A construção de uma alimentação saudável na infância começa em casa, nas refeições compartilhadas, na disponibilidade dos alimentos e, sobretudo, nos exemplos.
Embora a qualidade dos alimentos seja fundamental, a forma como a família se relaciona com a comida também influencia as preferências alimentares que se desenvolvem ao longo da infância.
Pais e responsáveis exercem um papel importante nesse processo. A criança observa o que os adultos comem, como reagem diante de alimentos desconhecidos, quais bebidas fazem parte da rotina e até mesmo a importância que atribuem aos momentos à mesa. Por isso, incentivar hábitos saudáveis exige mais do que orientações verbais: exige coerência entre aquilo que se ensina e aquilo que se pratica. Afinal, é difícil esperar que uma criança adquira hábitos que não são vividos no ambiente em que está inserido.
A importância de oferecer, e continuar oferecendo
Um dos desafios mais comuns na alimentação infantil é a recusa de frutas, verduras e legumes. Diante dessa situação, muitos adultos deixam de oferecer determinado alimento após algumas tentativas frustradas. Entretanto, a recusa inicial não significa necessariamente que a criança nunca aceitará aquele alimento.
A familiarização com sabores, aromas e texturas pode exigir paciência e exposições repetidas. Vale a pena oferecer o alimento em outros momentos, sem pressão, chantagem ou punição. Também é possível variar a apresentação, o corte, o método de cozimento e a preparação culinária.
Uma criança que rejeita a cenoura cozida, por exemplo, pode demonstrar interesse quando ela é apresentada ralada, grelhada ou incorporada a uma preparação familiar. Isso não significa esconder os alimentos, mas ampliar as oportunidades de contato com diferentes características sensoriais.
O mais importante é compreender que a aceitação alimentar faz parte de um processo de aprendizagem. A persistência dos adultos, associada a um ambiente tranquilo, pode favorecer a ampliação do repertório alimentar infantil.

Doces, refrigerantes e frituras: o que deve fazer parte da rotina?
Na infância, a preferência por determinados sabores e a familiaridade com os alimentos ainda estão em desenvolvimento. Diante disto, como uma criança de um ano poderia gostar de chocolate, se ela nunca comeu? Se ela ainda não experimentou, não se sabe se ela gosta ou não. Portanto segure ao máximo a vontade de expor a sua criança a alimentos evitáveis e não essenciais na infância (como açúcar, doces, frituras, chocolates, bolachas recheadas, balas, salgadinhos).
É importante priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, verduras, feijões, cereais e preparações caseiras, evitando que produtos ultraprocessados ricos em açúcar, sódio e gorduras de baixa qualidade nutricional ocupem espaço frequente na rotina.
Isso não significa que a alimentação deva ser conduzida pelo medo, rigidez ou restrições excessivas – ameaças ou recompensas com comida podem tornar as refeições mais tensas e dificultar uma relação equilibrada com a alimentação.
Inevitavelmente as crianças vão entrar em contato com doces, refris e frituras no futuro, o objetivo é construir um ambiente em que os alimentos nutritivos estejam disponíveis e preferidos com frequência, e em que produtos de baixo valor nutricional não sejam a escolha habitual.
Quanto mais consistente for esse ambiente, maiores serão as chances de a criança desenvolver preferências compatíveis com uma alimentação saudável.
O exemplo dos adultos também alimenta
Imagine uma criança que recebe orientações para beber água, comer frutas e experimentar verduras, mas observa os adultos da casa consumindo refrigerantes diariamente, evitando vegetais e passando as refeições diante da televisão ou do celular.
Nesse contexto, existe uma diferença entre o comportamento solicitado e aquele que a criança observa na prática. Quando os adultos fazem o que orientam, o registro dos exemplos passam a fazer parte da experiência cotidiana da criança.
O mesmo vale para o exercício físico, a organização da rotina e os momentos à mesa. Crianças aprendem observando e participando do ambiente familiar. Assim, mais do que cobrar, os responsáveis podem criar oportunidades para vivenciar esses hábitos em conjunto.
Essa ideia também se aplica ao uso de telas durante as refeições. Desligar a televisão e guardar o celular pode ajudar a tornar o momento mais tranquilo, favorecer a atenção aos sinais de fome e saciedade e estimular a convivência familiar. Comer junto, conversar e compartilhar a refeição são formas de fortalecer a relação com a comida e entre as pessoas.

Variedade alimentar não precisa significar alto custo
Oferecer variedade é outra estratégia importante para ampliar o repertório alimentar infantil. E isso não exige, necessariamente, comprar produtos caros ou alimentos considerados sofisticados.
O feijão, por exemplo, pode continuar presente na rotina enquanto a família introduz, ocasionalmente, lentilha, ervilha ou grão-de-bico. A mesma lógica vale para variar as frutas da estação, alternar os legumes disponíveis e experimentar diferentes preparações com ingredientes habituais – isto amplia o contato com novos sabores, texturas e combinações, além de contribuir para a diversidade de nutrientes consumidos.
Consumir os alimentos da época, planejar as refeições aproveitar integralmente os alimentos quando apropriado e cozinhar juntos, além de ser prazeroso, também podem ajudar a tornar a variedade financeiramente acessível.
É natural que a aceitação varie de um dia para outro. O importante é observar o padrão do dia a dia, manter a oferta de alimentos nutritivos, variar sempre que possível e procurar orientação profissional quando houver recusa alimentar geral e persistente, ou preocupações com crescimento, doenças e com o desenvolvimento.
A formação dos hábitos alimentares não acontece em uma única refeição e cada família tem sua realidade, seus desafios, suas preferências e suas possibilidades financeiras. Por isso, mais do que ensinar uma criança a comer determinados alimentos, os adultos têm a oportunidade de ajudá-la a desenvolver uma relação positiva com a comida, com o preparo de suas refeições, com o próprio corpo e com o cuidado com sua saúde.
Ações inspiram e o exemplo arrasta.
Empenhe-se em ajudar a desenvolver uma criança saudável e feliz!
Até o próximo texto.
Marcela Nutri

Marcela Rodrigues Rocha
Nutricionista (CRN9 – 5529), especialista em Gastronomia (FAMESP), Mestre em Ciências dos Alimentos (IFTM) e Doutora em Engenharia de Alimentos – USP.
@marceladricha
Fotos: Magnific



