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Depois das festas, é hora de reprogramar o relógio biológico

O Carnaval acabou, as férias viraram memória, mas o corpo ainda resiste ao despertador. Quem atravessou dias ou semanas de horários desorganizados por festas, viagens e noites maldormidas agora enfrenta cansaço persistente, irritabilidade e queda de produtividade. O problema vai além do desconforto. Tem impacto direto na saúde física, emocional e cognitiva. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz indica que 72% dos brasileiros sofrem com distúrbios do sono, incluindo insônia. Já o Ministério da Saúde aponta que os brasileiros dormem, em média, 6,4 horas por noite, abaixo das 7 a 9 horas recomendadas para adultos.

Segundo o otorrinolaringologista especialista em sono e cooperado da Unimed-BH Tiago Gonçalves, a privação ou irregularidade do descanso gera muito mais do que o cansaço. “Em poucos dias já podem surgir queda da atenção, lapsos de memória, irritabilidade, piora do humor e redução de reflexos e produtividade”, afirma. No médio prazo, o quadro compromete o sistema imunológico, eleva o risco de infecções, pressão alta, descontrole glicêmico e ganho de peso.

O relógio biológico, regulado principalmente pela luz e pelos horários habituais, atua como um sistema de sincronização interna. Quando a rotina é quebrada por privação de sono, consumo excessivo de álcool e exposição noturna a telas, esse mecanismo perde a sincronia.

Reorganizar exige disciplina

O organismo tende a se reorganizar, mas a retomada do equilíbrio não acontece de imediato. De acordo com Gonçalves, a readaptação depende da intensidade da desorganização dos horários. Se a alteração durou poucos dias, o corpo precisa de três a sete dias de disciplina para se realinhar. Após férias prolongadas ou semanas de horários irregulares, o processo pode levar de duas a três semanas. “Para que a transição seja eficaz, é fundamental manter horários fixos para dormir e acordar, além de buscar exposição à luz natural logo pela manhã”, orienta.

Na tentativa de compensar o déficit de descanso, muitas pessoas estendem o sono nos fins de semana, mas nem sempre funciona. Dormir até uma hora a mais pode ajudar. Já manter vigília prolongada ou compensar com longos períodos de sono diurno desorganiza ainda mais o organismo. “Isso provoca o chamado jet lag social, que dificulta pegar no sono no domingo e perpetua o ciclo de insônia”, explica.

Frequentemente associado ao período carnavalesco, o álcool também agrava o problema. “Embora cause sonolência inicial, compromete significativamente a qualidade do sono, pois fragmenta o repouso e reduz a fase REM, fundamental para memória e regulação emocional. A pessoa acorda cansada mesmo após muitas horas na cama”, afirma. Para o especialista, afirmar que o álcool não interfere no descanso é uma percepção equivocada, apesar de os efeitos aparecerem no dia seguinte, com maior propensão ao ronco, apneias e refluxo.

Quando a insônia deixa de ser passageira

A insônia passa a ser considerada um transtorno quando ocorre ao menos três vezes por semana, por mais de três meses, com prejuízo claro na vida diária. Nessa fase, deixa de ser um sintoma pontual e exige avaliação médica. Muitas vezes vem acompanhada de ansiedade ou depressão.

O tratamento medicamentoso pode ser indicado em situações específicas, mas não é a primeira linha. “O tratamento de base da insônia crônica é comportamental. Ajuste de horários, exposição à luz natural pela manhã e, quando possível, terapia cognitivo-comportamental são fundamentais. A medicação deve ser usada por tempo limitado e sob acompanhamento médico.”

Medidas simples fazem diferença. Manter horários fixos, reduzir telas à noite, evitar cochilos longos após as 15 horas e priorizar a luz natural pela manhã ajudam a recalibrar o relógio biológico.

“Dormir bem não é luxo, é um determinante fisiológico da saúde cardiovascular, metabólica e mental”, enfatiza o médico. Após as festas, a disciplina pode ser menos glamourosa que a folia, mas é ela que devolve ao corpo o ritmo necessário para sustentar o equilíbrio no dia a dia.

Dicas para uma boa noite de sono

  • Regularidade é essencial: dormir e acordar em horários consistentes é mais importante do que a duração ocasional do sono.
  • Luz matinal: a exposição à luz natural pela manhã ajuda a regular o relógio biológico.
  • Telas à noite atrapalham: a luz azul de celulares, TVs e computadores inibe a liberação de melatonina e adia o início do sono.
  • Observe sinais de alerta: ronco frequente, pausas respiratórias, sono não reparador e sonolência excessiva durante o dia não são normais e merecem avaliação médica.

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