Há mais de dois mil anos, o próprio Cristo profetizava que seus seguidores não teriam vida fácil. Segundo o Messias, eles seriam presos, perseguidos, mortos e odiados em todo o mundo, conforme escancara o texto bíblico. Ainda hoje, o alerta segue vivo. Mais do que isso, a comunidade cristã vivencia um tempo de turbulências, até mesmo no Brasil.
Segundo a Lista Mundial de Vigilância 2026, que monitora a violência nos 50 países mais hostis ao cristianismo, 4.849 pessoas foram assassinadas no ano passado simplesmente por expressarem a fé cristã. Deste total, 72% dos crimes ocorreram na Nigéria. O que também chama a atenção é que, pelo levantamento, o país africano é apenas o 7º na lista dos mais fechados à doutrina. Outras nações, como a Coreia do Norte, a Somália e o Iémen, lideram o ranking porque apresentam políticas ainda mais rígidas de perseguição a esses fiéis.
O Brasil, evidentemente, não está na lista. Até porque seria uma controvérsia, considerando que 83,6% da nossa população declara-se católica ou evangélica, como revela o Censo de 2022 do IBGE. Porém, o fato de haver um imenso predomínio de cristãos não inibe a incidência de ataques ao cristianismo, nem tampouco as formas como essas agressões acontecem.
As declarações de ódio nem sempre ocorrem presencialmente ou sob a asa do anonimato nos falsos perfis de redes sociais como o Facebook, o X ou o Instagram. Há formadores de opinião e produtores de conteúdo que têm encontrado ambientes férteis às manifestações contra os cristãos. E pior: o ódio surge muitas vezes dos mesmos indivíduos que defendem uma sociedade mais justa, democrática e equânime.
Um dos casos em que isso ficou nítido ocorreu em setembro passado, quando o ativista político de direita Charles Kirk foi assassinado com um tiro de arma de fogo enquanto discursava na Universidade do Vale de Utah (UVU), nos EUA. Logo na sequência, uma onda de usuários identificados com a esquerda comemorando efusivamente o atentado em ambientes digitais.
O jornalista e historiador Eduardo Bueno, que possui mais de 1,5 milhão de seguidores, foi um dos que aderiu ao sarcasmo diante da violência, apenas em nome de sua posição política. No caso dele, não foi caso isolado. Em outra oportunidade, ele já vociferou contra o voto dos evangélicos, porque elegem “uma escumalha perigosa e violenta”. A democracia, a cidadania, a inclusão social e a igualdade de renda vão somente até a página 2, se no caminho houver o contraditório, o debate e o direito ao livre exercício da fé.
Assim, um dos alimentos que saciam a voracidade do autoritarismo é o discurso de ódio. Por sua vez, o produto deste ódio é a repressão. Duvida? Basta revisitar os nomes dos países citados na Lista Mundial de Vigilância e cruzar com qualquer levantamento que indique as nações mais fechadas do mundo. Com a repressão, vem a relativização da violência em nome do poder, das diferenças ideológicas e de crença.
O cristianismo, que por sinal é o nascedouro dos valores morais aplicados às democracias ocidentais, precisa e merece ser respeitado, assim como qualquer outra doutrina religiosa. Quem odeia os cristãos e suas manifestações de fé está a um abismo de distância da defesa do progresso humano e social. A estes, falta coerência e sobra contorcionismo ideológico. A desumanização disfarçada de discurso também é capaz de matar.

Lia Noleto de Queiroz, advogada, consultora jurídica com foco em processo legislativo e construção de políticas públicas, e mestre em políticas públicas e governo pela Fundação Getúlio Vargas



