O Dia Mundial do Braille, celebrado em 4 de janeiro, remete ao nascimento de Louis Braille, o jovem francês que transformou seis pontos em relevo em um sistema de escrita capaz de dar voz e autonomia a milhões de pessoas com deficiência visual. Inventado no século XIX, o Braille foi reconhecido como um divisor de águas na educação para quem não enxerga, permitindo não apenas o acesso à informação, mas também à participação plena na vida escolar, profissional e social. Mesmo em um mundo cada vez mais digital, sua importância permanece inquestionável, talvez hoje até mais urgente, diante das barreiras de acessibilidade que ainda marcam a sociedade contemporânea.
Uma trajetória de inclusão real
A Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual é uma das instituições que, no Brasil, transformam essa história em ação concreta. Criada em 1991 por um casal motivado pela experiência com sua filha cega, a organização tornou-se referência no apoio ao desenvolvimento e à inclusão de pessoas com deficiência visual em todas as fases da vida. Ao longo de quase 35 anos, já atendeu dezenas de milhares de famílias de diferentes regiões do país e integra programas que vão da intervenção precoce na infância ao suporte para jovens, adultos e idosos, sempre com foco na autonomia e na cidadania.
Em sua sede na Barra Funda, em São Paulo, a Laramara desenvolve atendimentos especializados que incluem o acesso ao Sistema Braille, além de atividades de orientação e mobilidade, eficiência visual para baixa visão, vida autônoma e tecnologia assistiva. A instituição ainda conta com sinalização tátil, materiais identificados em Braille e ambientes planejados para responder às necessidades de seus usuários, o que favorece tanto o aprendizado quanto o desenvolvimento de habilidades que vão além da sala de aula
Braille como elemento de desenvolvimento e inclusão
Para muitas famílias atendidas, o Braille não é somente um sistema de escrita tátil, mas um instrumento de liberdade. A Laramara também promove o aprendizado dessa linguagem tátil desde a infância, integrando-o a um conjunto de atividades pedagógicas e sociais que incluem oficinas de artes, tecnologia da informação, comunicação, cidadania e preparação para o mundo do trabalho. Trabalhar com o Braille desde cedo é considerado fundamental para o desenvolvimento da linguagem, para a alfabetização plena e para garantir o acesso a direitos básicos, como educação e emprego, reforçando o papel do sistema como alicerce da inclusão.
Além disso, a instituição mantém uma biblioteca com materiais em Braille e orienta famílias e educadores sobre seu uso, além de produzir impressões em Braille e apoiar a fabricação de equipamentos como máquinas de escrever em Braille, tornando esses recursos mais acessíveis no Brasil.
O desafio da acessibilidade no mundo digital
Apesar de todos esses esforços e conquistas, a inclusão ainda enfrenta desafios significativos. Em pleno século XXI, grande parte das plataformas digitais, serviços públicos e produtos de comunicação ainda carece de acessibilidade real para pessoas cegas ou com baixa visão. Embora tecnologias de leitura automática e recursos de fala sejam amplamente utilizados, esses dispositivos não substituem a alfabetização em Braille, que oferece controle, privacidade e compreensão profunda da linguagem escrita, elementos essenciais para a autonomia individual.
Especialistas afirmam que o mundo digital precisa evoluir não apenas em função das inovações tecnológicas, mas com compromisso ético com os direitos humanos. “O Braille não é apenas um método de leitura; é, sobretudo, uma ferramenta de emancipação cultural e social”, afirma Beto Pereira, analista de relações institucionais da Laramara, destacando a necessidade de políticas públicas e iniciativas privadas que garantam acessibilidade plena tanto no ambiente físico quanto no digital.
Uma data para celebrar e refletir
O Dia Mundial do Braille, mais do que uma celebração histórica, é um convite à reflexão: até que ponto a sociedade está pronta para abraçar a inclusão em todas as suas dimensões? É um chamado para que escolas, governos, empresas e plataformas digitais avancem em seus compromissos com acessibilidade, garantindo que ninguém seja deixado para trás.
A Laramara e outras organizações que atuam na área apontam que a luta por acessibilidade é contínua e que datas como 4 de janeiro devem servir para reforçar a importância de políticas educacionais que incluam o Braille, ações de formação de docentes, legislação que obrigue rotulagem acessível e interfaces digitais que respeitem os direitos de pessoas com deficiência visual.
Celebrar o Dia Mundial do Braille é celebrar a história de um código que abriu portas. Mas é também reconhecer que ainda há muitos caminhos a percorrer até que a igualdade de oportunidades seja uma realidade para todos. Em um país em que ainda existem barreiras no acesso às informações e na oferta de serviços adaptados, a pauta da inclusão continua urgente e o Braille permanece no centro dessa luta



