a presença contínua das florestas em determinadas regiões desmonta antigos mitos relacionados à atividade. “Se o cultivo florestal esgotasse água ou degradasse o solo, ele não permaneceria produtivo na mesma área por mais de meio século. O que vemos é justamente o contrário: regeneração, conservação e melhoria ambiental”, diz.
A dirigente também destaca o impacto social da atividade em regiões historicamente vulneráveis do estado. “Grande parte das florestas está em áreas com baixo Índice de Desenvolvimento Humano. O setor leva emprego, renda, infraestrutura e oportunidades para municípios onde muitas vezes faltam alternativas econômicas”, afirma.
Minas busca consolidar liderança na bioeconomia
A AMIF avalia que o avanço da agenda ambiental global abre espaço para que Minas Gerais se torne uma potência internacional da bioeconomia. Com ampla disponibilidade de áreas aptas para expansão sustentável, capacidade industrial consolidada e reconhecimento internacional em soluções de baixo carbono, o estado busca transformar as florestas cultivadas em um ativo estratégico. “Minas Gerais abriga a maior floresta plantada do Brasil construída pelas mãos do homem. É um patrimônio econômico, ambiental e social que ainda precisa ser mais conhecido pelos próprios mineiros”, afirma Júlio Ribeiro.
Para Adriana Maugeri, o desafio agora é aproximar o consumidor urbano dessa realidade. “Quando as pessoas entenderem que a roupa, o papel, a embalagem, os produtos de higiene e até parte do aço que utilizam podem ter origem renovável, elas passam a enxergar as florestas de outra forma. Estamos falando de uma atividade essencial para o futuro do planeta”, conclui.



