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“Viagem pela noite de Minas” estreia em BH e homenageia legado de Teuda Bara

O espetáculo “Viagem pela noite de Minas” estreia em Belo Horizonte propondo uma reflexão sobre o fazer artístico em tempos de repressão e adversidade. Inspirada nos diários da diretora e atriz Judith Malina, escritos durante sua passagem por Minas Gerais nos anos 1970 com o grupo Living Theatre, a montagem reúne diferentes gerações de artistas mineiros e marca também o último processo criativo com participação da atriz Teuda Bara, falecida em 2025.

Dirigida por Eduardo Moreira, a peça fica em cartaz de 22 a 31 de maio, no Teatro Francisco Nunes, com sessões às sextas-feiras, às 20h; sábados, às 18h e 20h; e domingos, às 18h. A classificação é de 12 anos. Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) e podem ser adquiridos em Sympla – Teatro Francisco Nunes.

A criação do espetáculo parte dos registros escritos por Judith Malina enquanto esteve presa em Minas Gerais, em 1971, durante a ditadura militar brasileira. Os textos, publicados na época pelo jornal Estado de Minas, revelam não apenas relatos do cotidiano vivido pelo grupo, mas também uma estratégia de resistência artística e política. Ao longo da pesquisa, a equipe compreendeu que os diários funcionavam como uma espécie de performance: ao mesmo tempo em que documentavam a realidade, protegiam o grupo e ajudavam a denunciar internacionalmente a repressão vivida no Brasil.

O espetáculo se estrutura a partir desses vestígios históricos e propõe um encontro entre memória, teatro e investigação. Em cena, dois pesquisadores percorrem as ruínas simbólicas de um ideal de arte coletiva e transformadora, guiados por uma figura feminina mutável, que atravessa tempos e linguagens e incorpora diferentes camadas de Judith Malina e da própria ideia de teatro.

Além da reconstrução histórica, “Viagem pela noite de Minas” também se conecta ao presente. Os intérpretes trazem para a cena questões sobre as condições atuais de criação artística, os desafios do fazer teatral contemporâneo e a necessidade de continuidade diante das perdas e transformações do mundo. A memória de Teuda Bara atravessa toda a montagem, transformando-se em símbolo de permanência e legado artístico.

O projeto foi idealizado por Jean Gorziza e desenvolvido ao longo de 2025 em encontros com João Santos, Marina Viana e Teuda Bara. Pouco antes de sua morte, Teuda convidou Eduardo Moreira, seu companheiro de fundação do Grupo Galpão, para assumir a direção do trabalho.

A montagem também resgata a atuação do DOPS, órgão de repressão da ditadura militar responsável pela prisão dos integrantes do Living Theatre em Minas Gerais. O episódio aconteceu às vésperas do Festival de Inverno da UFMG e exemplifica o uso de mecanismos institucionais para perseguir artistas, intelectuais e movimentos culturais durante os anos de chumbo.

Além da temporada do espetáculo, o projeto homenageia Teuda Bara com uma instalação na vitrine do Teatro Marília. A homenagem fica em cartaz de 23 de maio a 22 de julho de 2026 e celebra a trajetória da atriz, que estreou profissionalmente naquele teatro, em 1976.

Natural do Rio de Janeiro, Eduardo Moreira é ator, diretor e dramaturgo, fundador do Grupo Galpão e participante de todos os espetáculos da companhia. Já Jean Gorziza atua como ator, diretor e pesquisador teatral em Belo Horizonte, enquanto João Santos desenvolve trabalhos como dramaturgo, escritor e pesquisador da cena contemporânea. Marina Viana, por sua vez, é atriz, performer, dramaturga e diretora de artes cênicas, integrando importantes coletivos teatrais da capital mineira.

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