Carnaval

Neste sábado (14): Bloco Seu Vizinho enaltece as afromineiridades em cortejo com Sérgio Pererê, Rainha Belinha e MC Morena

Um mergulho profundo nas afromineiridades enquanto conjunto de expressões artísticas, territórios, linguagens, modos de viver e táticas de sobrevivência. Essa é a proposta do Bloco Seu Vizinho, que apresenta neste ano o tema “Batuke de Minas: Coroando nossas afromineiridades”, em cortejo neste sábado de Carnaval, dia 14 de fevereiro. Com participações de Sérgio Pererê, Rainha Belinha e MC Morena, o bloco homenageia a cultura afromineira transformando o desfile em uma narrativa viva sobre memória, resistência e futuro a partir das heranças bantu e da experiência da favela.

A agremiação carnavalesca formada no Aglomerado da Serra se concentra às 11h, com saída prevista para 12h, na Avenida Mem de Sá, na altura do número 1.999, na região do “Canão”, divisa entre Vila Fazendinha, Aglomerado da Serra e bairro Santa Efigênia. Com público estimado de 100 mil pessoas e previsão de duração de seis horas, o cortejo segue na Avenida Mem de Sá até o número 1.386, no bairro Santa Efigênia.

O cortejo do Bloco Seu Vizinho em 2026 é uma realização da Associação Cultural Seu Vizinho; da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Belotur; e do Ministério da Cultura, referente ao projeto “Apoio ao Bloco Seu Vizinho – Carnaval 2026” – Termo de Fomento 029438/2025.

“Batuke de Minas: Coroando nossas afromineiridades”

O tema deste ano nasceu da necessidade de ocupar o Carnaval de Belo Horizonte com música, arte e cultura afromineira, expressões que muitas vezes ficam à margem diante do eixo Salvador-Rio, que costuma concentrar maior visibilidade em ritmos, sonoridades e práticas carnavalescas. “Temos observado pouco reconhecimento das manifestações dos tambores ancestrais de Minas Gerais. Com esse tema, queremos valorizar os mestres e mestras, os tambores, os instrumentos e os ritmos afromineiros”, defende Paulo Vitor Ribeiro, o PV, e Matheus Lobo, os fundadores e gestores do Seu Vizinho, que também atua como associação comunitária durante todo o ano. 

Segundo os fundadores, a costura do conceito se deu durante o ano de 2025, após dois anos de trabalhos pontuais desenvolvidos junto ao Grupo Tambolelê, desembocando em um convite especial neste Carnaval. “Após a escolha do tema, buscamos uma referência artística e cultural afromineira que pudesse aprofundar a proposta, trazendo mais fundamento, sentido e elementos simbólicos. Nesse contexto, convidamos Sérgio Pererê para atuar como consultor artístico do desfile, contribuindo de forma decisiva para o aprofundamento conceitual, estético e musical do tema. Inicialmente ele nos apresentou o contexto histórico e sagrado do Reinado Mineiro, suas vertentes, sua estética e sua filosofia, além de reforçar características próprias do povo mineiro, indicando o que cabe e o que não deve ser levado para festa de rua. Além disso, trouxe outros saberes, referências e elementos fundamentais para o desenvolvimento conceitual”, explicam.

Um dos artistas afromineiros mais importantes do país, Sérgio Pererê também apresentou personagens da cultura popular mineira, falou de Minas Gerais como um território marcado por diversas formações de quilombos e colaborou diretamente na definição de elementos estéticos do figurino e da cenografia. “Além disso, ele trouxe importantes referências musicais que ajudaram a compor e a fortalecer o repertório do desfile, que vai valorizar artistas afromineiros”, afirma PV, citando nomes como Maurício Tizumba, Milton Nascimento, Marku Ribas, Clara Nunes e o próprio Pererê, que participará do desfile.

No campo dos ritmos, “estamos desenvolvendo uma releitura do ritmo das Guardas de Moçambique conhecido como Serra Abaixo, respeitando sua tradição e adaptando-o ao contexto do bloco, que também contará com a participação da Rainha Belinha, atual Rainha Conga de Minas Gerais e líder da Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário”, comenta Matheus, gestor e carnavalesco do Seu Vizinho, bloco que trabalha diferentes ritmos estilos que valorizam a cultura negra e periférica, entre eles o funk, o samba, o pagode, o rap e o pagodão baiano. 

Nesse sentido, PV ressalta a importância em valorizar a ancestralidade e propor um diálogo entre as culturas tradicionais afromineiras e a ousadia da juventude periférica – confluência marcada com a participação de MC Morena, uma das principais vozes femininas do funk mineiro e do brega funk, ligada à cena independente e ao baile. “Entendemos que o funk atualmente produzido pela juventude negra e periférica também é afromineiridade. Queremos reverenciar os que vieram antes, valorizar os que hoje estão aqui e também pensar lá na frente, em quem vai dar continuidade a esta construção”.

Reflexos de um trabalho contínuo

Momento de celebração e gratidão, o cortejo do Seu Vizinho é quando as ações artísticas desenvolvidas ao longo do ano ganham maior visibilidade, como a bateria, formada pela turma da oficina de percussão, e o Grupo Vizinhas das C’Antigas, formado por mulheres idosas participantes da oficina que inclui contação de histórias, composição musical, construção de performance artística, manualidades e apresentações ao longo do ano.

Este ano a bateria sai com 90 integrantes moradores do Aglomerado da Serra e de outras regiões, reunindo diferentes gerações e trajetórias em um processo coletivo de formação e criação. E as matriarcas Vizinhas das C’Antigas, que lançaram o seu primeiro livro em 2025, farão a abertura do cortejo com uma performance que representa uma benção inicial, incluindo a cultura do Boi Minas Gerais, um dos momentos mais importantes do desfile e que tradicionalmente abre o festejo do Bloco Seu Vizinho. O desfile ainda conta com uma banda de 7 músicos e 4 regentes no trio elétrico e uma equipe formada por cerca de 100 profissionais de diferentes áreas.

Do ponto de vista geracional, o cortejo simboliza a importância da continuidade e da passagem de bastão, ou do apito, para a juventude. Atualmente, dois jovens que começaram no bloco ainda crianças, aos 8 e 10 anos de idade, atuam como regentes: Tubarão, de 19 anos, e Amandinha, de 20. Além disso, o Bloco Seu Vizinho realizou em fevereiro o Carnavalzinho das Crianças, um cortejo infantil, cuja bateria era formada pelas crianças da turma de percussão. Isso demonstra que o trabalho do Seu Vizinho é de longo prazo, com raízes profundas e olhar voltado para o futuro.

No que toca o trabalho contínuo do Seu Vizinho enquanto associação comunitária, o desfile celebra os impactos positivos gerados por outras iniciativas de transformação social, como o “2º Edital Acredita Favela”, um programa de aceleração cultural e formação voltado a agentes culturais periféricos da Região Metropolitana de BH que nunca aprovaram projetos em editais públicos.

Sobre o Bloco Seu Vizinho

O Seu Vizinho surgiu em novembro de 2014 como um bloco de carnaval na Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, uma das maiores favelas do Brasil. A proposta, desde o princípio, era fazer um carnaval acessível, coletivo, diverso e de resistência, que contribuísse para o fortalecimento das pessoas do território, em sua maioria negras, para a valorização da cultura e das potências da favela, e para a união da cidade. O lema do Seu Vizinho é “Todo Mundo Junto e Aglomerado!”.

Com o tempo, o bloco ampliou as ações no campo da arte, da cultura, da educação e do apoio socioassistencial às famílias da comunidade, e ainda buscou o crescimento do trabalho em rede com artistas, coletivos e outras organizações locais, ampliando sua atuação e impacto no Aglomerado da Serra.

Hoje, a Associação Sociocultural Seu Vizinho é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) formalizada, sem fins lucrativos, que atua com Arte e Cultura como Formação Humana. Certificada como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e registrada nos Conselhos Municipais do Idoso (CMI) e dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), a Associação mantém uma sede com uma Biblioteca Comunitária, acesso à internet wi-fi, um estúdio musical para ensaios e espaços para atividades culturais na comunidade. 

Ela também realiza oficinas artístico-culturais, o carnaval, eventos, formações profissionalizantes, entre outras ações. Além disso, possui uma Área de Apoio Socioassistencial para suporte na garantia de direitos das famílias. O público das ações inclui crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, principalmente moradores do Aglomerado da Serra, mas também pessoas de outras partes da cidade.

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