Cultura

Marcelo Xavier transforma livros em mundos habitáveis na exposição “Asa de Papel” no CCBB BH

A imaginação como matéria viva, capaz de ganhar forma, cor, textura e movimento, é o ponto de partida da exposição “Asa de Papel – Marcelo Xavier”, que estreia no dia 1° de julho no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH). Com curadoria de Marconi Drummond, a mostra apresenta um amplo mergulho na trajetória de um dos principais nomes da literatura infantojuvenil, da arte-educação e da cultura visual brasileira contemporânea, reunindo mais de quatro décadas de produção artística em uma experiência que ultrapassa os limites tradicionais da exposição e transforma o ato de ler em uma vivência coletiva e sensorial.

A exposição propõe ao visitante percorrer os caminhos criativos de Marcelo Xavier, artista que revolucionou a ilustração brasileira ao desenvolver, a partir dos anos 1980, uma linguagem singular baseada em esculturas feitas com massa de modelar, posteriormente fotografadas e transformadas em narrativas visuais. Ao longo dos anos, sua obra atravessou fronteiras entre literatura, artes visuais, fotografia, escultura, teatro, carnaval, educação e cultura popular, construindo um universo reconhecido pela potência poética e pela capacidade de dialogar com públicos de diferentes idades.

O percurso expositivo foi concebido como uma grande experiência de imersão. Logo na chegada, personagens criados por Marcelo recepcionam o público e anunciam o tom lúdico da visita. Em seguida, os visitantes atravessam a instalação “Asa da Palavra”, um túnel formado por superfícies espelhadas, letras suspensas e paisagens sonoras que introduzem o universo do artista. A partir daí, o percurso se desdobra em diferentes ambientes inspirados em livros marcantes de sua trajetória, combinando instalações, videografias, objetos, desenhos, esculturas, sons e experiências interativas.

Entre os destaques está o núcleo dedicado a “Asa de Papel”, obra considerada uma das mais emblemáticas de sua carreira. O espaço reúne projeções, ambientes multissensoriais e o chamado Gabinete MX, uma espécie de museu afetivo do artista, composto por fotografias, desenhos, objetos pessoais, sons e memórias. Gavetas podem ser abertas pelo público, revelando histórias, referências e processos criativos que ajudam a compreender a construção de uma das obras mais originais da cultura brasileira contemporânea.

A mostra também apresenta ambientes inspirados em livros como “Mitos”, “Festas”, “Tem de Tudo Nesta Rua”, “Truques Coloridos”, “O Dia a Dia de Dadá” e “Se Criança Governasse o Mundo”. Em cada núcleo, temas recorrentes da produção de Marcelo Xavier ganham novas camadas de interpretação: a infância como território de invenção, a valorização da cultura popular, a convivência com as diferenças, a ocupação afetiva da cidade, a imaginação como ferramenta de transformação social e a defesa de um mundo mais inclusivo.

Segundo o curador Marconi Drummond, a exposição busca revelar a dimensão expandida da obra do artista. “Marcelo Xavier criou uma linguagem única no Brasil. Sua produção transforma o livro em espaço de encontro entre arte, literatura, educação, cultura popular e experiência sensorial. A exposição foi pensada como um território de convivência e imaginação, onde o visitante deixa de ser apenas espectador para tornar-se participante ativo das narrativas e experiências propostas”, apresenta.

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Marcelo Xavier – Arquivo Pessoal

Vida e obra se cruzam na defesa da inclusão

A trajetória pessoal de Marcelo Xavier ocupa um lugar central na narrativa da exposição. Cadeirante e convivendo há mais de duas décadas com os efeitos da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o artista transformou sua experiência com a deficiência em uma poderosa reflexão sobre autonomia, pertencimento e inclusão. Em sua produção mais recente, o corpo, a diferença e o direito à participação plena na vida cultural aparecem como temas fundamentais, ampliando o alcance político e humano de sua obra.

“Minha vida sempre foi movida pela curiosidade, pelo desejo de brincar e pela vontade de criar mundos. Com o tempo, compreendi que a imaginação também é uma forma de resistência e de encontro. Esta exposição fala sobre isso: sobre a possibilidade de construir espaços onde todos possam participar, criar, sonhar e pertencer”, destaca Marcelo Xavier.

Essa perspectiva atravessa toda a concepção do projeto e ganha força especial na proposta de acessibilidade. Em vez de aparecer como recurso complementar, ela foi incorporada desde o início como princípio estruturante da curadoria e da expografia. O projeto reúne experiências táteis, audiodescrição, conteúdos em Libras, textos em Braille, mobiliário acessível, mediações inclusivas, audioguias e dispositivos de interação que contemplam diferentes formas de percepção e participação.

A proposta de acessibilidade, desenvolvida pela especialista Luciana Miglio, parte do conceito de “perceber em plural” e entende a experiência cultural como um processo construído por múltiplos sentidos. Maquetes táteis, objetos disponíveis para toque, conteúdos sonoros, recursos visuais acessíveis e percursos pensados segundo os princípios do Desenho Universal fazem da exposição um espaço de pertencimento e autonomia. Em sintonia com a própria trajetória do artista, a mostra propõe uma experiência em que diversidade e convivência deixam de ser temas para se tornarem práticas concretas.

Ao integrar literatura, arte, educação, cultura popular e acessibilidade em uma mesma experiência, “Asa de Papel – Marcelo Xavier” reafirma a potência transformadora da imaginação. Mais do que apresentar a obra de um artista, a exposição convida o público a habitar seus mundos, atravessar suas histórias e experimentar a arte como um lugar onde ler, tocar, brincar, criar e conviver são gestos inseparáveis. Um espaço onde, como defende Marcelo Xavier há décadas, todo mundo cabe.

SERVIÇO

Exposição: Asa de Papel – Marcelo Xavier

Local: Galerias do Térreo – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH)
Período: 1° de julho a 12 de outubro de 2026

Horários: Quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 22h
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte
Classificação: Livre
Entrada: Gratuita, mediante retirada de ingresso pelo site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH

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