As alegorias – e as potentes vírgulas – do escritor José Saramago (1922-2010) encontram a infinitude cênica e poética do Grupo Galpão em “(Um) Ensaio sobre a cegueira”, o mais recente espetáculo da companhia mineira, que volta a Belo Horizonte depois de conquistar os principais prêmios do teatro brasileiro em 2025. Inspirada no romance do autor português, vencedor, em 1998, do Prêmio Nobel de Literatura, a peça tem direção e dramaturgia de Rodrigo Portella, e direção musical de Federico Puppi.Na clássica obra – lançada há 31 anos –, uma epidemia assola a cidade, privando seus habitantes de enxergar o mundo. Em tal contexto, questões ligadas à moral, à ética e à vida em comunidade são postas em xeque. A temporada de “(Um) Ensaio sobre a cegueira” em Belo Horizonte (MG) será de 25 de junho a 14 de julho de 2026, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas, em dias e horários alternados.
Os ingressos antecipados podem ser adquiridos na plataforma Sympla. O espetáculo conta com o “Ingresso Experiência”, categoria na qual o público poderá vivenciar a peça em uma experiência imersiva e sensorial no palco, guiada pelo elenco. Pessoas maiores de 18 anos poderão participar, aceitando as condições informadas. O Ingresso Experiência poderá ser comprado presencialmente na bilheteria do teatro ou de forma online, individual (única e intransferível).
Esta temporada é realizada por meio da Lei Rouanet com patrocínio da Petrobras, Vale e Cemig. Onde tem patrocínio, tem Governo do Brasil.
Contada por meio da prosa ensaística de Saramago, a história sobre a “cegueira branca” que se espalha em diversas partes do mundo não é apenas uma meditação sobre a perda e a fragilidade humanas, mas, também, uma potente alegoria acerca dos frágeis limites éticos que nos separam da barbárie. “A obra revela o modo como, em um mundo despojado das aparências, enxergamos, realmente, quem somos e o que, em essência, significa ser humano”, destaca Rodrigo Portella, diretor do espetáculo, para quem a narrativa do grande escritor português se revela repleta de paralelismos: “A cegueira pode ser uma metáfora da perda de sentido e do senso de humanidade, assim como de nossa capacidade de enxergar além do que se vê”.
Ator e um dos fundadores do Galpão, Eduardo Moreira ressalta que a parceria com Rodrigo Portella e o projeto de adaptação do romance “Ensaio sobre a Cegueira” representam mais um importante capítulo da trajetória de experimentação e teatro de pesquisa do Grupo. “Em quase 44 anos de atividade contínua, sempre pautamos nossa prática pela busca de novas e desafiadoras experiências, que nos fizessem refletir sobre a natureza do teatro e de como ampliar e diversificar nossos conhecimentos e perspectivas”, comenta.
Segundo Eduardo, o teatro do Galpão está sempre em construção. “Nós nos colocamos como aprendizes, nessa perspectiva, num processo profundamente libertador, que revela nossos limites, ao mesmo tempo em que nos convida a viver novas experiências de risco e experimentação, não só entre nós, mas, também, na comunhão com o público, que sempre foi e continua sendo parte essencial do nosso trabalho”. A questão central de todo o processo de trabalho ligado a “(Um) Ensaio sobre a cegueira”está na elaboração de um ator formulador, que constrói permanente dialética entre narrativa e drama, a partir da obra de Saramago. “A natureza de ensaio, de algo construído no calor do aqui e do agora, na busca por um frescor permanente do acontecimento teatral, foi o impulso primordial da adaptação proposta por Rodrigo Portella, ao abordar a fábula da distopia de um mundo dominado pela metáfora de uma ‘cegueira branca'”.
Também para Eduardo, a ideia de um mundo em que “não cegamos”, mas onde “estamos cegos” – “cegos que veem”, “cegos que, vendo, não veem” – garante a exata dimensão da extraordinária atualidade da obra de Saramago e de sua capacidade de dialogar com as grandes questões e mazelas do nosso tempo. “É um convite para que possamos fechar os olhos e, finalmente, ver”.
Na opinião de Rodrigo Portella, em Saramago, vê -se de algo como o ofuscamento do saber ou a representação da ignorância, da curiosidade e do interesse genuíno no coletivo. “Para mim, a obra é a alegoria, quase satírica, de uma sociedade mergulhada numa espécie de produtivismo capitalista que o próprio Saramago chama de mal branco. Não é sobre não poder ver, como uma deficiência visual, é sobre não enxergar o que se vê”, analisa. “Estamos cegos diante de tanta imagem, perdemos a capacidade de ler o mundo em camadas mais complexas. Quando vou a um museu muito turístico, constato uma cegueira geral. Poucas pessoas veem, de fato, as obras. A maioria, ao contrário, não as enxerga, pois perdeu a capacidade de ler, observar e reter. Elas estão distraídas com suas selfies ‘instagramáveis’, perdidas numa espécie de automatismo”, completa.
No que diz respeito ao processo de trabalho de “(Um) Ensaio sobre a cegueira”, Fernanda Vianna, atriz do Grupo Galpão, destaca, em Rodrigo Portella, características que tornam o projeto ainda mais intenso: “Ele é um diretor afetuoso e respeitoso, que busca, com tranquilidade, uma linguagem autêntica, ao partilhar sua visão com toda a equipe criativa. Tenho aprendido muito, e apanhado um bocado, também! Além disso, a dramaturgia dele é brilhante. Cabe o livro inteiro do Saramago nessa montagem, ou, como disse o próprio escritor, ‘o mundo inteiro está aqui dentro'”. Ela destaca, ainda, que a “cegueira branca” de Saramago retrata a “cegueira moral da indiferença, do egoísmo, da tirania e da covardia, de nossa impotência diante das guerras, dos que têm fome. É uma oportunidade ímpar poder falar sobre isso neste momento”.
A direção musical do espetáculo é do violoncelista, produtor e compositor musical, Federico Puppi, parceiro de Portella em outros trabalhos. Para ele, trabalhar com o Grupo Galpão é como compor “para um instrumento com timbre próprio – cheio de história, personalidade e alma” Afinal: “Cada ator, cada gesto, carrega uma sonoridade única, como se o grupo inteiro vibrasse em harmonia. Criar música para o Galpão é dialogar com essa memória viva, ouvindo o que a cena pede e respondendo com afeto e escuta. Não é apenas música: é ressonância. É esculpir a sonoridade da cena a partir da riqueza evocativa que o grupo propõe, somando a minha identidade”.



