Quem passa pela MG-030 nos horários de pico conhece bem o cenário de filas, lentidão e uma sensação de que o crescimento dos bairros Vila da Serra e Vale do Sereno avançou mais rápido do que a infraestrutura capaz de suportá-lo. A região é hoje uma das que mais recebem lançamentos imobiliários na Grande Belo Horizonte. Mas como garantir que mais gente possa circular pela área sem depender exclusivamente do carro?
Na avaliação da Associação dos Empreendedores do Vila da Serra e Vale do Sereno (AVS), a resposta passa por uma mudança de olhar sobre o que significa mobilidade urbana. “O crescimento da região não pode ser acompanhado apenas de mais prédios. Precisamos de espaços que permitam às pessoas se deslocar com segurança a pé ou de bicicleta, que criem pontos de convivência e que devolvam à cidade uma escala humana”, afirma a diretora executiva da AVS, Cida Cardoso.
De acordo com a diretora, falar em mobilidade sustentável não é tratar apenas de transporte. “Estamos falando de saúde, qualidade de vida, segurança e ocupação dos espaços públicos. As cidades mais modernas do mundo vêm investindo justamente em ambientes que incentivem os deslocamentos a pé e por bicicleta”, acrescenta.
O principal símbolo dessa mudança é o Parque da Linha Férrea, projeto que vai requalificar o antigo Ramal Ferroviário de Águas Claras e prevê destinar 73% de sua área a um parque linear com ciclovias, calçadão para pedestres e espaços de convivência. Serão deixados outros 27% para uma nova via de rolamento, batizada de Avenida Parque.
Com 5,2 quilômetros de extensão e mais de 400 mil metros quadrados, o projeto vai conectar bairros como Jardim da Torre, Vila da Serra, Belvedere, Jardim das Mangabeiras e Vale do Sereno. Além da nova avenida, que ligará vias importantes como a MG-030, a BR-356 e a Alameda Oscar Niemeyer, o plano prevê praças, playgrounds, lago, quadras, anfiteatro, mirantes e a preservação dos trilhos do antigo ramal como patrimônio histórico.
O diferencial do projeto é justamente combinar diferentes formas de deslocamento. “A proposta busca equilibrar a necessidade de circulação viária com a criação de espaços qualificados para pedestres e ciclistas. Acredito que não seja sobre substituir um modal por outro, mas sim de ampliar as possibilidades de deslocamento da comunidade”, observa Cida.
A discussão não é exclusiva da região. Ela está alinhada a diretrizes mais amplas de planejamento metropolitano. O Plano de Mobilidade Ativa da Região Metropolitana de Belo Horizonte (PlanMob RMBH), elaborado pelo Governo de Minas Gerais com apoio técnico da Urbtec, tem como objetivo estimular deslocamentos por modos não motorizados na região metropolitana, propondo, entre outras medidas, a criação de uma rede cicloviária metropolitana e de polos de transferência intermodais. O plano segue as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal nº 12.587/2012) e do Estatuto da Metrópole (Lei Federal nº 13.089/2015).
Sendo assim, iniciativas como o Parque da Linha Férrea dialogam diretamente com esse planejamento metropolitano. “Existe hoje um entendimento crescente de que as cidades precisam oferecer alternativas ao uso exclusivo do automóvel. Quanto mais opções seguras e integradas existirem, mais eficiente tende a ser o sistema de mobilidade como um todo”, explica Cida.
Já o Plano de Mobilidade da RMBH, conduzido pela Agência RMBH em parceria com a Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade de Minas Gerais (Seinfra), trata o tema de forma multimodal, com planos específicos para transporte coletivo, logística urbana, transporte individual motorizado e transporte ativo.
Na avaliação da AVS, o crescimento acelerado do Vila da Serra e do Vale do Sereno torna ainda mais urgente a discussão sobre novos modelos de mobilidade. “Estamos falando de uma região que continua recebendo investimentos, novos moradores e novos empreendimentos. Por isso, é fundamental pensar a infraestrutura urbana de forma antecipada, criando soluções que atendam não apenas às demandas atuais, mas também às futuras”, afirma a diretora.
Uma região em debate
O futuro da mobilidade na região tem despertado diferentes visões sobre a melhor forma de utilizar os espaços urbanos disponíveis. Enquanto parte da população defende a ampliação de áreas voltadas exclusivamente para pedestres, ciclistas e preservação ambiental, especialistas apontam a importância de buscar soluções que conciliem diferentes formas de deslocamento e atendam às demandas de uma região em constante crescimento.
Nesse contexto, o desafio passa por construir alternativas que integrem interesses da população, do poder público e da iniciativa privada, com planejamento de longo prazo, participação social e incentivo a modos de transporte mais sustentáveis.
O debate mostra por que o tema da mobilidade sustentável se tornou central para o futuro do Vila da Serra e do Vale do Sereno. A forma como a região equilibrar a circulação de veículos, a mobilidade ativa e os espaços de convivência ajudará a definir o modelo de urbanização de uma das áreas de maior crescimento e valorização imobiliária da Grande Belo Horizonte.
O desafio, segundo a diretora executiva da AVS, não é escolher entre carros, bicicletas ou pedestres, mas construir uma cidade capaz de atender todos os usuários. “A mobilidade sustentável passa pela integração dos diferentes modos de deslocamento. Quanto mais equilibrada for essa infraestrutura, mais qualidade de vida teremos para quem vive, trabalha ou visita a região”.
A discussão sobre o futuro da mobilidade no Vila da Serra e no Vale do Sereno reflete um desafio cada vez mais presente nos grandes centros urbanos brasileiros, planejar o crescimento de forma integrada e antecipada. Em uma região marcada pela expansão imobiliária e pela atração contínua de investimentos, iniciativas que combinem desenvolvimento urbano, qualificação dos espaços públicos e visão de longo prazo tendem a ganhar relevância na construção de um ambiente mais conectado, funcional e preparado para as transformações das próximas décadas.

