O que existe por trás das aparências? Em um mundo que insiste em classificar, rotular e excluir, o documentário “Um Coração”, da Atlântico Filmes, surge como um convite urgente à escuta e à empatia. Finalizado e pronto para iniciar sua trajetória em festivais de cinema do Brasil e do exterior, o filme parte de uma premissa simples e universal: a de que todos carregamos um coração que bate em um ritmo cadenciado — às vezes mais acelerado, em outras, mais lento. A partir disso, provoca o público a refletir: se somos tão iguais por dentro, por que ainda somos tratados de formas tão desiguais?
Inspirado pela força poética que atravessa o Brasil, aquele que Jorge Ben Jor cantou como “abençoado por Deus”, o documentário encara uma dura realidade: o país segue sendo um dos que mais mata pessoas travestis e transexuais no mundo. É nesse território de contrastes que “Um Coração” se insere, propondo um cinema que não apenas mostra, mas sente.
Com direção e produção de Dalila Pires e Mônica Veiga, o curta-metragem de 19 minutos acompanha o cotidiano de três jovens artistas das periferias de Belo Horizonte. Miuk, pessoa não binária, artista da cena Vogue e moradora do Aglomerado da Serra; Rudá, um homem trans, dançarino de break que já levou sua arte ao mundo com o Cirque du Soleil; e João, um homem cis gay, de expressão de gênero fluida, integrante de um coral gospel inclusivo. A obra foi realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte / Edital Descentra.
“Produzimos um filme que não apenas mostra, mas sente. Que fale de corpos e de territórios, mas que toque primeiro o coração — esse músculo que é metáfora e matéria, que bate no compasso da vida e, tantas vezes, também no compasso do medo. Sabemos que um documentário pode abrir conversas, fazer pensar e, às vezes, transformar. Esse é o intuito de ‘Um Coração'”, explica Mônica Veiga.
Entre refeições, deslocamentos urbanos, momentos de trabalho, espiritualidade e lazer, o filme constrói uma narrativa sensível em montagem paralela, costurada por depoimentos íntimos que revelam sonhos, dores e resistências. Mais do que registrar, o filme traduz afetos.
“São nesses momentos cotidianos que a humanidade se revela inteira, mesmo quando o mundo insiste em fragmentar, excluir ou apagar. “Um Coração” é um filme que se aproxima com respeito, desvela com beleza e provoca com ternura. Que cada batida ouvida na tela lembre ao público que viver é sentir — e que toda vida que sente merece existir em sua plenitude”, destaca Dalila Pires.
“O filme nasce do desejo de escutar com profundidade e de construir, junto com essas pessoas, um espaço onde suas existências possam ser vistas em toda a sua complexidade, para além das violências, mas sem apagá-las”, afirma Mônica.
Dalila ressalta o compromisso ético e estético da produção: “Pensar o filme foi também pensar em como criar um ambiente de confiança e cuidado. Existe uma dimensão política muito forte em garantir que essas histórias sejam contadas com responsabilidade, mas também com liberdade sensível.”, conclui.



